Por Gerson de Almeida, colaborador

Daniel Piza (1970 – 2011) era o pretenso herdeiro de Paulo Francis (1930 – 1997), diziam as más línguas; depois que morreu, como a ter um salvo-conduto dos detratores, foi desta para uma pior como o articulista cultural herdeiro inconteste do mentor insubstituível. Por mim tudo bem. Lendo seu Contemporâneo de mim mesmo não há como negar que fazia bem o dever de casa e, apesar do nariz empinado, até conseguia atingir níveis razoáveis à mordacidade de Francis, mas não tinha o senso de humor ferino e a ironia cruel sem os quais Francis nada seria. E paro por aqui.

daniel-piza O jornalista, escritor, radialista, advogado, redator, casado e pai de três filhos, Daniel Piza, falecido em 2011, aos 41 anos, por causa de um AVC.

Não é do articulista Daniel Piza que quero falar, mas do ficcionista. Há muito se comenta que Francis fracassou na ficção. Ao que parece, pelo menos após a leitura de seu livro de contos, Piza também não deu grandes velejadas. Parece que nos mares onde o mestre naufragou, o discípulo foi a pique com sua catraia sem nem ao menos avistar a praia.

Noites Urbanas (Bertrand Russel, 176 p. ) é uma reunião de 28 histórias, das quais dez são contos e 18 são minicontos escritos nos últimos cinco anos (me pergunto: cinco anos e escreveu “isso”?). Os minicontos poderiam ser dispensados, creio que só entraram na festa por falta de público na pista de dança, mas é melhor uma festa morta do que defuntos querendo bancar Carlinhos de Jesus.

NOITES URBANAS

Se minhas resenhas de romances são xaropadas que fazem elefante dormir em nuvem, as de contos, então, nem se fala. São de doer mesmo. Num romance você pode começar lendo uma modorra e terminar no paraíso; por ser longo o romance dá essa chance ao escritor: comece chato feito Robbe- Grillet, termine como Tolstói (ou chegue perto, já estará ótimo). Já nos contos, o escritor tem que ser rápido, se começou mal, muda a direção, recupera o ritmo, os termos, e faz boa narrativa ou, na pior das hipóteses, fecha com decência. E, como já falei demais, vamos aos contos. Um por um, pela ordem do livro, e que Deus (ou o Diabo que deixou Piza escrever essas coisas) nos ajude.

Educação pelo outono. Esse conto chegou a ser cômico de tão trágico, trágico no sentido
de… sei lá, ruim até o talo. O autor começa com a recomendação: para ler ouvindo as
Gymnopédies (1888) de Erik Satie. Quem diabos é Satie?, me perguntei. Minha ignorância musical não tem vergonha ou limite, mas respeitei a recomendação e fui ver quem era Satie. Catapum: já conhecia de algum filme – de Woody Allen, talvez? –, a música é a excelência da excelência. Pus o fone, a musiquinha começou a acariciar meus ouvidos e comecei a ler o conto. Deu tilte. Música clássica, suave feito riso de criança ou verso de Florbela Espanca, em cima de um conto desgraçado que se passa num frege moscas de São Paulo? Por que não Emicida ou Mano Brown que é o que se escuta em Sampa?

Suzana, personagem principal do conto, é balconista de um bar e está dividida entre o amor (?) de dois caras, Vital e Alfredo, o primeiro é um coroa Zé Ruela, só podia caber num conto desse tipo; o segundo é um desses tipos que aparecem na frente do seu carro quando o sinal fecha: um artista (vagabundo forte e saudável que quer viver de sua nobre arte). Confesso que tentei ler o conto 4 vezes escutando Satie e não terminei o
primeiro parágrafo, não havia nada no conto que remetesse à música, apenas o pianista
do bar descrito como alguém medíocre que nada entendia de música, segundo Suzana.
Outra coisa: sei que todo emprego é digno e que um Philip Roth da vida pode trabalhar
numa prestadora de serviços hidráulicos e trocar a torneira da sua casa a qualquer hora,
mas uma mulher jovem e com hábitos tão refinados, fã de Balzac, Maupassant e Flaubert
nos nossos dias, se sujeitaria a um emprego como estes? O deslocamento foi total. Ler
ouvindo as Gymnopédies de Satie… ai, ai.

As quatro estações. Neste miniconto achei que ele tinha gasto todo seu crédito de horrores de uma só vez, pois não esperava ver coisa pior ou do mesmo nível adiante, porém ele foi mais longe. Leiam antes a satrapia completa: alimentou as esperanças no Natal, brindou a chegada do Ano-Novo. Espantou a tristeza no Carnaval, renovou a fé com a Páscoa. Cobriu os pés no inverno, colheu flores na primavera. E assim chegou ao fim do ano, aguardando o futuro que não veio. Não que seja tão primário pelo fato de, na primeira frase, você já tecer o final, mas pela falta de vergonha em publicar; este texto não se justifica em hipótese alguma, nem mesmo escrito no caderno de um ginasiano.
Memória do futuro. Uma desgraça (miniconto = minicomentário, ok?). Golpe de vista. Talvez o filho único. O conto: ao descrever a tensão do zagueiro, Vanildo, enfrentando Roberto, atacante adversário, consegue atingir áreas além da geografia limitada das quatro linhas. Bom conto.
Dois filhos. Outra desgraça.

O cartão. Mais uma desgraça.
Ledinha. Nesse conto Piza pulou de um penhasco mirando o colo de Machado de Assis,
parece que errou de cálculo (não acertou nem na epígrafe). Quero deixar claro: todos os
textos, mesmo os minicontos, estão escritos no melhor português, não é este o problema.
O problema é que no conto não pode faltar ritmo, poesia e assunto e, aqui, na grande
maioria, faltam sempre os dois últimos – o que significa as piores catástrofes. Isso é de
lascar. Nesse Ledinha, além de errar o colo de Machadinho, ainda termina da forma mais
previsível possível, a meu ver a primeira que encontrou, como se não soubesse como se
livrar de uma batata quente nas mãos com um balde d’água fria ao alcance.
A rainha. Mais desgraça.
She’s leaving home. O que esperar de um título desses? Desgraça.
Calor de chuva. Se tem uma coisa que aprendi em casa, foi: com religião não se brinca.
Neste conto, ai meu Deus, Piza evoca na epígrafe, senão o maior, um dos maiores contos
da língua inglesa e universal: Os Mortos, de Joyce. Você sabe o que acontece com os
mortais que se envolvem com os deuses, não sabe? Sim, se ferram sempre. O conto:
Ricardo Dantas sai da bolsa de valores e vê um vulto… o vulto era sua alma fugindo de
Joyce que queria matá-lo por denegrir sua obra-prima.
Contabilidade. Aff… desgraça.
O manequim. Mais desgraça.
Circuito interno. Inspirado em John Cheever, diz o autor; hum, sei. Ainda não li nada de
Cheever, mas, depois de doze socos nocauteadores, não posso esperar beijar ninguém
menos do que a lona. O conto: abre com o suspense tipo Invasão de Privacidade (só que
de jeito bem tosco e inexplicável, inconcebível seria a palavra certa) e para nisso. Mal
desenvolvido e com final, que ao dispensar o protocolar, só demonstra que o autor saiu à
caça e levou cabo de vassoura em lugar da espingarda.
Autoestima. Olha, esse miniconto é uma daquelas piadinhas do Facebook, sabe?, mas tão ruim que inspira choro, choro desesperado como ver um ônibus cheio de crianças na
descida do desfiladeiro sem motorista. Uma desgraça mais desgraçada que a desgraça.

A ficha. Sem comentário (o que já é um grande comentário).
O último monólogo do grande ator. Então, imagine que o maior nome do teatro brasileiro te faz o convite para escrever um monólogo sobre a velhice e pretende, ele mesmo, encená-lo no palco, imaginou? Bom. Paulo Autran, que está para nosso teatro como Laurence Olivier para o teatro britânico, pediu isso a Piza. Ele atendeu. Mas Autran
morreu e, ao que tudo indica, não encenou o texto. Devo dar graças a Deus por ele ter
morrido? Confesso que me fiz essa pergunta ao ler O último monólogo. Durante a leitura,
pensei, se um ator do porte de Autran, àquela altura da carreira, me pede um texto com
esse tema (velhice), ou eu não aceitaria, o que é muito provável, ou só entregaria o
trabalho que o surpreendesse, que aventasse coisas novas ou pouco visitadas por seu
alcance de artista, o tipo de texto que desarmasse sua expectativa.

Resumo: jamais escreveria uma linha que já pudesse ter passado por sua voz nos palcos, nem que para isso fizesse longa pesquisa. Ainda a leitura: percebe-se o intuito de profundidade psicológica do personagem, porém o texto de Piza fica na aparência dos sentimentos, nos lugares-comuns do envelhecimento. O drama é apenas sugerido, como se vivenciado à longa distância, como se a distância medisse a validade da velhice. Há um discurso pouco poético do personagem que tenta “salvar” o texto da ruína completa. Em contrapartida, o desfecho é a desgraça completa: o ator caiu no banheiro, quase sem fazer barulho. Na manhã seguinte, sua mulher chamou o porteiro do prédio para arrombar a porta. O socorro não chegou a tempo. Seu rosto estava lívido e nítido como nunca.
Um bambu. Nem Deus, nem o Diabo, nem o próprio Piza explica isso.
A escada rolante. Mais desgraça.
Saquê. Eu não sei que tipo de fetiche faz o escritor escrever: inspirado em, ou pôr epígrafe,
se o que se segue nada tem a ver com a epígrafe ou pior: sai do nada e não chega a lugar
nenhum. Minha nossa senhora, que desgraça.
Roxo. Outra desgraça.
Descontrole. Ah, sim, só descontrolado para ler uma m….. dessas.
Jogo da verdade. De novo, diabo de epígrafe. Dessa vez a vítima é W. H. Auden. Como
em Saquê a vítima, Junichiro Tanizaki, foi atacado sem esboçar reação, neste conto
Auden sai do jeito que foi arrastado ao texto: sofrendo e sem entender nada. Não se
preocupe Auden, eu também fiquei a ver estrelas sob a tempestade. Minto: sabe a
brincadeirinha do jogo da verdade, gira a garrafa e faz a pergunta? Pois é, o conto ainda
termina como sempre terminam essas brincadeiras idiotas. Eu ainda entendi isso e Auden, coitado, não entendeu nada. O que se foi. Foi. Complementaridade…
Grace. De novo a epígrafe, ele não desiste. Dessa vez ele pula os muros do Olimpo a dá
uma pedrada no dedão do Deus dos contos, digo, de Tchecov. O conto: oftalmologista sai
do centro de São Paulo para cuidar da filha da empregada na periferia. Conhece a
realidade da empregada, seus vizinhos e a cadelinha da paciente. E pelo frigir dos ovos,
já sabíamos quem se daria mal: a cadelinha. Ah: Grace é a cadelinha.
O acidente. Sobreviveremos a esse também.
A partida. Já vai tarde.
Esperanto. E a epígrafe? Sim, tem sim. Agora a vítima é cega e fisicamente inofensiva:
Borges. Meu Deus, o que passa pela cabeça de alguém para pôr o imenso Borges como
epígrafe num conto que nada tem a ver com ele, além das citações pouco eruditas, e passa longe de sua escrita, tanto clássica como elegante? Desconfio que Piza ao escrever estes contos, comia capim. O conto: reconhecido professor é convidado para palestrar sobre o esperanto, língua criada por Ludwik Lejzer Zamenhof (1859 – 1917) para facilitar a aprendizagem e a comunicação entres os povos ocidentais, e não aceita a proposta. O que fica sem pé nem cabeça não é nem o vilipendiado Borges, mas o fato de ter começado a leitura e passar todo ela à espera do começo de fato. E acabou. Acaba como começou, ou não começou. Neste conto, deve ter perdido as anotações e ao imaginar que tinha o fio da meada, nem tinha passado a linha no fundo da agulha. Este foi o último conto e a última vez que li a ficção de Piza, juro. O ficcionista não conseguiu ser a micose do articulista.
Recadinho, tenho pouco costume com histórias curtas, na verdade li apenas um livro
de narrativas nesse estilo e indico a todos para que tomem contato – se já não conhecem
– com o que é a força do miniconto, microconto, historieta e todo tipo de epíteto redutor:
O imitador de vozes, de Thomas Bernhard. Um conto desse livro, depura todo o mal que
más leituras fazem com nosso senso de leitor.

Obs.: devo explicar por que repeti tanto a palavra “desgraça”, não tem outro significado
senão xingamento. Xinguei muito nessa leitura. Comprei essa coletânea na Feira do livro
aqui da cidade (Jaraguá do Sul – SC), no mesmo estande tinha centenas de títulos pelo
mesmíssimo preço (10,00). Lembro que deixei Mayombe de Pepetela, pois já tinha em
mãos os seus O tímido e as mulheres e Lueji, para comprar essa desgraça.

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