Resenha: “Intimidade”, do inglês Hanif Kureishi


“Ferir alguém é um ato de involuntária intimidade” (p.08)

Ler esse livro foi como entrar em um profundo transe, um abandono completo do mundo exterior. Poucos livros têm me despertado essa sensação, terminei impressionada. Isso sim é boa literatura, intensa e o motivo de manter esse blog há nove anos!

Hanif fez o difícil parecer muito fácil. É um dos melhores livros que li nos últimos tempos. A resenha saiu grande, tenha paciência, quando o livro é bom eu me empolgo. Nem falei sobre a bio do autor, fica para um próximo post.


Como é acabar um casamento? O que passa pela cabeça das pessoas que querem se separar?

Esse é um romance psicológico que faz refletir muito sobre sentimentos, necessidades e relações, o fim de um relacionamento importante e tudo o que isso implica. A maior parte da narrativa o autor nos joga dentro dos pensamentos do protagonista. A história descreve a agonia de um homem, Jay, de quarenta e poucos anos, que deseja acabar com o seu casamento de seis, com dois filhos pequenos. Luta entre a necessidade do ser e a obrigação, a pena contra a ânsia de liberdade. A estabilidade contra a falta de desejo. A hipocrisia contra a verdade. O imposto pelo real. O real: um amor do passado, que nunca passou.

Conforme vai contando os detalhes do seu casamento, compreendemos o que sente e entendemos que ninguém merece viver dessa forma. A maioria das pessoas julga o fracasso de um casamento, “qual o problema deles?”, sem nenhum conhecimento de causa. Ah, levianos…

“Será amanhã”, está convencido da decisão, mas não encontra a melhor forma, a que provoque menos dor. Tem consciência que vai machucar a família, mas é inevitável. E fica a briga entre a razão e a emoção. Começa a argumentar, encontra vários motivos e vê que ele não é um louco irresponsável. Muitos casamentos, cada vez menos (ainda bem) são uma cárcere de pena perpétua, asfixiam.

Jay não suporta Susan, está cansado fingir, de não poder ser realmente quem é. A mulher é do tipo de pessoa que sempre fala mal de alguém, porque assim parece que ela é melhor, sabe? Susan é exigente com os outros, cheia de cobranças.

O narrador- personagem com pretensão à fuga começa a descrever a vida familiar, a intimidade do casal, o dia a dia maçante. As crianças pedem biscoitos, ele as serve como se fosse um mordomo, elas não agradecem e nem tiram os olhos do televisor.  A casa confortável, mas não tem nada a ver com ele, tudo do gosto da mulher, com os móveis e objetos que ela gosta.

“Mas não me sinto em casa na minha casa, Amanhã pela manhã abandonarei tudo isso. definitivamente. Adeus.” (p. 14)

Ele senta no chão ao lado das crianças. Quer gravar bem na memória todo o mal estar que sente para poder recordar depois, na casa do amigo Victor, para não voltar atrás. Sente até náuseas, vontade de gritar. Sabe que vai poder ver os filhos quantas vezes quiser, mas também é consciente que vai sentir falta de algumas coisas, a voz filhos, vê- los andar de bicicleta, por exemplo,  tudo relacionado com as crianças.

Ele, com a vida acomodada, roteirista de televisão e cinema, “tem tudo para ser feliz”, como costumam dizer…mas e os sentimentos? Essa parte as pessoas normalmente não levam em consideração, como se o mundo interior fosse menos importante, fraqueza, por isso a depressão vem sendo um grave problema. Sentimento é tabu.  Fingir que não sente é como se estivesse tudo resolvido. Não está.

(…) é melhor que as coisas nos provoquem medo, que tédio. A vida sem amor é um tédio inacabável. (…) É fácil matar- se sem morrer. (p.17)

Ele conta o tempo que passou deprimido, anos, e chega à conclusão que foi maior que todo o prazer sexual que sentiu no casamento. Ele não quer ser como muitos que “aceitam um estado de relativa infelicidade, como se fosse uma obrigação”. (p.17)

E até por preguiça, não é? Por acomodação, falta de coragem, medo, covardia, por achar que o padrão se repetirá. Ele compara a esposa com a mãe. Muitas esposas, com fim de manter seus casamentos falidos, assumem esse papel. Problemas de auto- estima/dignidade/valores caducos ou falta de recursos financeiros- estas últimas estão perdoadas, as primeiras, não.

Uma frase que achei muito interessante, quando Jay fala da vulgaridade da televisão e sobre uma coisa que  detesta: “a democratização forçada do intelecto“. Os governos populistas tentam democratizar a universidade, mas esse é um caminho equivocado. A universidade não deve ser democrática,  é uma das poucas coisas que não devem ser assim, pois precisa ser um campo de excelência e das ciências superiores, onde devem estar os melhores. Não fomentemos a era da mediocridade também nas universidades.

Voltando ao nosso protagonista: ele começa a somatizar a ansiedade, vai para o corpo toda a agonia de viver uma vida que não quer. As coisas do coração deixam marcas profundas, as melhores e piores na vida das pessoas.

“Me palpita o nervo ocular. Parece que tremem as minhas mãos. Me sinto vazio e os nervos em carne viva, como se me tivessem enfiado algo mortal. Meu corpo sabe o que passa (…) (p. 25)

Jay recorda um amor do passado, não consegue esquecer Nina;

(…) sempre estará comigo de certa forma (…). Ainda sou incapaz de deixá- la ir embora. (p.26)

Ele perdeu o apetite. A esposa acaricia o seu rosto, enquanto ele pensa em Nina. Essa traição (involuntária e incontrolável), talvez seja a pior, a física não é nada perto disso. Mas Susan é muito perspicaz, como a maioria das mulheres:

 “Talvez ela perceba a velocidade e confusão dos meus pensamentos”. (p.26)

Se ela fosse irresponsável, seria mais fácil, mas Jay não encontra argumentos práticos: ela é uma esposa fiel, excelente dona de casa, ótima cozinheira e mãe. Um “eu sempre amei mais outra pessoa que você”, bastaria?

Ela é uma mulher eficaz e organizada. Nossas geladeiras e congeladores sempre estão cheios de sopa, verduras, vinho, queijos e sorvetes; as flores e arbustos do jardim estão perfeitamente classificados; a roupa das crianças, lavada, passada e dobrada (…) (p.29)

Outro dia eu li algo interessante sobre os diferentes tipos de amor (desculpe a falta de referência bibliográfica, foi folheando um livro na biblioteca),  classificando- o em dois tipos: “o amor de alma” e o “amor funcional”. O amor de alma (a “alma- gêmea”) é um amor que quase nunca dá certo, porque ambos não conseguem administrar a intensidade. É algo tão forte e incontrolável que assusta (sorte de quem consegue, é o sentimento mais incrível e inexplicável que existe!); já o amor funcional, a grande maioria dos casos, é aquele que funciona, justamente porque é morno, fácil de controlar, previsível, o amor funcionário público, mas também não é pra todo mundo, muita gente não suporta.

O nosso protagonista não conseguiu ficar nesse tipo de amor funcional,  ele escolheu o movimento, preferiu desconstruir para construir algo melhor. Cita um verso de um poema que leu na juventude, “Em movimento”, de Thom Gunn (p.28):

Alguém sempre está mais perto quando não fica quieto.

A mulher é muito previsível e isso o irrita. Eles se conhecem desde crianças. Começa a descrever o psicológico da mulher. Ela sempre pensando em reformas da casa. Lê livros sobre culinária. No casamento está tudo muito bem dividido, cada um com suas tarefas. E confessa (p.31):

Não foi sua inteligência nem beleza que me fascinaram. Nunca houve uma grande paixão; talvez esse seja o problema. Mas houve satisfação. Eu gostava da sua destreza e habilidade para sair de problemas. Não estava indefesa diante o mundo, diferente de como eu me sentia. Ela era sincera e firme, sabia como fazer as coisas bem; sempre invejei a sua capacidade; me conformaria em possuir só metade do que ela tem. (…) Se eu fosse muito forte e capaz, não precisaria dela e teríamos que nos separar.

Isso é típico do “amor” funcional: a utilidade. O coração é que deve escolher.

No trabalho, Susan é cruel com quem é inseguro e não tem nenhuma piedade em fazer com que o outro se sinta inútil. O vigor de Susan é esgotador, ela não cansa de repetir mil vezes sobre o esplendor da sua alma e mente. É implacável, mas fingida, sempre tem no rosto um sorriso (falso). É tão auto-suficiente, nunca se decepciona consigo mesma, jamais vai cair num caos interior, porque calcula tudo muito bem, é fria, quase maquiavélica.

É tirana, dura, severa, raramente chora, mas estoura com facilidade. É esnobe e fútil, adora títulos e admira quem tem classe social superior. Jay odeia isso, detesta a “putrefata” casta social, que ela adora participar ativamente.

Jay nunca tem tempo para os próprios pensamentos e a satisfação de não fazer nada. “Não fazer nada era a melhor maneira de fazer algo” (p.52). Ele percebe um certo desespero na hiperatividade da esposa, “como se fosse o seu trabalho o que a mantivesse inteira.” (p.52).

As coisas e pessoas frágeis não se sustentam por si sós, usam escudos: trabalho, religião, casamento, esportes (em excesso). Pensar e perceber as mataria.

Foi a esposa que o afastou do seu auto- conhecimento, de ter opinião, decisão e necessidades próprias, porque foi se acostumando a todas as situações que lhe foram sendo impostas, ou seja, uma marionete, subterfúgio, escada para as necessidades da mulher.

Jay repete toda hora: “hoje é o ultimo dia”, “amanhã acaba tudo”. Ele quer se livrar das ordens da esposa tirana, que ele não gosta e sempre acaba fazendo tudo o que ela quer.  A mulher nota que o marido está deprimido e o chama para conversar. Cobra coisas e até uma foto dela na sua escrivaninha. Mas a foto que ele deseja é a de Nina (p.40):

Se tão só eu pudesse ver o seu rosto outra vez. Mas nem sequer tenho uma fotografia.

(…) Minha infelicidade não beneficia a ninguém, nem a Susan, nem aos meninos, nem a mim mesmo. Mas, talvez a felicidade- esse estado que se experimenta uma satisfação global, em que a pessoa tem tudo, incluída a música- é o resultado de uma aprendizagem. E é óbvio que não encontrei nesta casa. Talvez não tenha procurado ou não soube assimilá- la.” (p.41)

Eu poderia destacar o livro todo, muito bom! Ele dá respostas sobre a infelicidade em casamentos aparentemente estáveis. O personagem não estava disposto a cumprir as expectativas sociais, as aparências, em detrimento da sua morte diária como homem, como pessoa, como ser independente. Matar a pessoa como se isso fosse obrigação, um assassinato consentido, é caro demais, não acha? Ele mesmo se faz a pergunta e dá a resposta (p.42):

Quando as coisas começaram a ir mal com Susan? Quando eu tirei a venda dos olhos, quando decidi que queria ver as coisas.

Fingir que as coisas não existem, não as farão desaparecer. Que bom seria se todos nós afrontássemos as verdades com todas as suas consequências. O casamento como forma de controle, não de prazer. Adivinha quem inventou essas regras? Na minha opinião, a instituição mais fake e desmoralizada que já inventaram (p.44):

O povo não quer que desfrutes demais, acreditam que é ruim para você. Poderíamos começar a desejar todas as horas. Que perturbador é o desejo! É um demônio que nunca dorme nem está quieto. O desejo é travesso e não se dobra aos nossos ideais e por isso temos tanta necessidade dele. O desejo zomba dos nossos esforços humanos e os fazem dignos de consideração. O desejo é o anarquista mais antigo e o primeiro agente secreto (…). E justo quando acreditamos que o temos baixo controle , nos decepciona e nos enche de esperança.

São os homens que têm que ir embora. A culpa fica com eles, como culpariam a mim. Entendo a necessidade de culpabilizar; a ideia de que alguém com mais vontade, coragem ou sentido do dever havia agido de outra maneira. Tem que haver, em alguma parte, a vulneração deliberada da moral que vá mais longe que a simples anarquia, para preservar a ideia de justiça e de sentido no mundo”.

Sobre “são os homens que têm que ir embora”, não concordo, isso independe do gênero. Uma escolha errada é fácil de acontecer por muitos motivos, mas isso não tem que ser cadeia perpétua, sempre é tempo de ratificar.

Jay começa a pensar no seu (excelente) pai e no que ele pensaria se estivesse vivo. Começam os problemas de consciência. Sabe que seu pai ficaria horrorizado com a sua fuga escondida, indigno, desleal. Susan procurava o sogro quando eles brigavam e o homem repreendia o filho em prol da mulher, “ela é uma joia” (p. 54). O senhor, machista, achava que as mulheres não podiam valer- se sozinhas, o filho herdou um pouco isso também. O pai de Jay, falecido há seis anos, era funcionário público e escritor. O fracasso fazia mais fortes as convicções do homem, “Era um tipo duro” (p. 55). Para o seu pai tudo devia ser feito sem nenhuma espécie de recompensa, assim pensava:

“O matrimônio proporciona poucos prazeres. Não podes ir embora e aproveitar a vida. Tanto ele como mamãe estavam frustrados e eram incapazes de encontrar uma maneira de conseguir aquilo que desejavam, fosse o que fosse. Mas mantinham a fidelidade e honestidade um com o outro. Mas infiéis e desonestos consigo mesmos.” (p. 56)

Um casal de classe média baixa dos anos cinquenta jamais teria se separado. Meus pais permaneceram debaixo do mesmo teto a vida inteira. (p.57)

 Grave é que isso continue acontecendo em 2017, não é? A mãe de Jay preferia passar o dia todo fora, que em casa com o marido, estar com outras pessoas era mais agradável.

Susan o acusa constantemente de falta de entrega. Ele tentava, mas… (p.59)

Creio que a mente sempre está concentrada..em alguma coisa que interessa (…) como o rosto de Nina e as carícias dos seus dedos compridos.”

(…) Continuo considerando minha falta de amor por Susan uma fragilidade, um fracasso de que sou responsável.

E mais uma parte do drama sentimental e dos absurdos que as pessoas se submetem (p.62):

 – Quando penso que minha mulher e eu estivemos juntos todas aquelas noites e aqueles anos estéreis e complicados, não entendo nada. talvez fosse uma espécie de idealismo louco. Eu havia feito uma promessa que teria que cumprir a qualquer preço. Mas, por quê? O mundo jamais se recuperaria com o fim do meu casamento (…) era uma obsessão absurda e cega”.

Jay começa a pensar em coisas triviais como a roupa que vai levar na sua fuga. A única coisa que pensa são em alguns ternos (ele foi indicado a um Oscar), sapatos elegante e confortáveis, a fotografia autografada de John Lennon e alguns discos.

Não pense que ele quer desfazer seu casamento por Nina. Jay tem consciência que ninguém vai substituí- la. Ele quer ir embora por si mesmo e para acabar com a farsa. Antes,  pediu Nina em casamento. Ela não quis.

Jay não leva muito em conta a opinião de sua mãe, ela também queria fugir no seu tempo, mas não tinha dinheiro. Sabe que a mãe vai dizer que é ruim para as crianças. O machismo vomitivo:

“Susan se sentia orgulhosa de mim. Um homem pode proporcionar a uma mulher dignidade e status”

“Ela preferia uma relação desequilibrada e deteriorada a não ter nenhuma” (p.71)

Susan trabalha muito e mesmo muito cansada, mas não falta aos muitos eventos sociais que é convidada. Adora ser popular e requisitada, ter muitos contatos, pois para ele isso é símbolo de um bom status. Jay sabe que ser uma mulher separada será um drama para Susan.

Uma mulher de meia idade com filhos não tem muito “charme” e Susan sabe disso. (p.70) Eu usei um eufemismo para “charme”, na verdade, o autor usou “cachê”. Jay e Susan são misóginos e sexistas. Pior é a mulher, porque joga pedra no próprio telhado. Mas a história é reflexo, não poderia ser diferente.

Ele não suporta a mulher, mas continua pensando em ter relações sexuais com Susan. Esse é um tabu desfeito, creio. As pessoas já sabem diferenciar um desejo físico de amor até nos últimos minutos antes de dormir, na sua última noite na casa; aliás, a história toda acontece nessa noite. Jay dá exemplo da cultura indiana: os casais “copulam” quando sentem necessidade e depois cada um vai para o seu lado, que nessa cultura as relações não são muito românticas.

Jay é completamente apaixonado por Nina. Ele não entende o motivo. O amor quando chega, não se explica, é impossível, às vezes nada tem a ver com o que desejamos. O amor é um bicho desgovernado. Ele se entregou à Nina, inevitável.

Eu podia ter me esforçado mais com Susan? (p.86)

Nenhum esforço é suficiente, é só um prolongamento da mentira, das aparências. Amor não se força, se o amor dependesse da nossa vontade, que maravilha seria!

Caros amigos e amigas, não desanimem. O amor, o dos bons, existe sim.  Reciprocidade é a chave. Todo mundo deseja esse tipo de amor, nada é tão incrível e fascinante como ele. Quando você estiver com alguém que algo consiga parar os ponteiros do relógio no seu mundo, preste muita atenção. É ele ou ela. 

Esse livro me escolheu, não fui eu quem o escolhi. O caixa da Casa del Libro que me indicou: “quer ler um livro fantástico sobre o amor?”. Eu não sabia que esse livro, assim do acaso, se tornaria um dos meus preferidos.

Pessoal, o final me fez chorar.


Abaixo, Hanif Kureishi. Eu o conheci pessoalmente em Madri. Tenho outros dois livros do autor autografados, veja aqui, que espero ler o mais brevemente possível.

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E essa é a edição espanhola lida, espero que você o encontre na sua cidade, um dos livros mais fantásticos da vida! O nome original em inglês é “Intimacy”.

18768621_800383593450536_9012993706213832746_oKureishi, Hanif. Intimidad. Anagrama, Edição limitada, Barcelona, 2015. Páginas: 143

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3 Comments »

  1. Nunca li nada desse autor. A Companhia das Letras já publicou alguns títulos de HK, mas esse ainda não. Vou começar por “A última Palavra”. Obrigada pela dica.

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