Resenha de filme: “Sete homens e um destino”


Por Gerson de Almeida, colaborador

Eu já tinha cantado a pedra no século passado, mas me tacharam de maluco e temi que minha mãe tivesse que passar pelo constrangimento de ir me visitar no jardim do Juliano Moreira, porém anteontem, extasiado, voltei à carga: Taranta é um aprendiz de feiticeiro que deu no pé da Sorte e ela, piedosa com quem pouco merece, não faz o juízo perfeito do que ele oferece. Ou seja, é um cara que conseguiu pôr as mãos numa câmera e se diz cineasta. Logo entenderão.

Ele lançou um filme no primeiro semestre deste ano, Os Oito Odiados, mal tinha terminado a 1ª sessão e foi tachado de ser melhor western no início do século. Wellll!!! O cinema é a sétima arte, não a sétima camada da egolatria. Os Oito tem diálogo suficiente para uns três longas e, com alguns bons cortes, como todo filme de Taranta parece carecer, todo mundo fala demais (sem contar sua sombra a fazer beira por todo o filme como um urubu a rondar a carcaça). O pior é que todo boquirroto tem sacadas espertas, boas tiradas… fazer cinema com loquacidade e falácia já não funciona faz tempo.

Eis que, Sete Homens e Um Destino, remake de um remake, fez com o filme de Taranta o que seria desnecessário se a crítica fizesse seu trabalho. Western se faz com sangue, bala e violência sim, mas até nisso vai o rigor da posologia – e não pode ser ultrapassada. Antoine Fuqua sabia disso e na sua versão não excedeu seu limite. Inspirado n’Os Sete Samurais (1954) de Kurosawa, o 1ª remake de John Sturges, nos anos 60, foi um sucesso, o que torna a versão anos 2000, tiro certeiro. Com algumas mínimas intervenções, sem sair do trilho, Fuqua não precisou de muito para pôr interrogação na cachola da crítica e no gosto do público: como se faz o verdadeiro western: com ou sem spaghetti? Com evisceração da tolerância do público ou com ego do autor elevado ao extremo? A meu ver o cinema é maior que estas questões, e deve continuar a ser.

O filme. Sou suspeito para falar de filmes com Denzel Washington no elenco. Meu ídolo desde sempre. Se um dia capotar e fizer algum abaixo da média, não merecerá menos que nota 10 no meu conceito. Suas interpretações viscerais, nem mais, nem menos, ao chegar a hora do clímax o espectador já faz parte do que assiste. Um monstro em cena. E com um elenco bem escolhido então, a receita está garantida (assistam o filme e vejam as atuações se erro por muito nestas linhas, me arrisco a devolver a batuta paga pela sessão). Alguns personagens – como o Mexicano, Manuel Garcia-Rulfo, e o próprio vilão Peter Sarsgaard –poderiam ser mais explorados, mas parece que isso fica a cargo de nosso próprio julgamento, aquilo é divertimento programado e não pode se estender à lucubrações filosóficas e viagens etéreas. Tem a historinha (cidadezinha cheia de gente inocente sofrendo nas mãos de tirano), motivo para as balas (um monte de bandido) e pronto: chumbo pra todo lado.

Fuqua não fez o melhor western do início de século, mesmo se fizesse originalmente, porém a homenagem é boa, é válida e quem gosta do gênero vai sentir o espirito seco que reinou nos anos 50, 60 e até meados dos 70. Assistam o filme.

Ah! Quase esqueci! Satanás não dá sossego: entra em cartaz, daqui a alguns dias, o filme da Kéfera… quais serão os Sete a nos salvar? Nenhum. Eles sabem que deste lado do atlântico não tem bala que resolva o furdunço.