Uma reflexão sobre o tempo


Quem conseguir responder o que é o tempo, terá conseguido solucionar um dos grandes enigmas da humanidade. Parece fácil se pensarmos no tempo cronológico, nas horas, mas eu falo do tempo baixo uma perspectiva filosófica/antropológica/sociológica/psicológica/histórica e até científica. E sem citar a questão mitológica do tempo. É muito pensar…

Nós passamos, o universo não. Somos provisórios, o tempo não. O nosso entendimento sobre o perene é muito limitado. O nosso alcance também. Só entendemos do tempo sobre o que vemos no nosso mundo. Descartamos outros espaços, universos, atmosferas, dimensões, essas coisas nem são consideradas. Não temos como comparar, nem como entender melhor o que é o tempo. O homem é um bicho muito limitado.

O tempo na natureza parece ter uma ordem. Amanhece, anoitece, as quatro estações se sucedem, o ciclo das plantas e animais, inclusive o nosso, mas isso tudo não tem muita precisão. Há países em que o sol nunca se põe e nesses mesmos países polares, a noite dura mais de 24 horas. Há pessoas que vivem quase o dobro da média. O tempo, vejam só, foge às suas próprias regras.

Quanto tempo vamos estar por aqui é uma preocupação comum, conscientemente ou não. Organizamos o nosso tempo em horas, dias, meses, anos, colocamos nomes e obrigações para cada dia do ano. Há o tempo certo para batizar, entrar na escola, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, netos, o nosso tempo todo compartimentalizado, numa tentativa de organizar todo o  ciclo de vida e aproveitá- lo da melhor forma, segundo convenções, religiões, governos, diferentes tipos de poder. O tempo também é uma forma de prisão e controle.

O tempo tem muitas subdivisões, o tempo do universo, o pessoal, o  social, o psicológico, o objetivo, o místico e o biológico. A crítica é feroz quando não se cumpre o especificado para cada questão.

Existe até o tempo certo para as roupas, digo, a idade certa para vestir cada tipo de peça. As pessoas vestem- se, normalmente, de acordo à idade que têm. Pura bobagem.

Existe a hora específica para comer e o quê comer. Outra bobagem.

A idade influencia na percepção do tempo: para as crianças e  jovens, o tempo passa devagar; para adultos e idosos, o tempo passa mais rápido. Talvez a biologia tenha a ver com essa mudança de percepção, que é real.

Quando vivemos situações desagradáveis, o tempo parece não passar; quando vivemos momentos de felicidade, êxtase, prazer, parece que o tempo voa, ou seja, as emoções mudam a nossa percepção sobre o tempo.

E a crença sobre as reencarnações? A alma sempre viva em todas as eras rompendo com a finitude do tempo físico dos corpos.

Quem nunca ouviu falar nessa frase: “pra tudo tem o tempo certo” ou “tudo só acontece na hora certa” ou “tudo acontece no tempo de Deus”. Como se existisse uma força controladora do tempo e das pessoas. O que se pode chamar também de destino, algo fixo, estipulado, que foge ao controle do sujeito.

O tempo também é médico, curandeiro: “o tempo cura tudo”, “não há mal que dure para sempre”. Eu acho frases bem cretinas.

Todos os povos e religiões têm teorias sobre o tempo e seus deuses que criaram o mesmo. A maioria delas solucionou a questão da mortalidade dando a imortalidade à alma.

E a tentativa de viajar no tempo é um desejo de muitos cientistas. Viajar ao passado é possível através da memória. Ao futuro, só com o sonho e a imaginação.

Na literatura, a questão do tempo é assunto primordial, mas essa coletânea fica para outro post, só vou deixar um fragmento do mítico “Retrato” , de Cecília Meireles:

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.

Na música  também, o tempo é tema recorrente:

Tempo amigo seja legal
Conto contigo pela madrugada
Só me derrube no final  (“Sobre o tempo”, Pato Fu)

XXX

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo (“Tempo perdido”, Legião Urbana)

XXX

Vi o tempo passar
O inverno chegar
Outra vez mas desta vez
Todo pranto sumiu
Um encanto surgiu
Meu amor (“Você”, Tim Maia)

XXX

Mais um ano que se passa
Mais um ano sem você
Já não tenho a mesma idade
Envelheço na cidade (“Feliz aniversário”, Ira)


Do tempo, quem há de fugir?

Esse é um texto aberto, infinito, mesmo quando não estivermos mais aqui.

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