Resenha: “Bartleby e companhia”, de Enrique Vila- Matas


O prolixo Enrique Vila- Matas (Barcelona, 1948), publicou o seu primeiro livro em 1973, “Mulher no espelho contemplando a paisagem”; a última obra recém- publicada (2017), “Mac e seu contratempo”, é o 29º romance. Também é ensaísta, possui  treze livros publicados nesse estilo, além de outros textos em coletâneas. É um dos escritores mais premiados da atualidade, cerca de 24 prêmios pelo mundo, mas ainda não ganhou os dois mais importantes: o Cervantes  e o Nobel.

Enrique é formado em Direito e Jornalismo. Morou em Paris dois anos em um apartamento alugado de Marguerite Duras. Sua obra foi traduzida para 27 idiomas.

paratybrasilEnrique em 2012 em Paraty, onde participou da FLIP. Será que ele gostou do cafezinho brasileiro?!

No Brasil, ficou mais conhecido, quando a finada Cosac & Naify publicou alguns dos seus livros, entre eles, esse: “Bartleby e companhia”(2000), motivo dessa resenha. A minha edição é espanhola (vocês sabem que eu moro na Espanha), de bolso, da Penguin Randon House, bem modesta, nada a ver com as lindas edições que a Cosac costumava fazer.

Vamos ao texto…

Começo esclarecendo quem é “Bartleby”: Herman Melville escreveu um conto chamado “Bartleby, o escrivão” (1853). O personagem, um jovem escrivão, ávido trabalhador, de repente, deixou de sê- lo. Perdeu o interesse, o tesão, a inspiração. Quando era exigido, dizia: “Prefiro não fazer”. Só pelo título já temos a pista do que pode nos contar a obra, reforçada pelo pensamento da epígrafe:

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever. (Jean  de La Bruyère)

O próprio Herman Melville considerava- se um bartleby, por isso escreveu o conto. Em 1853, com 34 anos e depressivo, concluiu que havia fracassado. O escritor de “Moby Dick” não suportou as críticas (injustas) sobre a sua obra. Morreu em 1891, esquecido.

O personagem começa a escrever um diário no dia 8 de julho de 1999. Exceto pelo trabalho desgraçado, a falta de sorte com as mulheres e a solidão, considera- se um sujeito feliz. Há vinte e cinco anos, ele havia escrito um livro sobre a impossibilidade do amor e nunca mais escreveu nada. Tamanho o trauma, tornou- se um “bartleby”. Ele usa o termo como adjetivo. Começou a “caçar” bartlebys, escritores que abandonaram a escrita. Será que ele achou Raduan Nassar? O recente ganhador do prêmio Camões não escreve há trinta anos? Não, o distinguido escritor não é citado na obra de Vila- Matas.

O narrador deixou de escrever por causa do seu pai que o obrigou a escrever  em seu nome, uma dedicatória que ele não queria. Parece um motivo meio bobo, não é? Mas pra ele foi motivo suficiente. Isso foi usado como pretexto para contar as histórias (reais) de escritores da literatura mundial.

E foi assim, que o narrador começou a pesquisar autores que entraram no “labirinto do não”, da não- escrita.  Cita alguns nomes e explica o caso de cada um deles, como o de Robert Walser, o escritor suíço, que ganhou a admiração de Kafka e Musil, ficou deprimido, abandonou a sociedade, isolou- se para escrever. Terminou mal, morreu no Natal de 1956,  perto da clínica psiquiátrica que estava internado, deitado na neve.

Vila- Matas diz sobre “Burtleby e Companhia”, que as pessoas deixam de escrever, porque deixam de existir (vai sem tradução, assim você treina espanhol):

Contrariamente a lo que se cree, no hablo exactamente en este libro de escritores que dejaron de escribir sino de personas que viven y luego dejan de hacerlo.  De fondo, eso sí, el gran enigma de la escritura que parece estar diciéndonos que en la literatura  una voz dice que la vida no tiene sentido, pero su timbre profundo es el eco de ese sentido.*

É mais normal do que se pensa isso de deixar de existir, deixar de viver, ainda estando vivo. E o autor dá exemplo de outros copistas, dos mexicanos Juan Rulfo e Augusto Monterroso, que trabalharam em repartições horríveis e que também se comportaram como bartlebys. Outro bartleby muito famoso: Arthur Rimbaud.

Contou também a história do catalão Felipe Alfau, depois de dois livros publicados, o seu silêncio durou 51 anos. Imigrante nos Estados Unidos, a sua desculpa: estava ocupado aprendendo inglês.

Outros escritores que deixaram o ofício por longos períodos: Salinger, Fernando Pessoa e até Cervantes.

O livro é muito interessante, uma biografia de autores que tiveram condutas parecidas; no entanto, o gênero não concorda com a sua forma, que adapta- se melhor à biografia ou ensaio. Não é um romance. Achei desnecessário usar um personagem para contar o livro, poderia ser a voz do próprio autor. Inclusive em forma de tópicos, um guia de autores bartlebys, muito mais fácil para consultas. O narrador praticamente não aparece. De todas as formas, recomendadíssimo! Para quem ama a literatura é um prato muito bem servido.

O ofício do escritor é um dos mais complicados, porque é mente, emoção, (des)equilíbrio. Tudo isso está no cérebro, esse indomável.

  enrique-vila-matas-bartleby-y-compan%cc%83iaVila- Matas, Enrique. Bartleby y Compañía. Debolsillo, Penguin Randon House, Barcelona, 2016. Páginas: 173

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O brasileiro Raduan Nassar ganha Prêmio Camões 2016


O paulista Raduan Nassar (Pindorama, 27/11/1935) ganhou o Prêmio Camões 2016, o maior da nossa língua, já que engloba autores de todos os países lusófonos. A entrega do prêmio de 100 mil euros aconteceu em São Paulo ontem (sexta, 17/02), com a presença de autoridades brasileiras e portuguesas. Do valor citado, 50 mil euros (cerca de 150 mil reais) é bancado pelo governo brasileiro.

O autor é descendente de libaneses, formado em Filosofia pela USP. Ficou afastado do circuito literário quase 30 anos, é fazendeiro. Sua obra é curta, apenas dois livros publicados (romances) e contos que foram reunidos e publicados quando ele já havia parado de escrever. No entanto, parece que foram suficientes para receber um prêmio tão importante. É o que vamos comprovar.

Infelizmente, o nome do autor vai ficar ligado ao protesto político- partidário do seu discurso de ontem, muito mais que por sua obra, uma célebre desconhecida, pelo menos até agora. Nos meus anos de estudante de Letras (Bahia), jamais ouvi falar do autor, jamais foi citado por nenhum professor, nunca vi seus livros em bibliotecas e nem em livrarias (estou fora há 14 anos). O seu nome apareceu pra mim nos últimos dois anos. No ano passado, nas redes sociais por sua ligação com o Partido dos Trabalhadores e por causa do lançamento do seu livro “Obra Completa”, da Companhia das Letras.

64941818_sc-sao-paulo-sp-17-02-2017-discusssao-entre-ministro-da-cultura-roberto-freire-e-escrRaduan Nassar ontem na entrega do Prêmio Camões. Foto: O Globo

16091359O escritor que nunca aparecia, apareceu “de repente” para defender a Dilma. (Março, 2016)

Não houve oportunidade de comemorar o fato de um autor nacional ter ganhado um prêmio tão importante. O feito passou despercebido diante de tanta polêmica política, um lamentável “espetáculo”, com réplica de ministro, vaia do público, um verdadeiro circo que repercutiu muito mal aqui fora, para a já frágil imagem brasileira. Mas cada um é livre e escolhe como prefere ser lembrado, não é? As paixões são indomáveis.

E como esse barraco político não me interessa, vamos falar da literatura de Raduan Nassar. E para poder opinar com propriedade, vamos ler a obra. Achei o PDF de “Lavoura arcaica” (1975) e o PDF de “Um copo de cólera” (1978) e aqui o conto “Menina a caminho”.

Em breve, voltarei com a minha opinião sobre a obra do autor.

Novidade: lançamento da Revista ABRESCCO!


Saiu a primeira edição da revista “ABRESCCO” (“Aproximações Brasil Espanha em Cultura e Comércio”), que é uma empresa de assessoria e consultoria, criada pelo advogado Antonio Peres Junior (presidente), o empresário Joaci Goes Filho, o professor Pedro Corrales, do “Instituto de Empresas Business School” e o economista Juan Miguel Hortelano.

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Os quatro sócios e Luciana, esposa de Antonio Peres. Foto: Peres Junior Advocacia

A revista criou uma ponte entre a Espanha e o Brasil, apresentando artigos, reportagens, entrevistas sobre os dois países, no âmbito empresarial, financeiro e cultural. Nessa primeira edição muito especial e com matérias de peso, muitas informações financeiras e curiosidades históricas interessantes, tanto para empresários, como para os vários perfis de leitores. Também é curioso ler o que pensam empresários e diplomatas sobre a sociedade espanhola e brasileira. A edição está recheada de personalidades de destaque, especialistas nos dois países.

A Espanha está mais presente no Brasil, que o Brasil na Espanha em se tratando de negócios. Leia e revista e veja a quantidade de empresas espanholas no Brasil. Você também vai comprovar que a Espanha e o Brasil têm mais coisas em comum do que a maioria das pessoas pensa.

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Antonio Peres Junior, presidente da ABRESCCO

A edição impressa sairá nos próximos dias e será distribuída, além da Espanha e Brasil, em Portugal e na Suíça. Mas, você que não está nesses países e quer conhecer a ABRESCCO, clica aqui!

O editor da revista é João Compasso (também editor da Revista Bossa), parabéns João! Eu fiz a tradução e revisão, Amable González foi o responsável pelas belas fotografias e o designer é Gonzalo López. Eu já trabalhei antes com os três na Revista BrazilcomZ.

A capa da ABRESCCO, fevereiro de 2016, 1ª edição:

16730199_741720082650221_1196979426683841731_nParabéns aos sócios, sucesso e vida longa à Revista ABRESCCO!

Voltando…primeiro post de 2017!


Olá, amigos e amigas, voltei! Já estava com saudade de vocês e do blog. Vou começar a contar sobre os últimos livros que li e de algumas outras novidades. Já é 13 de fevereiro, vamos lá!

A resenha de hoje é sobre um livro lido em dezembro, na altura do Natal: Histórias da Terra e do Mar, da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/12/1919- Lisboa, 02/06/2004), seu avô paterno era dinamarquês, e pelo lado português, de família aristocrata. Seu tio era o dono da fazenda, que hoje é o Jardim Botânico do Porto. Considerada uma das maiores poetisas portuguesas do século XX, ela também escreveu contos, ensaios, peças para teatro e  era tradutora. Foi professora universitária do curso de Letras e mãe de cinco filhos.

Sophia de Mello Breyner Andresen  01.jpgSophia de Mello

Vamos ao livro, uma obra composta de cinco contos:

História da Gata Borralheira

A história dividida em dois capítulos, realmente tem atmosfera de conto de fadas, mas não só o da Gata Borralheira como sugere o título, inclui também a história da Cinderela e da Branca de Neve, mas com um final infeliz. Será que  da modernidade pra cá (o livro foi publicado em 1984, mas o conto vem com a data de 1965) não comporta mais histórias de grandes amores com finais felizes?

Lúcia, 18 anos, moça pobre, foi convidada para um baile. Foi mal vestida e com um sapato velho e ralado. Ficou num canto, sozinha, nenhum rapaz a tirou para dançar. Se você nunca passou por isso, imagina a cena e a sensação. Depois foi morar com a tia rica casou com um homem rico. Conheceu o mundo oposto ao seu (p.26):

O mundo tem um preço, e Lúcia pagou o preço do mundo.

Lúcia reencontrou- se com o único homem que dançou no baile há vinte anos. O homem reapareceu de forma mágica. Ele era o outro caminho.

Um conto muito interessante que nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos. E se a gente escolhesse o que não escolheu? Como teria sido?

O silêncio

Era complicado.

Assim começa a história de Joana, uma dona-de-casa muito solitária, que leva uma vida ordenada e silenciosa. A palavra “silêncio” é repetida muitas vezes, incomodando, como parece incomodar a vida de Joana; ao mesmo tempo,  o silêncio é o seu único interlocutor. Tanto silêncio é interrompido pelos gritos de uma mulher, uma briga de casal, que a protagonista espiava da janela.

A casa do mar

Esse conto é uma descrição minuciosa de uma casa do mar, que foi construída em cima de uma duna, afastada das demais casas. Particularmente, por não gostar de textos descritivos, foi o que menos gostei. Não me disse muito, mas isso não significa que ele seja ruim- ao contrário, é muito bem escrito. A inspiração foi a sua casa de Lisboa.

Saga

Esse conto remete às origens dinamarquesas da autora e demorou quase uma década para ser escrito (1972- 1981). É o texto mais longo do livro e conta a história, a “saga” do menino Hans, de uma família dinamarquesa que mora no interior da ilha de Vig ( realmente existe,  pertence à Dinamarca). O pai, Sören, ex-marinheiro, alto, magro, austero e silencioso. Ele impunha o mesmo silêncio aos demais (p. 57):

(…) sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra.

Os dois irmão de Sören morreram em um naufrágio, por isso vendeu o barco e comprou as terras no interior da ilha. No entanto, permanece inquieto e taciturno.  Uma vez marinheiro, sempre marinheiro. É o destino da família.

O filho Hans quer ser também marinheiro, “capitão de navio”. O pai já viu gente demais sepultada no mar, quer mandar o filho estudar em Copenhague. O rapazinho fugiu em um navio inglês que passou pela ilha.

O bisavô da autora veio de barco da Dinamarca até o Porto. O personagem Hans está inspirado nele.

Sophia conseguiu, em um texto curto, narrar as peripécias, aventuras e desventuras de uma vida inteira. Dos 14 anos do protagonista até a sua morte, já idoso. Destaco um trecho que achei genial, pois condensa tanta verdade, mas de difícil percepção e síntese, ainda mais assim tão bem explicada:

E Hans compreendeu, como todas as vidas, a sua vida não seria mais a sua própria, a que nele estava impaciente e latente, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado, e que, por isso, nem seriam vitórias.

Eu prefiro não explicar o trecho acima, só sente….

Vila d’Arcos

Uma prosa poética deliciosa! Um texto bem curtinho, o mais curto do livro. Sophia pega na nossa mão e nos leva para passear pela “Vila d’Arcos”. Sophia tinha um bom gosto e sensibilidade impressionantes para escrever. Esse texto carrega uma lição de vida.

sophia

Mello Breyner Andresen, Sophia. Histórias da Terra e do Mar, Porto Editora, Porto, 2015. Páginas: 95

Gostei bastante deste livro, recomendo, anota na lista!

Daqui a pouco eu volto para contar uma novidade. Fique atento!