Resenha: “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”


“Sonho não é, morte não é;
Quem parece morrer, vive.
A casa aonde nasceste,
Os amigos de tua primavera,
Idoso e donzela,
O trabalho diário e sua recompensa,
Refugiando- se em fábulas,
Não se lhes pode amarrar.”
(de Ralph Waldo Emerson, poeta americano falecido em 1882- poema que antecede o prólogo)

Uma boa safra de livros juvenis: “Harry Potter e o legado maldito” (J.K. Howling, 2016), ” O chamado do monstro” (Patrick Ness, 2011) e “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” (Ransom Riggs, 2015), todos terão suas respectivas resenhas aqui. “Juvenis”, porque apropriados para jovens, mas não excluem o leitor adulto, já que são histórias interessantes, cheias de magia, divertidas e sempre deixam alguma lição, como as fábulas. Fazem bem, independente da idade.

Pela primeira vez um filme americano estreia primeiro no Brasil (29), que no resto do mundo (30), inclusive nos Estados Unidos. Leia a resenha, pois assim você poderá comparar com o filme.

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares

O autor americano Ransom Riggs (Maryland, 1979), diretor e roteirista de cinema, teve sorte com o seu primeiro livro. Ele ficou durante meses na lista dos mais vendidos do The New York Times e a obra virou filme de Tim Burton. Para quem não sabe, Burton criou filmes como “Edward Mãos de Tesoura”, “Batman”, “A fantástica fábrica de chocolate”, entre outros, com atmosferas mágicas, ambientes góticos, histórias fantásticas. Um cineasta muito original.

13690698_1032073643512876_6866837346118914049_nRansom Riggs.  Facebook do autor.

Vamos ao livro.

No prólogo, Jacob, o narrador- personagem, fala da infância com a presença essencial do seu avô, Abraham Portman, que lhe contava histórias extraordinárias com monstros e crianças com poderes  excepcionais como a invisibilidade, a levitação, a força descomunal ou um menino que tinha duas bocas. Elas eram enviadas a um orfanato muito especial em Gales, justamente por serem peculiares, lá não adoeciam e nem morriam. Jacob não acreditava nas histórias, mesmo o seu avô mostrando fotos dessas crianças peculiares (as fotos estão no livro). E o seu pai, que ouviu as mesmas histórias, tampouco. Ele explicou a Jacob, que o avô teve uma infância muito difícil na Polônia, que foi enviado pelos seus pais a um orfanato para fugir da guerra. Eram judeus. Sua família toda morreu, só Abraham sobreviveu, então inventou essas histórias extraordinárias para evadir da dor, da realidade. Essa foi a teoria racional que o pai de Jacob encontrou para justificar as histórias de Abraham.

No primeiro capítulo, Jacob tem 16 anos e trabalha como repositor em uma farmácia chamada Smart Aid, na cidadezinha de Englewood, “pequena e aborrecida”, na costa da Flórida. Ele odeia o seu trabalho, faz de tudo para ser despedido, mas isso não acontece, porque os proprietários são os seus tios. É tradição familiar trabalhar na farmácia.

O livro é cheio de fotos, o que dá um ar mais veraz à história. Abaixo (p.24), o avô Portman tirando uma soneca com a sua arma. Ele tem um verdadeiro arsenal, pois tem que se proteger dos monstros caso apareçam. Agora idoso, as armas ficam trancadas devido à sua demência senil. Ele telefona desesperado ao neto pedindo a chave. Depois de tantos anos, os monstros o encontraram.

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O pai de Jacob, Jake, ornitólogo amador, trabalha meio período como voluntário cuidando de aves, casou-se com uma mulher cuja família é dona de centenas de drogarias. A foto é de Robert Jackson, não sei se é o mesmo fotógrafo que ganhou o Pulitzer por suas incríveis fotos históricas. A maioria das fotos do livro são dele e de David Bass. Há um aviso que todas as fotos são autênticas e não sofreram alterações.

Jacob vai até a casa do avô. Ela está toda revirada e Abraham desaparecido. Foi atrás do avô e o encontrou deitado  e ensanguentado no bosque, todo retorcido como se tivesse sido atirado de uma grande altura. O avô muito fraquinho, lhe dizia: “Vá à ilha, Jacob. Aqui não é seguro”. E o rapaz achou mais uma vez que era paranoia do avô. O idoso deixou as pistas: “Encontra o pássaro. No navio. No outro lado da tumba do velho. Três de setembro de 1940” (p. 35).  Jacob e  Ricky, o amigo que lhe acompanhava, viram o avô morrer. Jacob viu algo mais, um monstro no bosque. Seu amigo não viu e não acreditou nele.

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Esse foi o monstro que atacou Abraham e que Jacob viu no bosque (p.40, desenho do autor)

É uma fórmula bem batida, que dá a sensação que já vimos/lemos mil vezes, não é? Mas não podemos esquecer que é literatura para crianças/jovens, pra eles é novidade.

Jacob começou a ter pesadelos depois da morte do avô e decidiu não sair mais de casa. Sentia- se culpado por não ter acreditado em Abraham.

O rapaz começou a fazer um tratamento psiquiátrico com dr. Golan. Claro, quem vê monstros é louco, não? Pois…decidiu mentir e dizer que parou de ver monstros em seus pesadelos.

Os pais de Jacob decidiram vender a casa do avô. Jacob foi até lá e viu as fotos que o avô sempre o mostrava quando ele era criança, veja duas delas:

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Bebê levitando (p.53). Foto de Peter Cohen. Claro que a mão do pai está atrás do bebê. Será que essa foto causou reboliço no passado?

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Cachorro com cara de menino (p.54). Foto de Robert Jackson. Montagem e bem grosseria, não?  

Jacob descobre a relação do avô com o poeta Ralph Waldo (poema de introdução) através do dr. Golan. E no dia do seu aniversário, Jacob recebeu um livro com uma enigmática dedicatória do seu avô:

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E descobre “esses mundos”. Junto com o livro havia uma carta manuscrita da Senhorita Peregrine a Abe (Abraham) enviada da ilha das crianças peculiares. Claro que Jacob vai dar um jeito de descobrir tudo.

Acho que não preciso contar muito mais. O motivo de Abraham ter saído da ilha, já que era segura, além de proporcionar a imortalidade e a juventude eterna ao estilo Peter Pan, só lendo ou vendo o filme.

Veja o trailer do filme (legendado em português). Os atores são fantásticos, o Jacob é interpretado por Asa Butterfield, o menino inglês que fez “A invenção de Hugo”, a francesa Eva Green faz a Senhorita Alma Lefay Peregrine e o americano Samuel L. Jackson faz o vilão Barron:

Essa é a edição espanhola que eu li da Planeta  com a capa do filme de Tim Burton. Então, que tal ler o mesmo livro que o gênio do cinema leu para produzir sua obra?

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Riggs, Ransom. El hogar de Miss Peregrine para niños peculiares. Cross Books, Editorial Planeta, España, 2016. Páginas: 415

Aproveite o fim de semana!

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