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Resenha: “Os pilares da terra”, do inglês Ken Follett


Eu tenho formação acadêmica em Letras, o que ajuda a olhar a literatura de uma forma  profissional e crítica, observando elementos artísticos, técnicos e de estilo, que podem passar despercebidos para muitos leitores; mas minha aversão aos best- sellers não vem disso, surgiu muito antes: se é popular não presta, é literatura fácil. Eu já tinha essa percepção desde cedo, na adolescência. É só senso comum. Simplesmente, não perdia meu tempo, preferia (e ainda prefiro) os clássicos de qualquer época ou idioma, porque a vida é muito curta e a boa literatura muito ampla para perder tempo com livros ruins. Mas, será esse um best- seller diferente? Despi- me dos meus preconceitos e fui de mente aberta. Veja o resultado.


O inglês Ken Follett (Cardiff, País de Gales, 05/06/1949), quando publicou “Os pilares da terra” (1989), já era um escritor de êxito, vendia muito, principalmente livros de suspense. Começou a publicar com vinte e cinco anos, mas com vinte, já escrevia e foi quando ele começou a visitar catedrais. Sua família participava de uma espécie de seita religiosa, que o proibia de entrar em templos religiosos. Saía pouco durante a infância e juventude, e foi assim que mergulhou no mundo da literatura.Ken Follett in Berlin, 2014Ken Follett em Berlim, 2014. O autor é casado, tem dois filhos e mora no Reino Unido.

Follett viajava pela Inglaterra só para visitar catedrais, suas visitas duravam até dois dias. Ele anotava tudo, seu principal interesse era a arquitetura dos templos, como e quem os construía. E começou a investigar. Descobriu que a maioria das catedrais eram construídas por gente muito pobre, com um sacrifício impressionante, gente que não tinha onde morar nem o que comer. Ficou fascinado. Foi nessa época que teve a ideia de escrever um livro sobre a construção de uma catedral. Só que sentiu que não tinha capacidade para desenvolver esta história, necessitava de recursos que ainda não possuía. “Os pilares da terra” foi publicado doze anos depois, foram mais de três anos de trabalho, de domingo a domingo. Quem conta tudo é o próprio autor no prólogo do livro, o que pareceu interessante. Dei um voto de confiança. Seguimos.

“Os pilares da terra” (1989) é o primeiro de uma trilogia. A saga continua com “Um mundo sem fim” (2007) e o recém- lançado, “O círculo de fogo” (2017).


A obra

A primeira parte do livro data de 1135- 1136 (século XII). A história começa com a execução por enforcamento, em uma praça pública, de um jovem ruivo, bem ruivo, “cabelos cor de cenoura”, de olhos verdes. O rapaz roubou um cálice valioso em uma igreja e foi enforcado diante de sua mulher grávida. Ela lançou uma maldição ao padre, ao monge e ao cavaleiro que mataram o seu amor.

O personagem principal é Tom Builder, um pedreiro dos bons. Ele foi dispensado da uma construção de uma catedral em Exeter (capital do condado de Devon, uma das cidades mais antigas da Grã Bretanha). Isso ele não engoliu. Ficou ruminando durante anos, o orgulho ferido, pois sabia que era capaz. Com essa história ele aprendeu que para a construção de uma catedral, não basta ser bom, a construção tem que ser perfeita:

Isso porque a catedral era construída para Deus, e também porque a estrutura era tão grande que a mais leve inclinação nas paredes, a mais ínfima variação naquilo que deveria ser reto e nivelado, poderia enfraquecer fatalmente o conjunto. O ressentimento de Tom havia se transformado em fascínio. ” (p.55)

Então, amigos e amigas, essa obra trata disso: de contar a história de um pedreiro ambicioso e ressentido, que decidiu construir uma catedral na Inglaterra. O ódio, o orgulho, quando bem administrados, também podem ser um bom motor para construir grandes coisas.

Tom é casado com Agnes, a considera sua alma- gêmea. O casal tem dois filhos, Alfred de quatorze anos e Martha, de sete. Veja a “moral” da época. O pai dava cerveja à menina. Será que há pais que ainda fazem isso?! O almoço da família: um pedaço grande de toucinho fervido, pão e cebola. Nesse almoço, Agnes comunica que está grávida mais uma vez. Tom nem sabia a idade da mulher. Na Idade Média, a natalidade era alta, já que não havia métodos anticonceptivos, mas também havia uma alta mortalidade infantil. Falta de vacinas, de antibióticos, de higiene… no medievo acreditava- se que o banho fazia mal à saúde.

Tom estava construindo uma casa para Lorde Percy Hamleigh, um homem muito rico, pai de William, noivo de Aliena, filha do Conde Shiring. A moça rompe o noivado e a casa que seria para ambos, já não é mais necessária. Tom havia posto todo seu dinheiro nela. O rapaz chega à cavalo quase atropelando a pequena Martha, dispensa os trabalhadores, mas Tom teve que segurar as rédeas para que William o pagasse.

Tom e sua família começou a andar sem destino certo. Não tinham cavalos, carroças, nada. Pareciam retirantes nordestinos fugindo da seca. Eles buscavam um local para a construção da catedral. A mulher grávida, a menina pequena e o inverno chegando. Martha, cansada, demorava para acompanhar os demais, ficava para trás. Ela e o porco. A menina foi atacada por um ladrão, levou uma porrada na cabeça. O ladrão levou o porco. A menina desmaiada, sangrando, e a mãe, fria, disse que a menina iria sobreviver e que o pai fosse atrás do porco. As pessoas tinham que ser duras para sobreviver. Tom e Albert foram atrás “dos ladrões”, eram quatro. Houve luta, mas um dos ladrões levou o porco embora. Eles haviam comprado o porco na primavera para engordá- lo e vendê- lo no inverno. Com o dinheiro daria para alimentar a família durante meses.

Entram em cena Ellen, uns dez anos mais jovem que Tom, e seu filho adolescente, Jack. A mulher ajudou Agnes a cuidar de Martha ainda desmaiada. Ellen e Jack moram na floresta, porque a mulher é “fora da lei”. Seu crime? Ter xingado um padre. Lembra da execução do início? A jovem grávida, mulher do enforcado? Ela reaparece mais tarde com o filho que estava na sua barriga. (p.94)

Ellen conta a sua história a Tom; este sente uma atração pela mulher.

Cheguei na página 100, já irritada e arrependida por ter começado a leitura desse livro, mas segui.  Raramente largo a leitura de um livro. Continuei esse extenso, pobre e decepcionante “Os pilares da terra”. Umas fórmulas mais que mastigadas e muitos clichês, muito pouco criativo. Básico, simples, bobo. As primeiras páginas foram até interessantes, consegui visualizar um ambiente medieval, sujo e violento, mas depois a narrativa perdeu essa característica de época. Fiquei na dúvida também, se foi a tradução brasileira que prejudicou a obra. A linguagem pareceu- me muito contemporânea. Veja como o autor é “criativo”:

“A fome é o melhor tempero”. (p.139)

A família passa fome, frio e enfrenta muitas dificuldades. Uma boa parte do livro, que é bem monótono e aborrecido para o meu gosto, é falando sobre isso.

Agnes deu a luz ao quinto filho  (dois já haviam morrido) no relento e no inverno. Nasceu um menino. A parte escatológica do nascimento é bem desagradável, o marido descreveu e falou sobre os odores da placenta, depois a queimou. A mulher morreu, sofreu uma hemorragia e foi enterrada numa cova funda por causa dos lobos, para que seus “ossos se conservassem até o dia do Juízo Final”. O autor conta, tudo, tudo com os mínimos detalhes, até os mais sórdidos e desagradáveis. O pai, quer dizer, o monstro, abandonou o bebê perto da cova da mãe, porque não tinha como alimentá- lo.

Claro que o autor matou Agnes para entrar Ellen na parada. Tom transa com um anjo imaginário, um delírio, mas era a mulher em carne e osso. E foi ela, obviamente, que tinha encontrado o bebê que Tom voltou, arrependido, para recuperar.

Pessoal, não vou contar mais, porque não vale a pena. Não vale a pena perder tempo com esse livro.

Follett sabia que não era um autor especial, que seus livros eram entretidos, o grande público gostava, mas tinha consciência, a auto- crítica suficiente para perceber que não eram livros importantes artisticamente falando. Acha que este é especial, sua grande obra. Não é. Grande obra em extensão, mas em qualidade não. Follet é uma baita de um sortudo. Ficar milionário, viver num castelo, por causa de obras assim, tão primárias, com uma linguagem tão plana e pobre, caramba…tem gente esperta no mundo. Enquanto isso, os autores de verdade… o mundo invertido.

22406233_875949182560643_8850533865946442572_nFollett, Ken. Os pilares da terra. Arqueiro, São Paulo, 2016. Epub. Páginas: 2655*

*Não esqueça: a quantidade de páginas em livros digitais pode variar de acordo com seu e- reader e tamanho da fonte.

 

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