A coisificação do homem e a humanização do animal


Quando eu vi a insólita imagem de uma mulher amamentando um cachorro, e que, inclusive, Maja Smrekar (eslovaca) ganhou um prêmio de arte digital por isso, além do choque, vieram uma série de reflexões que quero dividir com vocês.

Vejo conhecidos e famosos nas redes sociais tratarem seus gatos e cachorros melhor que seus filhos, parceiros ou amigos. Um amor incondicional, profundo e real, que os fazem agarrar, beijar na boca, dormir com os animais e gastar muito dinheiro para mantê- los providos de todo tipo de cuidados,  inclusive, gastos com boutiques, viagens e restaurantes.

Isso o que significa? Que o homem, devido às suas ações, mazelas, decepções que provocam, vêm perdendo seu status de objeto primeiro de afeto na cadeia humana. As pessoas precisam amar, é algo inerente, e acabam substituindo o amor humano pelo animal. Os animais amam e não pedem nada em troca, não cobram, não julgam, não mentem, nem maldizem, não traem e nem guardam rancor. Os animais sempre correm ao encontro do dono com todas as suas mazelas, mau humor e vícios, nunca o rejeita, o aceita tal como é. E sempre vão estar junto, nunca abandonam, não importa a circunstância.

E por que vem acontecendo essa humanização animal? Pela coisificação do homem. Ao passo que os animais são cheios de carinho e amor gratuitos, o homem só “ama”, se receber benefícios, algo em troca. Quase sempre não é uma relação altruísta, é por interesse: por status social, por medo da solidão, por dinheiro, fama, convenções sociais, moral religiosa, poder, por conseguir um ascenso no trabalho ou qualquer outro tipo de benefício. A maioria dessas relações podem terminar muito mal. Além do mais, as pessoas que esperam afeto alheio, cuidado, carinho, compreensão, acabam quase sempre decepcionadas. O ser humano é uma fábrica de dor, vêm decepcionando, individual e coletivamente. O homem tem que ser produtivo e racional, não afetivo na sociedade atual. Tornou- se coisa, evita a emoção para atender às demandas diárias.

Quando eu vi a foto da artista eslovaca que amamentou um cachorrinho por três meses, pensei que era algo isolado, mas…surpresa! Dei uma googleada e descobri que não, que essa troca inter- espécies é muito mais comum do que eu pensava. Há mulheres que amamentam porcos, bezerros, macacos e são do mundo todo, inclusive do Brasil.

Não é instinto materno, embora algumas digam isso. Pessoalmente, provoca- me repulsa, é anti- higiênico e incompatível. Tal como as pessoas que tratam animais como seres humanos. Creio que são condutas patológicas de um mundo que sofre a doença coletiva do desamor, da descrença no outro e de carência afetiva extrema. O animal é a representação da pureza, da bondade, da lealdade, da ingenuidade, tudo o que o homem perdeu. Talvez, essas mulheres que amamentam animais, inconscientemente (ou não) prefiram mudar de espécie que assemelhar- se com a barbárie humana.

O nosso mundo está doente. O que podemos fazer? Descarregar nossas mochilas de preconceitos, receios e rancores, e fazer um mundo melhor e mais humano para todos. Começando pelos que estão ao nosso redor, mesmo que não mereçam, mesmo que nos tenham dilacerado alguma vez. Perdoar é perdoar- se. Pagar a dor com rancor não é um bom preço. A amor (humano) tem que retornar pelo bem do presente e do futuro, pelos que virão. Mude o seu olhar em relação ao outro, não o olhe como um rival ou inimigo. O nosso trabalho coletivo até agora não foi bem feito, precisamos reconstruir.

E cada mãe com sua espécie.

 

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11 comentários sobre “A coisificação do homem e a humanização do animal

  1. Pingback: A coisificação do homem e a humanização do animal — Falando em Literatura... - cantinhoamigo

  2. Com certeza a dificuldade hoje em dia é poder contar com os outros, está muito difícil, as pessoas só pensam em dinheiro, o quanto vão ganhar, como vão conseguir dinheiro, nada mais importa. Outra coisa que fazem é ficar ao celular conversando (digitando) no whatsapp. Olho no olho, falando de seus sentimentos e sorrisos ninguém mais faz. Isso nos torna solitários e só se preenche esse vazio com os animais, que não usam celular e nem pensam em ganhar dinheiro. Precisamos de mudança urgente, senão voltaremos aos tempos dos homens das cavernas.

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  3. Tenho de dizer que tal imagem não me assusta. Não digo que apoio essa conduta, mas sim que as pessoas têm comportamentos cada vez mais diversificados, e graças à internet tais pérolas ficam em evidência com facilidade.

    Mas gostei da reflexão sobre o valor que impomos entre nós humanos. Alguns se utilizam da “conversinha” para agradar seres desagradáveis somente para ascender em sua carreira, e assim eles não dão o devido valor a quem merece, ou fornecer apoio somente pelo fato de fazê-lo.

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