O perfume de Clarice Lispector


Qual era o perfume que Clarice usava? Ela contou em uma de suas crônicas para o Jornal do Brasil. Os textos posteriormente foram reunidos no livro “Aprendendo a viver”, um dos meus preferidos.

A minha edição de 2004 abaixo, amada e surradinha de tão usada:

As crônicas são confessionais. Podemos conhecer melhor Clarice Lispector através delas. Seu cotidiano, viagens, problemas físicos, domésticos, sobre sua a família, sonhos, tudo entremeado com muita sensibilidade, questionamentos e reflexões sobre a vida e morte. São 218 textos entre 1969 e 1972. 

Sobre a sua mão queimada num incêndio, ela intitulou “Revolta”:

Quando tiraram os pontos de minha mão operada por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus. (p.193)

Realmente, Clarice, o futuro não está legal. Que você acharia de tudo que está acontecendo aqui agora?

Há vários textos onde Clarice fala sobre o seu ofício. Teve momentos que achou que não podia mais:

Não sei mais escrever, perdi o jeito (…) (p.189)

Sobre a dor da vida, ela deu “O Grito” (p.195). Primeiro a autora questiona a natureza do texto, não sabia se era crônica, coluna, artigo, ela só precisava gritar dizendo- se cansada de si mesma. Disse que ia parar de escrever livros, porque seria tão dura que ninguém aguentaria, nem ela. Vai ver por isso escreveu “A hora da estrela”, com Macabea, a personagem que mais representa uma grande camada de brasileiras, pisoteadas e humilhadas na sociedade. Seu último livro, infelizmente:

O mundo falhou para mim, eu falhei para o mundo. Portanto não quero mais amar. O que me resta? Viver automaticamente até que a morte natural chegue. Mas sei que não posso viver automaticamente: preciso de amparo e do amparo do amor.

No fundo, é o que todos mais precisamos. 

Ah, e sobre o perfume de Clarice:

Amanhã vou partir para a Europa. De onde mandarei meus textos para este jornal. Minha sede será Londres. É de lá que planejarei minhas viagens. Por exemplo, vou a Paris de novo ver a Mona Lisa, pois estou com saudade. E comprar perfumes. E sobretudo reclamar com a Maison Carven por eles não fabricarem mais o meu perfume, o que mais combina comigo. Vert et Blanc (…)”.

Ela escreveu uma crônica interessantíssa sobre Londres, “As pontes de Londres” (p.126). O retrato que faz sobre os ingleses é muito peculiar. Vai ler, nâo vou contar! 🙂

O perfume de 1958 da francesa Carven realmente não é mais fabricado, mas há alguns frascos vintage sendo vendidos pela internet. Se você quiser saber qual era o cheirinho que combinava com Clarice, já sabe, é só comprar. E perfume velho é como vinho, fica melhor com o tempo, é só ficar longe da luz e do calor.

Por que será que ela achava que essa fragrância combinava com ela? O perfume é uma mistura de flores e madeiras. Frágil e forte. Um aroma com personalidade, como ela. Diz aí se não ficou curioso para saber qual era o cheirinho de Clarice?!

O perfume foi pretexto para te lembrar que Clarice Lispector é uma das maiores escritoras do Brasil de todos os tempos. Deixá- la fechada na estante é um sacrilégio. Se eu fosse você, iria correndinho até a livraria mais perto da sua casa e pegaria este magnífico livro “Aprendendo a viver”. Todos os textos são destacáveis, como não posso fazer colocar todos aqui, só você lendo. Esta é uma excelente obra para quem não gosta de ler. Vai ser paixão, eu garanto! Depois me conta.

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