Biblioterapia: a cura pela literatura


A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. (Manoel de Barros in Compêndio para uso dos pássaros)

Todo mundo já sabe que a leitura salva da ignorância e da exclusão. No entanto, a utilização de livros como instrumento terapêutico, coadjuvantes ao tratamento de problemas físicos e psicológicos, pode ser novidade para muita gente. E não tem nada a ver com literatura de auto- ajuda.

A biblioterapia (do grego: biblíon, livro, e therapeía, assistência) é uma disciplina que vem ganhando força em muitos países, não entre bibliotecários, mas profissionais de saúde mental. O “National Institute for Health and Care Excellence”, na Inglaterra (www.nice.org )indica a terapia com livros para transtornos de ansiedade e depressões leves.

As leituras mantem o cérebro ativo, ajudando a aumentar a memória e a combater várias espécies de demência, como o Alzheimer. A americana Jean Carper escreveu um livro sobre o assunto: “100 dicas simples para prevenir o Alzheimer- E a perda de memória” (editora Sextante). As pessoas com mais leituras e bagagem cultural apresentam menos sintomas dessas doenças, segundo a jornalista.

A psicóloga espanhola Celia Luz Fernandez, professora da Faculdade de Psicologia da Universidade de Salamanca e chefe do hospital clínico na mesma cidade, utiliza a biblioterapia para a cura da depressão, ansiedade, estresse e transtornos alimentares. Para doenças mais graves, a biblioterapia também pode ser usada como auxiliar. A médica cita bons resultados em crianças com câncer e pessoas com esquizofrenia. A doutora observa mudanças profundas de conduta e pensamento, provocando uma melhora na qualidade de vida de seus pacientes (ouça o podcast na web “Universo aberto”, blog da biblioteca de Tradução e Documentação da Universidade de Salamanca, 29/10/2014).

Celia Luz não recomenda aos seus pacientes livros sobre os seus problemas, é contra- indicado, pois a leitura de sintomas e consequências pode agravar ao invés de ajudar. Por exemplo, se você tem depressão, não leia livros sobre “como curar a depressão”.

A biblioterapia, claro, não é só indicada para pessoas doentes, ela serve para todos que desejam um desenvolvimento e melhora pessoal, já que a leitura modifica as camadas mais profundas do ser humano.

As escritoras Ella Berthoud e Susan Elderkin, duas inglesas que acreditam piamente no poder curativo dos livros, lançaram este ano o “Farmácia Literária” (editora Verus no Brasil, e na Espanha, “Manual de remedios literarios”, Siruela, edição de referência). Um livro sem contra- indicações, que de uma forma bem-humorada, nos dá receitas literárias (quatrocentos e oito livros indicados) para espantar diversos males, tanto físicos, quanto psicológicos ou sociais, até para a TPM! Veja a minha seleção de obras fáceis de serem encontradas, com propriedades curativas, lúdicas e ricas:

Medo à violência. Você sente impulsos violentos, trava uma batalha interior consigo mesmo, tem ataques de ira? Este é o seu livro: O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, do escocês Robert Louis Stevenson.

Indecisão. Sente dificuldades para tomar decisões? Considera a opinião de todos, menos a sua? Importa- se demais com o que os outros pensam? Permite que os outros decidam por você? Sua obra é essa: Indecisão, do americano Benjamin Kunkel.

Desemprego. Vive com medo de perder o trabalho ou ser repreendido(a)? Sacrifica- se demais? Ser um pouco Bartebly, às vezes é necessário, inverter a ordem natural das coisas pode ser um exercício interessante. Para você: Bartebly, o escriturário, do americano Herman Melville.

Gripe masculina.  É…existe livro até para curar medo de gripe, especificamente para os homens. Há quem diga que são um pouco dramáticos quando doentes, não é? Depois desse livro ficarão mais corajosos: Os miseráveis, do francês Victor Hugo. A tuberculose assolava a França no final do século XVIII e, mesmo assim, o povo lutava bravamente.

Correr riscos demais. Obra para pessoas imprudentes, que arriscam a vida e vivem intensamente sem nenhuma noção de auto- preservação. Essa história é de um sujeito que não faz nada da sua vida, o autor mostra o absurdo da existência niilista. Existe um meio-termo para ambas condutas. Essa obra é fantástica, umas das minhas preferidas: Memórias do subsolo, do russo Fiódor Dostoiévski.

Não importa a motivação, se pessoal, escolar, profissional, incorporar o hábito leitor no cotidiano é ganhar um espaço só nosso, é ganhar felicidade e sabedoria, é ter acesso a mundos muito diferentes do nosso. Que tal visitar uma livraria ou biblioteca hoje mesmo?


Texto publicado no Tribuna Feirense (Tribuna Cultural), Feira de Santana, 20/10/2017.

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4 comentários

  1. Apesar de não saber da biblioterapia, é fácil perceber tais benefícios durante a leitura.

    Das indicações eu li apenas o Estranho Caso de Dr. Jekyl e Mr. Hyde. Existe até uma música sobre o livro da banda Five Fingers Death Punch (para quem não se incomoda com som pesado).

    Talvez eu precise ler Os Miseráveis. Quando a gripe (não resfriado) ataca me derruba mesmo XD

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