Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

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Quarenta (e um) passos para ser bastante infeliz


Existe muito livro de auto- ajuda e textos pela Internet dando lições sobre como ser feliz. Coisa que eu acho impossível, já que as pessoas são felizes (ou infelizes) de formas muito diferentes. Mas, sobre como ser infeliz ninguém fala. É tão óbvio como cavar a própria infelicidade, mas passa por alto. Hoje estava pensando nas coisas cotidianas que podem tornar as pessoas bastante infelizes sem perceberem; às vezes, entram por caminhos sinuosos e inecessários, apenas com pensamentos recorrentes, ações diárias e a percepção que têm sobre os demais. Eu comecei a escrever e saiu quarenta (e um) itens que devemos evitar a todo custo. Caramba, parece auto- ajuda, mas lá vai:

  1. Pense em todos, menos em você.
  2. Pense só em você, esqueça os demais.
  3. Mantenha relacionamentos que não deseja.
  4. Coloque doses diárias de pessimismo em tudo o que fizer.
  5. Conforme- se, não faça nada, fique parado assistindo TV ou Netflix.
  6. Escute todo mundo, menos o seu coração.
  7. Pense em futilidades e não cultive o seu mundo interior.
  8. Acredite em tudo o que os outros falam.
  9. Trabalhe em algo que detesta.
  10. Não trabalhe ou estude, não faça nada produtivo e que possa te sustentar no presente ou futuro.
  11. Tenha muito medo de errar.
  12. Tenha medos infundados e deixe que te dominem.
  13. Crucifique- se por suas falhas.
  14. Não aprenda nada novo.
  15. Viva no passado.
  16. Culpe os outros por tudo.
  17. Espere que outros façam tudo por você.
  18. Não assuma os seus erros.
  19. Seja invejoso.
  20. Nunca cante e dance.
  21. Viva isolado, seja bastante antissocial.
  22. Não viaje, não conheça outras culturas.
  23. Seja racista e preconceituoso.
  24. Coma muito e de tudo sem se preocupar com amanhã.
  25. Nunca faça revisões médicas.
  26. Viva na sujeira e desordem.
  27. Tenha muitos pensamentos derrotistas.
  28. Olhe a todos como se fossem inimigos.
  29. Seja desconfiado sempre.
  30. Dê muitas facadas pelas costas (cuidado, no sentido figurado!) e cuspa no prato que comeu.
  31. Economize sorrisos. Gargalhadas nem pensar.
  32. Seja perfeccionista e não tolere erros próprios e alheios.
  33. Cobranças são algo que incomodam bastante. Então, incomode muito a sua família, marido, esposa, mãe, pai, irmãos, filhos, com elas.
  34. Não tenha empatia nem solidariedade pela dor alheia, quanto mais frio, melhor.
  35. Julgue muito e, na dúvida, sempre condene.
  36. Nunca beije, muito menos abrace.
  37. Corra dos problemas alheios, vai que precisam de sua ajuda.
  38. Finja muito, nunca seja verdadeiro, nunca diga a verdade.
  39. O ódio é algo a ser cultivado, quanto mais odiar, mais infeliz será.
  40. Sempre queira algo em troca por tudo que fizer.
  41. Essa vai de lambuja: mande bastante indiretas no Facebook, nunca fale abertamente sobre o que te incomoda.

Se você conhecer alguém que se encaixa em dez itens pelo menos…xiiii….compartilha!

 

 

 

Resenha de filme: “A livraria”, de Isabel Coixet


Estreou no Brasil nesta última semana, o filme “A livraria”, da cineasta espanhola Isabel Coixet. O filme ganhou o Goya de melhor direção na Espanha. Merecido prêmio: a direção é primorosa. E a atriz protagonista, Emily Mortimer, também levou o Goya. O filme foi baseado no livro da inglesa Penelope Fitzgerald, “The Bookshop” e acontece no final dos anos 50 na Inglaterra, na cidade de Hardborourgh . Amei a fotografia e o figurino. Há cenas exteriores que foram gravadas nas praias de Barcelona, além da Irlanda do Norte.

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“A livraria”(2017) é um excelente filme, mas não é pra todo mundo. Ele é cheio de sutilezas e silêncios carregados de significados, que muitos não saberão interpretar e poderão achar lento. A obra mostra, principalmente, uma relação maniqueísta. A viúva sem filhos, Florence Green (Emily Mortimer) mora numa cidadezinha da Inglaterra, ama ler e decide montar uma livraria, o seu sonho. Ela acredita que sua vida ganhará mais sentido, como uma missão, mesmo sabendo que é um negócio de alto risco e que pode lhe dar prejuízo. Escolhe uma casa abandonada há anos, a “Old House”.  Pede um empréstimo no banco, que lhe é concedido com muita dificuldade, e compra a casa velha e úmida. Arruma o básico e muda- se logo na primeira semana.

Tudo vai bem até a esposa rica de um militar, Violet Gamard (Patricia Clarkson), uma socialite filantropa (a maldade costuma usar este tipo de recurso, filantropia e religião, numa tentativa de  integrar- se e ser respeitado socialmente para poder estender amplamente a sua sombra envenenada), convida Florence para uma festa em sua casa ao saber que esta iria montar uma livraria na cidade.

A bruxa, quer dizer, Violet, tenta “convencê-la” (soa à ameaça) a montar na casa um centro cultural, porque considera melhor, mas Florence continuou com o seu sonho. Os livros chegaram e ela montou sim a biblioteca, a “The Old House Library”.

A inveja. A inveja é um sentimento terrível, porque, na verdade, ela não quer possuir o que tem o outro, ela só deseja que o outro não tenha o que tem. E não mede sacrifícios para isto.

A casa estava abandonada há anos, mas Violet, só agora, a queria. Ela era tão poderosa, que em um ano, conseguiu que uma lei de patrimônio histórico fosse aprovada para despejar Florence da sua própria casa, que era antiga, mas não tinha valor histórico.

Durante todo o filme vemos as armadilhas de Violet e a bondade de Florence. O bem contra o mal, a eterna luta. É algo muito, muito real, cotidiano. Infelizmente, há muitas Violets atravancando caminhos e arrebatando coisas que não lhe pertencem maquiavelicamente…só por maldade, inveja, porque querem algo que naturalmente jamais teriam.

Dois personagens importantes: a ajudante da livraria, uma menina que trabalha pela tarde, mas que foi impedida de continuar o trabalho que amava por artimanha da bruxa e Edmund Brundish (Bill Nighy), um senhor que vivia isolado numa casa antiga, leitor voraz, que odiava os seres humanos justamente por causa de pessoas como Violet, mas que acaba sendo conquistado pela bondade e coragem de Florence.

O filme é cheio de referências bibliográficas, com destaque para “Lolita”, de Vladimir Nabokov e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, esse tem resenha aqui no Falando em Literatura.

Infelizmente, amigos, o bem nem sempre vence. Mas, o que nunca as Violets da vida poderão nos roubar é o amor verdadeiro, a bondade e os sonhos, coisas que jamais conhecerão. Florence deixou uma semente plantada. Essa é a mensagem do filme.

Veja o trailer do filme, aqui.

O livro que deu origem ao filme está completamente esgotado na Espanha. Penelope Fitzgerald escreveu “A livraria” em 1978. Eis a autora:

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Penelope nasceu em 1916 e faleceu no ano 2000 em Londres, era casada com um soldado irlandês e teve três filhos. Uma pena não ter visto a sua obra no cinema. Ela publicou seu primeiro livro aos 58 anos, apesar do seu pai ser editor, foi uma “late bloomer“. A autora escreveu outros nove livros.

Francisco Brennand, o Gaudí brasileiro


Pesquisando para o post sobre o Parque dos Poetas em Portugal, descobri o artista pernambucano Francisco Brennand e fiquei completamente fascinada. Descobri que existe uma semelhança de estilo com o Gaudí catalão (pelo menos eu acho!), o que criou a Sagrada Família em Barcelona. Os brasileiros cruzam o Atlântico para conhecer as obras de Gaudí, o que está muito bem, mas não se esforçam para conhecer a prata da casa. Estou errada?!

Lembro que aprendi na escola a fazer uma caixinha com palitos de picolé. Artesanato é legal, mas a teoria e história da Arte são muito importantes. Artistas brasileiros dessa grandeza deveriam ser matéria obrigatória na escola.

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927, na cidade do Recife, capital do Estado de Pernambuco, tem  91 anos (a biografia completa você pode ler no site do artista, aqui).

Agradeço à Revista Isto É, que deixou a reportagem aberta (de 2016), porque outros jornais só permitem o acesso aos assinantes. A foto também é da Isto É, entrevista de Celso Masson:

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Brennand nunca se considerou um escultor, uma vez que não esculpe e sim molda peças no barro. “Eu aprendi por tabela, com os artesãos e especialistas em porcelana vindos da Europa e dos Estados Unidos para trabalhar com meu pai. Sou um artista que soube tirar proveito do conhecimento não só familiar como também dos estrangeiros que andaram por aqui”, afirma. “À medida que eu estudava a origem dessas terras, onde se inscreve a Batalha de Guararapes, pude compreender que esse lugar deveria ser eternizado. Aqui há uma história a glorificar. Tem a dimensão do sagrado”.

O ateliê de Brennand fica no subúrbio de Recife e é possível visitar. É um museu, na verdade, um lugar incrível. O artista criou um mundo mágico, excepcional.

Abaixo as fotos do “templo” que Brennand criou em Oeiras, no Parque dos Poetas, em Portugal:

Não deixem de conhecer e pesquisar sobre esse artista brasileiro incrível!

Sorteio: “Homens imprudentemente poéticos”, de Valter Hugo Mãe


Eu prometi mais cedo que sortearia um super livro se o blog atingisse as 10 mil visualizações hoje. Está quaseeee, então amanhã terá sorteio!

Obrigada você que esteve aqui e que me acompanha sempre. Fora os leitores do mundo lusófono, agora com os tradutores (inclusive há um na barra lateral aqui no blog), chega gente de todos os lugares do planeta. Depois do Brasil, os maiores leitores são dos Estados Unidos e depois Portugal. Hoje veio gente de quase toda a União Europeia, Canadá, de Moçambique, Angola e da Índia. Thank you so much!

Então, vai ter sorteio sim! O escolhido foi o escritor angolano Valter Hugo Mãe, “Homens imprudentemente poéticos”, esse da foto comprado em Lisboa, sinopse:

Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.

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O sorteio será realizado amanhã, 10 de março de 2018, às 22h (hora espanhola). Para participar basta seguir o “Falando em Literatura” nas redes sociais, inclusive seguir o blog, é só colocar o seu e-mail (barra lateral), que assim você não perde nenhum post, eles irão chegar no seu e-mail, me envia um alô, diz o que gosta, o que não gosta, envia sugestões, reclamações e o que desejar, eu leio tudo! E comenta neste post, quero te conhecer, quero você aqui juntinho de mim. Seu apoio e  retorno são muito importantes, servem como força e incentivo. Ah, e pode participar gente do mundo todo.

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Instagram

Twitter

Youtube (daqui a poucos dias, finalmente, vídeo novo canal!)

Até amanhã e boa sorte!

UPDATE: O sorteio foi realizado ontem num bate- papo ao vivo no Instagram e o vencedor foi André Pipoco, do Rio de Janeiro.

Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

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E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295

 

 

 

 

O dia em que eu aprendi a ler


Lembro exatamente do dia em que aprendi a ler, ou melhor: lembro do dia que descobri que sabia ler, porque a alfabetização é um processo. Você lembra quando percebeu que já sabia ler?

Eu devia ter seis anos. O trajeto de ônibus da Vila Mangalot até a Vila Mariana parecia não ter fim. O cheiro do diesel queimado, o sacolejo, a monotonia, me provocavam um grande mal estar. Depois de quase duas horas, chegava esverdeada na casa da tia Norma. “Vai brincar que passa”, minha mãe dizia. Ela tinha razão. A brincadeira com os meus primos (três e mais a minha irmã) distraía- me do enjoo, logo já estava correndo e aprontando.

Escola municipal nos anos 80 em São Paulo, obrigava as crianças a entrarem no pré- primário com seis anos completos. E como faço aniversário em agosto, no início do ano não me deixaram, porque tinha cinco. Tive que esperar um ano, completar seis em 1978,  e assim, ansiosíssima, entrar na escola. O uniforme, composto por uma camiseta branca, shorts, conga e boné vermelhos, além de uma sacolinha de pano azul com meu nome bordado pela minha mãe,  ficaram velhos de tanto que vesti antes de começarem as aulas.

Ir para a escola foi uma das maiores alegrias da minha vida. No primeiro dia de aula, eu não chorei, não pedi para minha mãe ficar, sentei numa das quatro cadeirinhas da mesa, disse tchau pra mãe e esqueci do mundo. Minha atenção era absoluta em tudo o que a professora, a tia Áurea, falava. Lembro do seu perfume, do seu rosto e do seu abraço. Ela era brava com os meninos, mas nunca gritou comigo, ao contrário, ela lembrava a minha mãe. Dos janelões da minha sala que ficava no alto, eu conseguia ver a minha casa. Eu me imaginava dando um pulo voador até o meu quintal. Desses mesmos janelões vi uma das coisas mais incríveis da minha curta vida: um eclipse solar. A noite engoliu o dia, alguns colegas começaram a chorar, outros a rir e eu pensei que era um ataque alienígena.

E assim eram os meus dias na escola, cheios de imaginação e descobertas. Em casa, eu era muito brincalhona e desordenada; na escola, eu era a seriedade em pessoa.

Minha irmã estudava na sala vizinha, ela era gigante. Quando eu passava com a fila pela porta da sua sala, sempre dava tchau e a via sorrir. Era muito legal ter uma irmã na quarta série.

A minha memória remota é fotográfica. Lembro de muitas tarefas que fazia com seis anos no Jairo Ramos. Uma folha de papel sulfite, um boneco desenhado e desmembrado e o cheiro de álcool. Primeiro, a pintura sem sair das linhas; depois, o recorte com a tesourinha sem pontas e logo, a cola branca para o boneco ganhar vida com seus membros no devido lugar. Meu amigo Rogério uma vez colou as pernas com os pés para dentro. Vi da minha mesa, avisei, mas já estava colado. Ele teve que entregar na mesa da professora e levou uma bronca. Lembra, Rogério? Rogério é meu amigo até hoje. Ele dançou comigo no São João e eu achava lindo aquele menino de olhos azuis. Como Deus conseguia pintar olhos coloridos e por que os meus eram pretos? Ficava intrigada. Os olhos dos meus bonecos sempre eram pintados de azul.

Na volta da casa da tia Norma, meu pai sempre ia nos buscar. Assim era muito mais legal, eu não ficava enjoada. Minha irmã e eu, íamos no bagageiro da Variant fazendo gestos para os carros que passavam. Quando algum motorista retribuía, a gente caía na gargalhada. Meu pai era muito engraçado, contava piadas e minha mãe soltava gargalhadas. A vida era doce.

Numa dessas voltas da Vila Mariana até Pirituba, comecei a prestar atenção nas placas dos comércios. Que estranho. Eu sabia o que diziam, pareciam um desenho, que eu olhava e já sabia o que dizia, não tinha que ficar juntando letras. O significado vinha, pum! Inteirinho. O meu espanto foi tão grande, que fiquei calada até comprovar. Li uma placa, mais outra e soltei um grito: “mãe, eu sei ler!”. Minha irmã duvidou e mandou eu ler mais coisas. Eu li tudinho. Um mundo inteiro se abriu, comecei a entender tudo nas ruas, completamente abismada. Fui lendo as placas até chegar em casa sem acreditar que tinha acontecido aquela coisa tão espetacular.

E essas são as fotos do ano em que eu aprendi a ler na escola. A festa de São João que eu dancei com Rogério e na formatura do prezinho. A tia Áurea me disse: “não se preocupa com o chapéu que não cai”. E foi assim, há 39 anos, quando eu descobri que sabia ler. Obrigada sempre, tia Áurea, e nesse Dia Internacional das Mulheres!

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