O Vampiro: Não é Fácil ser uma Farsa


Ele voltou! O nosso querido colaborador Gerson de Almeida, com sua caneta afiada, leu Chá das Cinco com o Vampiro, de Miguel Sanches Neto e deu pano pra manga! Leia:*


O Vampiro: Não é Fácil ser uma Farsa

Se eu fosse Dalton Trevisan (Colombo, 1925) teria mesmo amaldiçoado Sanches Neto, aliás, teria tentado homicídio. Verdade seja dita, Miguel Sanches Neto (Bela Vista do Paraíso, 1965) fez o que todo meio literário sabia, sabe, e não faz, dizer em alto e boníssimo som: este piá, pançudo e abestalhado, é uma farsa! E todos sabem que não é fácil ser uma farsa.

Quem é o maior contista de todos os tempos? Tchekhov. Alguém discorda? Não? Assim, sim. No instante em que um editor tantã enviou um conto de Trevisan ao prelo, fez mais contra a literatura, estritamente ao culto do conto, do que tudo que a obra completa de Tchekhov fez a favor. Sigam-me os maus!

O motivo pelo qual Dalton Trevisan virou escritor pode passar despercebido, caso o leitor não preste muita atenção a um diálogo entre Valter Marcondes (Wilson Martins [1921 – 2010]) e Beto Nunes (Miguel Sanches Neto), onde aquele diz a este: (…) “saí para almoçar com Geraldo (Dalton Trevisan). Estava abatido. Tinham fechado a indústria, onde trabalhou desde a juventude. Havia um estoque imenso de vidros de compota, pois eles continuavam fabricando as embalagens antigas quando ninguém mais fazia compotas em casa, comprava-se agora tudo enlatado nos mercados (pág. 32)”, ao que o interlocutor responde com a pergunta: “será que vai acontecer o mesmo com os contos dele?”. Ou seja: a incompetência na gestão, e a falta do olhar além dos limites da província curitibana, fez o negócio da família capotar e empurrou o mau gestor à literatura e o mesmo olhar retrógrado – quem puxa aos seus não degenera – o tirou dela. Este senhor escorregou por engano para a História da literatura e ninguém consegue retirá-lo desde o dia em caiu nas (des)graças do leitor.

Chá das Cinco com o Vampiro (Objetiva. 288 págs.) é o livro no qual Miguel Sanches Neto faz a depuração de sua literatura, se liberta da palhaçada de escrever sob o jugo do Vampiro e faz a catarse de sua emancipação literária na Curitiba dominada por um decrépito, asqueroso e peçonhento. De longe minhas palavras podem soar pesadas, mas, com a leitura do livro, descobre-se que por mais que tenhamos um dicionário na cachola, nunca teremos adjetivos o suficiente para colar num réptil feito Trevisan.

O livro, antes de ser publicado pela Objetiva, foi dispensado pela editora que publica Trevisan desde os anos 70. O que prova a tal da questão abordada no texto: por que o Vampiro e sua literatura não podem ser contestados? A tal reclusão (Aqui uma rápida digressão: já devo ter comentado isso, mas retorno por respeito e por não fazer parte de manada ou seita. Segundo se nota no decorrer da leitura, Trevisan respeita muito a literatura de J. D. Salinger [1919 – 201]), respeita tanto que faz esforço sobre-humano para copiá-lo, mas há alguém que atente contra a obra do pai de Holden Caulfield? Quem quer que leia uma linha de Salinger, sabe que está a ler Salinger; quem lê um livro de Trevisan sabe que está lendo algo tão vago e denso como o arroto do pernilongo. E tem outra diferença mais que substancial: Salinger não publicava. Tinha suas paranoias, mas queria se enforcar quando era citado em algum artigo. Trevisan tem orgasmos quando citado.), tão famigerada, é uma mentira tão descabida quanto o altar onde puseram Trevisan e sua literatice.

Beto Nunes é um aspirante a escritor que acata a infeliz ideia da tia que o incentiva à literatura: torne-se amigo de Geraldo Trentini. Sai do interior à Curitiba para estudar jornalismo e consegue se tornar crítico literário com certo espaço no meio. O enredo é conhecido, mas o alvo do autor estava definido há tempos.

Geraldo Trentini (Trevisan do tênis surrado ao boné horroroso, vide a sílaba tônica de Geraldo e o número de vogais em Trentini, o ataque tem DNA definido) é um contista (falso) recluso que amaldiçoa quem quer saber de suas intimidades e não consegue esconder o fascínio que tem pela alheia – a dos amigos, sobretudo. Para se ter ideia, um amigo comete suicídio e ele move céus e terra para ter informações (exige que alguém colete as informações, e ai de quem não se dedicar à missão), procura de médicos, juízes e delegados a vizinhos do suicida: como aconteceu, por que, onde, o que a família diz e quais dificuldades enfrentavam e o que o suicida disse no bilhete de adeus. Tem dinheiro para viver em qualquer capital do mundo, mas vive numa casa caindo aos pedaços, mal iluminada e com móveis dos anos 50; na garagem, também caindo aos pedaços, tem um fusca anos 60 que só sai depois de uma longa visita do mecânico. Era péssimo marido de uma esposa que sempre o tratou como rei, dizem os próprios do seu círculo infeliz; só se referia a ela em termos pejorativos (tão pejorativos que Sanches Neto não incluiu nenhum no livro), e nunca a apresentou a ninguém, muito menos a levou num chá das cinco ou restaurante veganovampiresco; pai de duas filhas, mas só se dedicou ao amor de uma, Isabel, ou de nenhuma, pois a única com quem mantinha relação aparentemente fraternal morreu – ela está representada como Isa no livro, e dizem que era excelente letrista. Este é o maior contista da literatura brasileira? Cortem a língua infame que disseminou tal disparate e depois costure toda boca que repetir a blasfêmia.

O Vamp, que não sai à noite, tem hábitos simples e repete-os à exaustão. Tem mais sede de chocolate que de sangue. Ao ver uma jovenzinha começa a babar, fica histriônico em busca do rejuvenescimento e o que se assiste é uma comédia deprimente, mas o único que não percebe é o ator principal. E, para quem não afia o dente à publicidade, o Vamp está sempre babante por elogios. Visita sempre a mesma confeitaria, Schaffer, que serve coalhada azeda e malcheirosa, segundo Beto Nunes, e restaurantes vegetarianos; faz caminhadas com olhar fixo no chão, há quem diga que procura seus contos; não usa carteira para dinheiro ou cartões; não usa sacola, mochila, pasta, capanga ou aquelas sacolas hippongas horrorosas, sua “bolsa” é um botão do casaco aberto e ali vão o boné e os contos a serem impressos em seus folhetos espalhados pelas ruas do Centro como a fedentina da urina em seus cantos; frequenta a livraria Chain, através da qual faz contato com sua editora e, talvez, o mundo literário fora do seu umbigo; ninguém pode citá-lo, todos estão permanentemente jurados de maldição caso seu nome seja citado sem sua permissão; porém, o contrário, não requer a menor satisfação, ou mesmo pedido de desculpas por fazer da intimidade alheia matéria de seus “contos liliputianos”, como seus textos são comentados nos círculos onde o mito se sustenta mais por piedade que por mérito.

E o mesmo sujeito que inspira asco rubro, pode ser demasiado ingênuo, até patético. Trentini/Trevisan sofre com artrite, tem os dedos deformados – e quem tratou, ao que parece pela última vez, foi Pedro Nava, morto em 1984 –, mas não desiste da máquina “de fita”, aquele modelo pré-histórico que exigia uma fita para datilografar. Descobre o corretivo e a fotocopia, o que lhe dá algum paliativo. Beto lhe indica usar a máquina elétrica ou o computador. Ao mostrar as façanhas de que é capaz o notebook, escuta do velho escriba: “cabe aí um livro de 250 páginas?”, responde, “cabe a Enciclopédia Britânica e ainda sobra espaço.”… Nessas e em muitas coisas ainda menores, Trevisan é de um provincianismo acachapante. Neste ponto o texto já levanta uma questão: estaria escrevendo contos tão pequenos porque as dores nos dedos não permitem ir mais longe? Não levo fé naquela conversa fiada de que, como Flaubert, vive à procura da palavra perfeita: isso não existe.

Outro ponto: todo o fétido círculo literário, exposto no livro, comenta os tamanhos dos contos de Trentini. Porém, este mesmo círculo contribui à palhaçada. Vários deles, para não dizer todos, saem colhendo histórias para o vampiro. Como chegam com histórias pela metade, algum caso escutado aqui ou ali, acabam sendo coautores destes textículos recalcitrantes. Isso deve explicar os (des)aforismos, citações, poemas-piadas e piadas sem graça – pois a graça da piada consiste no riso de quem a escuta/lê – e as centenas dos contos de três/quatro linhas que não pagam a impressão.

O livro não oferece a menor dificuldade à leitura, que é simples, rápida e muito boa. Sanches Neto não faz altos voos em linguagens, estilos e essa viadagem. Fulcra seu verbo em terreno seguro e pronto. A estrutura oscila em flashes entre a vida de Beto Nunes em Peabiru, sua relação com os pais e a tia, e o desenvolvimento de sua formação na capital paranaense. Trentini é o eixo da narrativa quando seu foco centra-se em Curitiba, deste modo fica mais que evidente o acerto de contas entre Sanches Neto e Trevisan. E o bom é não saber quem sai vencedor do embate. Adoro Curitiba e muito me agradou o roteiro de sebos e livrarias. O rato de sebo é muitíssimo bem servido ali. Reconheci lugares que frequentei – ruas, praças e parques – pelo menos não senti a cidade indisposta ao visitante como Beto Nunes tenta mostrar.

O negócio é a porra da vaidade. Nenhum ser humano está imune, nenhum. E o meio literário, como o livro escalpela, é o ambiente mais afetado e fétido que existe. E não só em Curitiba é, ou foi, assim, no resto do mundo deve ser também. Chega a estarrecer o modo como se referem uns aos outros, como se tratam e se ferram. Todos nós queremos ser amados e aceitos, e ao menor sinal de rejeição convocamos os Aliados: começou a III Guerra. É assim comigo, com você, com seu pai e sua tia, com o sem-vergonha do seu primo também. Lidar com nossas virtudes é fichinha, foda é acordar todo dia e saber que temos defeitos, tantos quanto aqueles que julgamos mais ardilosos nos outros. O livro de Sanches Neto é a prova cabal do fundo do poço onde está a alma que o escritor finge ter e a máscara que ele usa para esconder seu focinho de porco; e Trevisan, mais do que qualquer um, sabe: não é fácil ser uma farsa.


22056486Neto, Miguel Sanches. Chá das Cinco com o Vampiro, Objetiva, Brasil, 2010.  232 páginas

*Os colaboradores do Falando em Literatura têm total liberdade para expressar suas opiniões sobre obras e autores, o que não vem a ser necessariamente a minha opinião. Fernanda Sampaio

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