Escritura Criativa com Antônio Torres em Madri

Antônio Torres (Sátiro Dias, 1940) é o escritor da obra “Essa terra”, que está entre as cinco primeiras da minha lista de preferidas da literatura brasileira. Antônio Torres é simpático, acessível, mantém uma comunicação fluida com seus leitores, é um “cara” legal.

Hoje eu o conheci pessoalmente em Madri numa master class sobre escritura criativa, só havia eu de brasileira.

Algumas conclusões sobre o ofício da escritura:

  • Disciplina: a diferença entre duas pessoas que sonham em escrever um livro, uma que consegue e a outra não, é a constância e o trabalho. Bom ou ruim, publicando ou não, a pessoa disciplinada consegue chegar ao final. Há distrações demais e desconectar- se de todas não é tão fácil. É necessário despedir- se de tudo que tire a atenção do escritor.
  • Solidão: escrever é um ato solitário e que exige atenção total. É das poucas coisas na vida que não podem ser feitas junto com alguma outra. Escrever é enfrentar a solidão e dialogar com os próprios pensamentos e emoções. Mergulhar neste mundo interior de recordações e experiências nem sempre agradáveis pode ser desgastante, muita gente foge disto.
  • Escolhas: para escrever é preciso deixar de fazer alguma outra coisa. O tempo é curto e algo vai ter que ficar para trás.
  • Técnica: Antônio Torres acha que pode- se aprender a escrever (tal como pensamos a literatura, como Arte). Ele falou sobre o conflito que é o X da narrativa. E o conflito clássico por excelência é o relacionamento homem x mulher. E eu acrescento: ou homem x homem, ou mulher x mulher. O que se faz com isso já fica por conta do talento do escritor ou escritora. Torres acha que não há problema que um texto esteja inspirado em outro, que lembre outro. Essa é uma questão que concordo parcialmente. Quando lembra demais me parece uma grande falha do autor. Acho que a “originalidade” é uma grande virtude, a mais difícil de se conseguir. Dentro dos arquétipos clássicos, quem consegue contar a mesma coisa de uma forma “diferente” é rei ou rainha.
  • Musicalidade: Antônio Torres narra como quem compõe uma obra musical. Há que se observar o ritmo, a cadência das palavras.
  • Critério: escolher a palavra certa é uma tarefa hercúlea muitas vezes para o autor. James Joyce uma vez foi encontrado por seus amigos deitado na mesa da cozinha, preocupado: “hoje só escrevi cinco palavras e não sei em que ordem colocá- las”. O autor demorou sete anos para escrever Ulisses, hiper- crítico com seu trabalho. Saramago jamais escrevia mais de duas folhas por dia…enfim, a palavra é para ser escolhida com pinça cirúrgica.

Escrever é começar algo sem tempo certo para terminar. Isto provoca ansiedade em muito sonhador ou sonhadora, que desiste antes de começar.

Antônio Torres, Residencia de los Estudiantes, 29/10/2019 (foto: Fernanda Sampaio)

O evento aconteceu na “Residencia de los estudiantes“, um centro estudantil- cultural fundado em 1910 na cidade de Madri, no bairro Chamberí, com o objetivo de complementar o ensino universitário proporcionando interação entre artes e ciências, além da criação e difusão. Muitos intelectuais ilustres frequentaram a Residência, a prata da casa: Miguel de Unamuno, Alfonso Reyes, Manuel de Falla, Juan Ramón Jiménez, José Ortega y Gasset, Pedro Salinas, Blas Cabrera, Eugenio d’Ors ou Rafael Alberti, por exemplo, e também os visitantes: Albert Einstein, Paul Valéry, Marie Curie, Igor Stravinsky, John M. Keynes, Alexander Calder, Walter Gropius, Henri Bergson e Le Corbusier.

A Residência também é dormitório para estudantes. É um lugar bastante interessante, com gente também muito interessante e inspiradora.

Na próxima quinta- feira estarei lá e prometo tirar mais e melhores fotos para vocês sentirem o ambiente incrível do lugar.

Foi um prazer receber um baiano, um brasileiro para dar dicas sobre a arte literária na terra de Cervantes. Este tipo de brasileiro que nos orgulha aqui fora.

Já me segue no Instagram? @falandoemliteratura

3 comentários

  1. Escritura Criativa com Antônio Torres em Madri

    Antônio Torres (Sátiro Dias, 1940) é o escritor da obra “Essa terra”, que está entre as cinco primeiras da minha lista de preferidas da literatura brasileira. Antônio Torres é simpático, acessível, mantém uma comunicação fluida com seus leitores, é um “cara” legal.

    Hoje eu o conheci pessoalmente em Madri numa *master class* sobre escritura criativa, só havia eu de brasileira.

    Algumas conclusões sobre o ofício da escritura:

    – Disciplina: a diferença entre duas pessoas que sonham em escrever um livro, uma que consegue e a outra não, é a constância e o trabalho. Bom ou ruim, publicando ou não, a pessoa disciplinada consegue chegar ao final. Há distrações demais e desconectar- se de todas não é tão fácil. É necessário despedir- se de tudo que tire a atenção do escritor. – Solidão: escrever é um ato solitário e que exige atenção total. É das poucas coisas na vida que não podem ser feitas junto com alguma outra. Escrever é enfrentar a solidão e dialogar com os próprios pensamentos e emoções. Mergulhar neste mundo interior de recordações e experiências nem sempre agradáveis pode ser desgastante, muita gente foge disto. – Escolhas: para escrever é preciso deixar de fazer alguma outra coisa. O tempo é curto e algo vai ter que ficar para trás. – Técnica: Antônio Torres acha que pode- se aprender a escrever (tal como pensamos a literatura, como Arte). Ele falou sobre o conflito que é o X da narrativa. E o conflito clássico por excelência é o relacionamento homem x mulher. E eu acrescento: ou homem x homem, ou mulher x mulher. O que se faz com isso já fica por conta do talento do escritor ou escritora. Torres acha que não há problema que um texto esteja inspirado em outro, que lembre outro. Essa é uma questão que concordo parcialmente. Quando lembra demais me parece uma grande falha do autor. Acho que a “originalidade” é uma grande virtude, a mais difícil de se conseguir. Dentro dos arquétipos clássicos, quem consegue contar a mesma coisa de uma forma “diferente” é rei ou rainha. – Musicalidade: Antônio Torres narra como quem compõe uma obra musical. Há que se observar o ritmo, a cadência das palavras. – Critério: escolher a palavra certa é uma tarefa hercúlea muitas vezes para o autor. James Joyce uma vez foi encontrado por seus amigos deitado na mesa da cozinha, preocupado: “hoje só escrevi cinco palavras e não sei em que ordem colocá- las”. O autor demorou sete anos para escrever Ulisses, hiper- crítico com seu trabalho. Saramago jamais escrevia mais de duas folhas por dia…enfim, a palavra é para ser escolhida com pinça cirúrgica.

    Escrever é começar algo sem tempo certo para terminar. Isto provoca ansiedade em muito sonhador ou sonhadora, que desiste antes de começar. *Antônio Torres, Residencia de los Estudiantes, 29/10/2019 (foto: Fernanda Sampaio)*

    O evento aconteceu na “Residencia de los estudiantes “, um centro estudantil- cultural fundado em 1910 na cidade de Madri, no bairro Chamberí, com o objetivo de complementar o ensino universitário proporcionando interação entre artes e ciências, além da criação e difusão. Muitos intelectuais ilustres frequentaram a Residência, a prata da casa: Miguel de Unamuno, Alfonso Reyes, Manuel de Falla, Juan Ramón Jiménez, José Ortega y Gasset, Pedro Salinas, Blas Cabrera, Eugenio d’Ors ou Rafael Alberti, por exemplo, e também os visitantes: Albert Einstein, Paul Valéry, Marie Curie, Igor Stravinsky, John M. Keynes, Alexander Calder, Walter Gropius, Henri Bergson e Le Corbusier.

    A Residência também é dormitório para estudantes. É um lugar bastante interessante, com gente também muito interessante e inspiradora.

    Na próxima quinta- feira estarei lá e prometo tirar mais e melhores fotos para vocês sentirem o ambiente incrível do lugar.

    Foi um prazer receber um baiano, um brasileiro para dar dicas sobre a arte literária na terra de Cervantes. Este tipo de brasileiro que nos orgulha aqui fora.

    Já me segue no Instagram? @falandoemliteratura

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