Resenha: “A teoria de tudo”, de Stephen W. Hawking


Esta é uma obra que eu estava com muita vontade de ler desde que assisti o filme em 2014, “A teoria de tudo”, baseado na autobiografia da ex-mulher de Hawking, Jane Wilde, que mostrou a vida do casal, ainda namorados na universidade e como surgiu a doença do cientista, além de todas as suas consequências.

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Stephen e Jane no dia do casamento

Mas não confunda: esse livro não tem nada a ver com o filme, esse é de caráter científico e reúne sete conferências do cientista inglês Stephen Hawking (Oxford, 08/01/1947), que padece ELA- Esclerose Lateral Amiotrófica ou doença de “Lou Gehrig”. A síndrome levou o nome de um dos maiores jogadores de beisebol americano que sofreu esse mal degenerativo e incurável.

Tenho uma boa notícia: lembra daquele desafio do balde de gelo que rolou entre os famosos em 2014? Foram arrecadados 115 milhões de dólares e com esse dinheiro foi possível avançar na investigação da doença. Descobriram três genes e um deles é responsável por 65% dos casos. Identificando aonde está o mal, pode ser que avancem também no tratamento e, quem sabe, encontrem  uma solução. Fé na Ciência!

lou-gehrig-062415-sn-ftrjpg_71l5redgftrc12onri2qfdijd.jpgLou Gehrig

Hawking é físico, matemático, doutor pela Oxford e uma inspiração para todos. Uma pessoa admirável, que mesmo com uma doença tão difícil, fez e ainda faz coisas geniais, ele é um dos físicos teóricos mais proeminentes da atualidade e ainda tem um senso de humor incrível, já participou de alguns episódios de The Big Bang Theory e é uma clara inspiração para os roteiristas.

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Devido à sua paralisia, ele usa um sintetizador de voz que desenvolveu junto com a Intel, o software está disponível gratuitamente  na Internet, chama- se ACAT.

O cientista casou duas vezes e tem três filhos. Uma das filhas, Lucy, é escritora.

Vamos ao livro.  O cientista fez um prólogo explicando o teor de cada conferência. A obra científica tem uma linguagem acessível e pode ser lida por qualquer pessoa, de qualquer idade. O autor percorreu a história do pensamento científico desde o principio, desde a época dos filósofos gregos até a atualidade. Ele chama “a história da história do universo” (p.11).

Primeira conferência: Ideias sobre o Universo

Hawking começa citando Aristóteles, que em 340 a.C., no livro “Sobre o céu” já achava que “a Terra era uma bola redonda” e não um “disco plano”. Sabe como ele descobriu? Com vários argumentos muito inteligentes, pela observação da natureza, entre eles, que “a sombra da Terra sobre a lua era sempre redonda, o que só podia ser certo se a Terra fosse esférica”. (p.15)

Ptolomeu também contribui para a Ciência observando os planetas e suas trajetórias no século I.d.C., ele criou um modelo do Cosmos bem razoável, que serviu para localizar a posição dos corpos celestes. E Nicolau Copérnico (sacerdote polaco), muito depois, em 1514, ofereceu um modelo mais simples, mas certeiro: foi dele a proposta de que o sol estava em repouso no centro e que a Terra e os planetas circulavam ao seu redor, a teoria “heliocêntrica” que a gente estuda na escola. Coitado, ninguém o levou a sério. Copérnico merece um estudo à parte, foi uma figura incrível.

Um século depois de Copérnico, dois caras retomaram a teoria heliocêntrica: Johannes Kepler e Galileo Galilei, esse último inventou o telescópio e começou a observar o céu noturno. Foi Kepler que revisou a teoria de Copérnico e comprovou que os planetas não se moviam em círculos e sim em elipses.

Hawking ainda cita Newton, Bentley, Olbers e a teoria da gravidade universal; também fala sobre as origens do universo, desde a visão bíblica ao big bang.

Segunda conferência: o universo em expansão

Aqui ele fala sobre a Via Láctea. O cientista americano Edwin Hubble demonstrou em 1924, que a nossa não era a única galáxia. Esses estudos foram muito importantes para avançar no conhecimento sobre o universo. Hawking afirma que foi a grande revolução do século XX. Hubble descobriu que o universo não era estático, que expandia- se, porque a distância entre as galáxias aumentava sempre.

O físico russo Alexander Friedmann começou a estudar a força anti- gravidade e que o universo não era estático.

Arno Penzias e Robert Wilson, cientistas americanos, estudaram as microondas. Essas ondas eram resultado da explosão do Big Bang. Os “caras” descobriram que elas podiam estar no universo em algum lugar pelo efeito expansão. Bob Dicke e Dim Peebles, também americanos, estavam estudando a mesma coisa, só que depois dos anteriores. Sabe o que aconteceu? A segunda dupla ganhou o Nobel em 1978. Hawking considerou esse Nobel injusto.

Terceira conferência: Buracos negros

Quem inventou esse termo, “buraco negro”, foi o cientista americano John Wheeler para “uma descrição gráfica de uma ideia que remonta há duzentos anos atrás.” (p. 47) Nessa época, diziam que a luz era composta por partículas e outros diziam que era feita por ondas. As duas são corretas.

Hawking cita vários cientistas que estudaram os buracos negros  e explica de uma forma simples o que são: “para entender como podem formar- se os buracos negros, temos que entender primeiro o ciclo vital de uma estrela. Uma estrela forma- se quando uma grande quantidade de gás, principalmente hidrogênio, começa a chocar- se contra si mesma devido à ação gravitacional”. (p. 48). Não vou explicar tudo, leia o livro, é interessantíssimo!

E vou deixar uma pergunta: como os buracos negros podem ser detectados se não emitem nenhuma luz?

Quarta conferência: os buracos negros não são tão negros

Hawking estudava a teoria da relatividade geral em meados dos anos 60, se o big bang foi um evento único ou repetiu- se várias vezes. Ele conta um episódio de 1970: “em uma noite de novembro do citado ano, pouco depois do nascimento da minha filha Lucy, comecei a pensar nos buracos negros antes de ir dormir. Minha invalidez faz com que esse processo seja bastante lento, então tinha muito tempo. Até essa data não havia nenhuma definição precisa de quais pontos no espaço- tempo ficam dentro de um buraco negro e quais ficam fora.” (p.67)

Então, amigos…foi a partir desse dia antes de dormir, que Stephen Hawking formulou várias teorias sobre os buracos negros, sobre termodinâmica, física quântica e avançou muito no conhecimento sobre esses fenômenos da natureza. Ele afirma que nada é por acaso, que o universo, assim como os seres humanos, estão quase que completamente regidos por leis da Física.

Quinta conferência: a origem e o destino do universo

Na década de 70, Hawking dedicou- se praticamente só ao estudo dos buracos negros. Mas em 1981, o interesse sobre questões ligadas à origem do universo reavivou depois de uma conferência sobre cosmología que ele assistiu no Vaticano. A Igreja Católica atrapalhou a Ciência quando proibiu Galileo de afirmar que o sol não girava ao redor da Terra. Então, parece que tentaram retratar esse erro do passado convidando vários cientistas para expor suas teorias. Hawking conheceu o Papa nessa ocasião, que disse que era muito bom estudar o big bang, porque isso era criação de Deus (Hawking é ateu).

Nessa conferência no Vaticano, Hawking explicou como pode ter acontecido o big bang, mas deixou perguntas abertas, nem tudo pode ser explicado ainda, mas descarta totalmente a figura de algum “Criador” (Deus), já que por suas próprias características intrínsecas, o universo não tem fronteira nem bordas, isso seria impossível.

Sexta conferência: a direção do tempo

O cientista começa com uma citação interessante de L. P. Hartley: “O passado é um país estranho. Nele as coisas são feitas de forma diferente; mas, por que o passado é tão diferente do futuro? Por que recordamos o passado, e não o futuro?” Em outras palavras: por que o tempo vai para frente? (p. 111)

As leis da física não diferenciam o passado do futuro. Isso explica várias questões: as coisas  do passado que nos importam, que nos doeram, que nos fizeram felizes, traumas ou alegrias, normalmente, nos proporcionam a sensação de presente, porque dentro da lei da física o tempo não faz essa diferença. Não é nossa culpa quando não conseguimos esquecer algo, é fisicamente impossível! O passado não existe, porque é presente fisicamente falando! Ele explica que a memória está relacionada com a termodinâmica. A “flecha do tempo” aponta de acordo com esse princípio.

Eu sempre procurei respostas em relação à memória em textos religiosos, psicológicos, antropológicos, filosóficos e a melhor resposta acabei de encontrar na Física! Só por isso a leitura dessa obra já valeu a pena. Resumindo: você não vai esquecer, por mais que tente, o que foi importante pra você no passado, bom ou ruim. Não diga para alguém: “esqueça!”, ela não vai conseguir.

Sétima conferência: a teoria de tudo

O desafio de Hawking e de muitos cientistas é encontrar uma teoria única que explique todo o universo. Einstein passou os seus últimos dias procurando essa teoria. Mas “parece que a teoria da incerteza é uma característica fundamental do universo que vivemos” (p. 125). Encontrar uma teoria que unifique todas as disciplinas, parece tarefa hercúlea.

O cientista considera que sabemos “muito mais do universo agora”, ou seja, naquele momento da conferência (1996), ele mostrava- se muito otimista. Agora será que continua assim  mais de 20 anos depois?

(…) Se descobrirmos uma teoria completa (…) Então seremos capazes de formar parte da discussão do porquê o universo existe. Se encontrarmos resposta para isso, será o triunfo definitivo da razão humana, pois então conheceríamos a mente de Deus.” (p. 139)

Hawking tem um site, acesse.

Esta é a edição espanhola que eu li:

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Hawking, Stephen W. La teoría del todo- El origen y el destino del universo, Debolsillo, Penguin Random House, Barcelona, 2015. Páginas: 151

Frase do meu marido: “quem estuda Ciências não é para ficar rico, é para melhorar o mundo”, assim como os professores e os artistas. Já de antemão, a maioria sabe que nunca vai ficar rico (poucas exceções) e que vai ter que batalhar o dobro, mas faz assim mesmo. São esses sonhadores que mudam o mundo.

Esse livro é recomendadíssimo para estudantes, pois dá uma visão geral das Ciências desde o princípio, uma introdução que pode despertar a vontade de estudar um ou mais assuntos mais profundamente. Realmente um livro inspirador!

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