Tormento #1

No Natal de 2009, na cozinha da casa de minha mãe em Lisboa, enquanto ela preparava o tradicional bacalhau para a ceia da família, recebi a notícia. Eu havia viajado de Madri com o marido e filha para passar as festas de fim de ano com meus pais e irmãos.

O aroma de festa, a aura de alegria, foram totalmente destruídos quando eu ouvi aquela frase dita de forma casual, sem pretensão nenhuma de causar impacto. “- Sabe quem teve câncer?”.

Dito o nome da pessoa adoentada, as minhas pernas fraquejaram, empalideci e tive que sentar. A forte sensação de vertigem me impediu de perguntar os detalhes, as consequências da doença, se a pessoa estava bem ou mal. Junto ao mal estar físico, somou-se o meu silêncio habitual em relação à essa pessoa, sempre comigo no lugar mais  sagrado e profundo da minha alma e coração.

O meu Natal foi um tormento. Mal comi e as horas fizeram- se eternas. A preocupação tomou conta de mim. No entanto, não consegui tocar no assunto. Meus pensamentos tinham sido tomados por um emaranhado de sentimentos e recordações.

A sombra do medo na sua versão mais cruel me estrangulou. A morte rondava a pessoa que mais amei. Sofri um luto prolongado no passado, a morte em vida, aconteceria outra vez? Pensar que essa pessoa poderia, em breve, não estar mais no mesmo universo que eu provocou- me uma tremenda dor. Antes o meu coração estava acomodado, pois achava que ele estava bem. Mas, e agora?

O fim da paz. Os seguintes meses foram um tormento. Todos os dias esperava que não chegasse notícia ruim. Mesmo do outro lado do Atlântico, elas chegam ligeiro. Eu poderia ter perguntado diretamente para algum parente meu, já que tinham contato direto com ele, mas não consegui, decidi não fazer nada. Sempre existiu uma força estranha, poderosa e maligna, que me afastou dessa pessoa. Hoje eu já descobri o mistério.

Também poderia ter ligado diretamente para a casa dele para saber notícias. Mas algo me impedia, parecia inadequado. A tal “força negativa”.

O meu perfil no Facebook acolhia 5000 pessoas de diferentes lugares. Notei que um comentarista habitual trabalhava no mesmo lugar que o meu amor do passado. Teria se recuperado?

Foi essa pergunta que fiz ao meu amigo virtual. Ele disse que não sabia responder, que não sabia se ainda estava de licença ou tinha voltado a trabalhar. Lembrou de um colega que trabalhava direto com ele e que poderia dar essa resposta. Finalmente, reuni forças, pedi um favor: que ele fizesse chegar o meu e-mail ao adoentado. Dessa forma, se ele quisesse e pudesse, me escreveria.

E foi assim que, no dia 14 de outubro de 2010, recebi a mais linda e emocionante carta de amor de toda a minha vida!

Juro: foi a mesma data que começamos a namorar, só que há 31 anos atrás.

Ainda assim, o tormento estava só começando.

Madri, 1º de julho de 2017

Fernanda Sampaio Carneiro

___________________________________________________________________________________________

Este é um texto de ficção, qualquer semelhança com fatos e pessoas reais, é mera coincidência.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.