Por Gerson de Almeida

Teresa Vieira Lobo, jovem autora nascida no final dos anos 80, “numa pequena localidade chamada Gaula, terra de amoras, padres, doutores e adelos”, é um dos novos expoentes da moderna literatura portuguesa. Além de escrever contos e romances, é colaboradora da revista literária Subversa e escreve para plataforma Quem conta um conto; ou seja, respira literatura. Da sua ainda curta e prolífica seara li Estranhas Coincidências, sua estreia na literatura (está resenhado aqui no blog) e parece que já a conheço há muito tempo. Adágios é seu 3º petardo no mundo das letras, seu 2º livro de contos. Seu 1º primeiro romance, Dedicação, Palavra e Honra, saiu em e-book ano passado (?).

O livro, Adágios, é composto de cinco contos. Nem grandes, nem pequenos, mas medidos pela concisão e necessidade de narrar sem faltas ou sobras. O projeto é arrojado, a mim pareceu calcado na oralidade, algo como: da boca para o papel, sem floreios. É arriscada tal empreitada, se algo sai do tom, toda estrutura desmorona e fica ao léu uma arenga de letras, frases e palavras que não encontram abrigo. Sem delongas, vamos aos textos:

O milagre de Adelaide.

Como se seguirá em todos os contos, os personagens principais são mulheres jovens que têm pela frente a realização de seus projetos de vida, família e entendimento do mundo ao redor. Adelaide se casa com Luís e o casal, recém-saído da adolescência, encara as vicissitudes da vida conjugal ao irem morar na casa dos tios de Luís. Assim se deparam, sem mais nem menos, com as maledicências de Isabel, velha moradora do lugarejo. E foi aqui que a vaca foi para o brejo e eu perdi o fio da meada.

O narrador diz que Isabel vivia a fazer “comentários trocistas” sem especificar, sem dar pistas ou suspeitas concretas de quais seriam os comentários trocistas, não que isso seja de suma importância, mas a suspeição do leitor tem que ser concreta, já que é nisso que a autora apostou para prender sua atenção. O leitor sequer consegue idear o que seja um dos tais “comentários trocistas”.

O texto é pausado por frases curtas – o que é bom e reforça minha ideia de: da boca para o papel –, mas perdeu tanto tempo com a trocista Isabel que não conseguiu desenvolver o conto. Atravancou de tal forma que a narrativa parece ter 200 páginas e não míseras 20 – que poderiam ser bem escritas em duas; talvez uma. Isso torna mais pesada a análise por que a autora perde tempo com rodeios em volta desta arenga de “comentários trocistas” e isso faz com que o leitor espere qualquer coisa do desfecho: tipo uma galinha a entoar um fado ou o novo bebê de Rosemary no Algarves a recitar Camões em hebraico. Mas não, nada acontece. Aliás, acontece… o milagre. Ao fazer um bolo para comemorar o batizado do filho, Adelaide, munida de todo ingrediente para assar bolo de laranja, acaba por tirar do forno “bolo preto” (creio que seja bolo de chocolate), e eis o milagre de Adelaide, e, graças ao mavioso Deus, o fim do conto.

A tristeza de Josefina.

Josefina é jovem e semiletrada, tem pouca chance na vida e pouco espera do futuro. Conhece João, sua equivalência masculina, se casam e começam a dar cria como pardais. Entre o casório, o crescimento familiar e o fim do ciclo, podia haver um intervalo e algumas mínimas explicações ou pequenas alusões, rastros, pistas; entro e saio de cada texto mais perdido que cego em tiroteio.

A tristeza de Josefina, por exemplo, nada teve de anormal, incomum, inaceitável, ou sei lá o quê; senão o ciclo da vida quebrado por perder dois filhos no Natal. Todo Natal acontece isso em alguma família, com maior ou menor intensidade. Veja bem, pois isso é verídico: Dinalva, uma amiga de infância, saiu para trabalhar pela manhã e, ao retornar no final da tarde, encontrou os dois mais novos, dos seus três filhos, baleados na sala de casa; era Natal de 2015. Não sei o que Dinalva fez, se interrogou a Deus ou praguejou a existência, mas Josefina não “interrogou Deus sobre aquele desfecho”, como diz o narrador. Ela, sem o menor questionamento, caiu na tristeza que é o único valhacouto a quem tomba no pasto da vida.

Não há nada demais: nascer, crescer, casar, ter filhos, criá-los, é seguir o fluxo; perdê-los é a quebra da corrente natural. Inaceitável? Sim, mas possível. Com o perdão da comparação, a vida de Josefina foi como a da vaca no pasto: nasceu, cresceu, trabalhou, reproduziu, perdeu crias e morreu sem reclamar nada de nada, como toda rês no pasto da vida. Josefina e sua vida foram tão ordinários que o incrível é terem se tornado matéria de conto – e longo. Poderia ser escrito em uma página – em meia, com bons ajustes.

As lágrimas de Guilhermina. 

Guilhermina desde sempre é apaixonada por Agostinho, seu primo. Namoram e se casam. E é assim: formam-se casais, filhos nascem e morrem, mas só isso acontece. Pelo menos de relevante. Na verdade, e vai aqui algum exagero, há apenas um conto no livro e cinco versões com alguma variação. As narrativas estão escritas no mais claro e elegante português, tão lapidado que pode ofuscar (não as discrepâncias). As frases são curtas, obedecem a concisão que a oralidade ordena, mas por que não trabalhou os outros pontos? Mesmo os personagens pintados como cruéis ou amorais, não despertam qualquer sentimento, confesso que às vezes senti pena destes como se fossem vítimas dos supostos corretos ou da própria autora que os trouxe aos meus olhos. A única coisa que avança no livro é o número de lápides no cemitério da literatura: nunca vi tanto defunto em tão poucos contos, beira a carnificina. Poderia ter explorado mais a morte de Agostinho, já que aventou a questão de suicídio, porém se cala, pois esta seria uma nota destoante num conto igual ao anterior.

Guilhermina, como todas as outras que deveriam ser heroínas, é personagem anódino. Nula da raiz até o derradeiro archote da alma. A mim parece ser este o conto mais fraco do fraco livro.

As vivências de Eva.

Este é o conto mais interessante, se me esforço a ser generoso. Em 1935 Eva, velha senhora solitária, narra num monólogo consistente sua vida e a do bairro. Se neste conto se faz reproduzir a oralidade da velha Eva – conseguiu efeito esperado. A velha, além de ver todo mundo morrer, ficou para semente. Todo o bairro foi para o beleléu. Sua eloquência é tamanha que chega a ser tautológica. Quero crer que essa foi a intenção da autora: os velhos são bons contadores de histórias e é preciso paciência para suportar a arenga. Curiosidade: o interlocutor está mais para cuidador do que para personagem.

Não contabilizei os mortos ao final do conto, mas a velha Eva, eu e a silente interlocutora, estamos vivos, graças a Deus.

O triste fado de Graça.

Augusto e Graça nasceram no ano do Senhor de 1887, abre o narrador. Como nos outros contos, jovens se casam. Augusto e Graça casaram em 1907. Sempre, sempre o mesmo rito: casais se formam em vilarejos esquecidos por Deus no fim de mundo português e pessoas morrem como nasceram. As tais mulheres de luta, que supõe a descrição na 4ª capa do livro, não disseram a que vieram e não souberam por que se foram. Todas anódinas a não mais poder. E nesta narrativa a autora caiu num bueiro, para quem vinha amiúde como cordeiro. Onde conservadorismo rivaliza com liberalismo? Onde autoritarismo consoa com conservadorismo? Parece o Brasil de hoje, onde o conservadorismo equivale ao nazismo (só aqui, pois nos países pensantes nada pode se comparar a torpeza do nazismo). Os parágrafos são confusos, não consegui conectar ideia nenhuma, estão tão deslocados na história que quando o narrador retorna aos personagens principais, sinto ter começado nova leitura em novo texto.

Por que não explorou melhor o tema da 1ª Guerra? Verdade é que ficou tudo tão confuso – como “os sete gatos da velha” que o narrador fez questão de frisar e dos quais esperei alguma coisa, talvez um miado – que ao sair só quis recobrar a lucidez. Mesmo as coincidências, casualidades, atos fortuitos, são tão mal fabricados que cravam os dentes no pão dormente do ridículo. Imagino se o texto passou por algum editor. Revisor creio nem ter sido necessário (senão por um erro ou outro de repetição de palavra ou hífen enfiado no lugar errado), mas o editor, sujeito que opina, corta, adiciona, indica, parece não ter lido um parágrafo destes contos.

Devo dizer que ao final deste texto eu já me repetia e não sabia o que lia e interpretava.

Considerações.

Notei que todos os contos são a oralidade posta no papel e isso não deveria ser um problema, mas faltou algo que não consegui identificar. Sei que ao assumir o pressuposto oral, a autora deixa lacunas, por opção e obrigação, mas estas lacunas não podem se tonar íngremes lunares ou cânions inescrutáveis. A religiosidade é latente e isso é notado para além de cada alusão. Ainda assim, algo escapou ao meu entendimento ou não consegui sintonizar a frequência correta. Não consegui interpretar o livro à essência e, qualquer falha, ao resenhista cabe a culpa.

Em todas as narrativas morre gente (muuuita gente). Você não odeia ninguém, o que é bom por um lado, mas, de outro, você não se compadece ou se afeiçoa a ninguém, não é atingido pelo punch da compaixão, ou seja, tanto faz aqueles personagens continuarem entre nós ou irem para o inferno. Não sei se isso de ser indiferente à dor do personagem é bom para o leitor, ruim para a autora, ou se é falha da autora ou do leitor fora de frequência, mas é o que senti várias vezes.

 A literatura não dá conta da realidade, e nem se quisesse conseguiria. O leitor ao abrir o livro não sabe o que quer, ou até sabe: quer ficar encantado/assombrado. Levá-lo a um destes estados, é o supremo dever do escritor. Vieira Lobo não me levou a estado nenhum.

Entre a escritora de Estranhas coincidências e a de Adágios, ambas em tudo distintas, apesar de ocuparem o mesmo corpo e lugar no espaço, há um abismo ao qual não me arrisco a olhar no fundo e este imodesto resenhista opta pela primeira escritora.

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 Vieira, José. Adágios, Chiado, Portugal, 2017. Páginas: 100

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