Os Contos Mais Violentos da Literatura Contemporânea Brasileira…


Por Gerson de Almeida*

Os Contos Mais Violentos da Literatura Contemporânea Brasileira (Parte I)

Ou: Contos, 21 cents Cada

Por razões que, por mais que pareçam óbvias e domináveis, estão além da minha esforçada depreensão, não pude aproveitar a Feira do Livro de Jaraguá deste ano como queria. Queria ter acompanhado os bate-papos com os escritores, ter vasculhado estande a estande, passear mais. Não pude. Infelizmente a vida não pode ser vivida como se quer, mas ainda assim, pude dar uma conferida nos últimos dias (com precisão, fui no penúltimo dia: 21/08), ou seja, cheguei na raspa do tacho. Como disse Paulo Ricardo, no fim da festa o que resta é encontrar alguém legal pra ficar… Não tinha ninguém na raspa do tacho. Encontrei poucas opções de livros, e para não sair sozinho…

Eis que no estande Tudo 10 (cada livro 10,00) encontro: Contos Cruéis – As Narrativas Mais Violentas da Literatura Brasileira Contemporânea (Geração editorial; 421 págs. 2106), o título assusta, sobretudo porque não sou sujeito dado a extremos e, apesar de não ser alheio ao tema do livro, estou mais para Gandhi que para Alexandre, O Grande. Fiquei com um exemplar na mão até decidir o que levar. Depois de garimpar, fiz o cálculo: o livro tem 47 contos, então 10,00 ÷ 47 = 0,21 e mais trocentos algarismos, o que no final não chega a ser 22 cents por cada conto. Comprei. Agora o que encontrei dentro.

Bem sei que antologias são rematadas picaretagens, tanto pelas que li como pelas que encontrei em sebos e livrarias da vida. Algumas revelam algum lampejo, outras fazem esforços sobreliterários para laurear autores que não conquistam nem os leitores da sala de casa: os familiares. Outras funcionam como caça-níqueis e o fundo arrecadado patrocina sarais, festinhas e passeios a um seleto grupo que não pode ser publicado em meio à manada, enquanto o autor iniciante, que acreditou na validade do projeto, está entrevado numa estante da livraria e dali a algum sebo – se tiver sorte. Não é o caso da antologia em questão, todos já são, pelo menos a maioria, figurinhas conhecidas do pérfido universo das letras brasilis.

O livro foi organizado por Rinaldo Fernandes, escritor, doutor em Letras pela UNICAMP e professor de literatura na Universidade Federal da Paraíba, portanto gabaritado à empreitada. O recheio é cheio de pesos pesados: Caio Fernando Abreu, Lygia Fagundes Telles, Rubem Fonseca, Nélida Piñon, Moacyr Scliar, Roberto Drummond, Ignácio de Loyola Brandão, Domingos Pellegrini… E mais uma pá de condimentos e escritores no cozimento da feijoada letrada. Como o tema não me interessa muito, não tenho pressa em ler e adotei método que, no final, vai sair mais barato que cada conto, caso chegue à última página desgostoso com o esperdício de tempo: abro, leio o conto, faço comentários, marco no índice; abro de novo, leio outro conto… A mesma coisa. Como os textos sem nenhuma conexão, além da temática intrínseca, significa que não preciso ler a rigor, estou a la vantê, como o diabo permite, se preferirem. Leituras segundo ordem que sigo:

O Vingador e o Inocente (pág. 29), de Aleilton Fonseca. O cara tomou um pileque com Guimarães Rosa, mas na hora de escrever estava meio a meio, resultado: excelente conto. Num acerto de contas não é sempre a rapidez no saque da arma a salvação da lavoura. Esse não foi o fato que me chamou mais a atenção: o sujeito é baiano! Numa terra onde tudo que se escreve, desde o despacho da mãe de santo à receita médica na UPA, emula e copia Jorge Amado, é felicíssima surpresa ler alguém que quebra o cabresto infeliz. No conto não há a brejeirice que famigerou a Bahia, nenhuma gracinha do “bom baiano”, pois o autor sabe: não há bons baianos na hora do aperto. Valeu bem mais que os 21 cents.

Capitu Sou Eu (pág. 127), de Dalton Trevisan. Aff… Já disse (quase) tudo que tinha a dizer sobre esse cara em textos que estão aqui no blog. Nem Freud consegue explicar o que seu texto tem de violento, Rinaldo Fernandes muito menos. Trevisan é obcecado pelo mito da traição de Capitu, gastou mais da metade de sua falsa reclusão a fazer conjunturas sobre o fato. Porém, não é disso que o conto fala? É. Não é. Quer dizer: é… Mas qual jovem, entre 16 e 18 anos (ou velho de qualquer idade) que se refere à bunda como: dunas calipígias movediças (fora o uso de gírias gratuitas e com significado deslocado)? Nem o sibarita que serviu de guia a Baco. Procurei a violência, a crueldade do conto; nem na linguagem, nem a exploração nos sentimentos dos personagens… Ninguém sabe onde se escondeu. Encontrei joelhos ralados e não sei se do aluno ou da professora em atos sexuais de pornografia dos anos 40 – se isso era pra ser cruel, violento, errou o tiro por muito. O pernilongo azucrinando o sono numa noite quente de verão é muito mais violento. Provocar repulsa nada tem a ver com violência. Mais e mais noto que o cara é uma farsa e são farsantes os que o assistem. Nada me deve, deixo os 21 cents para a gorjeta que o pão duro nunca dá à garçonete na Schaffer.

A Moça do Sobrado (pág. 135), de Domingos Pellegrini. O fino trato com a linguagem, nada de excessos, nenhuma falta, que conto! Engana ao aparentar ser apenas crônica da safadeza de arraial. Confesso que achei que o fechamento me surpreenderia, dado a dança imposta pelos personagens, porém não havia como terminar de outro jeito, justamente pela dança e pela música que suas almas exigiram tocar. Cumpriu o trato, pena que só paguei 21 cents por tão prazerosa leitura.

Disneynferno ou Despojos de Nossa Guerra Particular Contra o Tempo (pág. 191), de Joca Reiners Terron. Quando eu escrevi o primeiro (e último) soneto mostrei, pensando no Nobel de Literatura, a minha mãe. Escutei: você entende o que escreve? Nunca mais escrevi um quarteto. Alguém deveria ter perguntado isso a Joca Terron. O editor, talvez o organizador da antologia fosse de bom alvitre, já que a escolha do texto ficou por conta de cada autor. Que porra é essa?! Li duas vezes, a terceira, isso mesmo!, a terceira leitura foi pior. Acabou meu estoque de Enxak. Trocando em miúdos: me deve 21 cents e duas cartelas de Enxak.

A Paixão de Cristo (pág. 219), de José Nêumanne Pinto. Mais interessante que os comentários do jornalista na bancada do Roda Viva ou TV Gazeta, apesar de não ter nem pé nem cabeça, diabo de nada. Cristo sofre mais na língua daqueles a quem salvou do que sofreu nas mãos dos carrascos, ao ler uma porcaria dessas não tem como não pensar nisso, como cantou Belchior “a leitura (vida) é muito pior”. Vou ler toda a Bíblia para diminuir meu fardo. Ah, apesar de curtinho, o conto de Nêumanne não paga a impressão e vale muito menos que ¼ dos meus 21 cents.

Trincheira (pág. 235), de Marçal Aquino. Conto curto, período conciso, mas sem abusar da paciência do leitor ou da própria, enquanto trabalhador relacionado às ferramentas do seu ofício. Diz mais no que não diz do que no que escreveu (deu pra sacar?!); jogo psicológico de primeira linha. Parece deixar tudo às claras, mas joga com possiblidades o tempo todo, conhece o traçado como ninguém. Valeu mais que os 21 cents.

Esquece (pág. 239), de Marcelino Freire. Sabe o que é leitmotiv? Não? Também não, mas foi o que Marcelino fez nesse conto: montou num jegue! Por que não volta pra Sertânia? O conto é tão batido quanto a piada do cavalo branco de Napoleão. Me deve 21 cents, mas pode inteirar a passagem para Sertânia ou jogo de ferraduras para o jegue.

Primeiro dia de Aula (pág. 251), de Márcia Denser. Já tinha escutado muito falar dela, mas nada tinha lido. Poderia continuar sem ler. O conto não é ruim, não é isso, é bem escrito, sua linguagem, humor e desenvolvimento não são enfadonhos, porém é como pardal no chafariz da praça: solte um novo no meio, e não saberá qual é o seu; mais do mesmo, nem sal nem açúcar, diabete literária e similares. Pode ficar com os 21 cents e comprar Bigbig.

Lógica da Pequena Crueldade (pág. 267), de Mário Chamie. Esse é o fundador do Movimento da Poesia Práxis. O que sei da poesia Práxis é o mesmo que sei da Concreta: duas merdas que ferraram o ensino acadêmico. E quanto ao conto de Chamie? Era bom – xerox, jeitinho brasileiro, esperteza x honestidade, blábláblá, aff… Quem desconhece? –, tão bom que marquei no índice e nada rabisquei na página do texto, desconfio que nem li ou li e nem desconfio. Lido ou não, quero meus 21 cents de volta!

Feliz Ano Novo (pág. 377), de Rubem Fonseca. Minha ignorância não respeita limites, isto justifica o fato d’eu não conhecer a obra de Fonseca. De cara, e sem ter lido todos os textos do livro, é o Melhor. Enfim a simbiose clínica entre crueldade, desnível social, humor, uísque, sangue e balas numa balada só. A linguagem atualíssima, o ritmo constante, diálogos rascantes, todos os elementos bem dosados; verdadeiro primor. Ouro em meio ao lixão.

Em breve mais dez pitacos.

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Fernandes, Rinaldo de (org.), Contos Cruéis – As Narrativas Mais Violentas da Literatura Brasileira Contemporânea, Geração Editorial, 2016- 421 páginas.

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