Dica de livro: “A festa da insignificância”, de Milan Kundera


Milan Kundera é tcheco e tem 87 anos. Muito famoso pela obra “A insustentável leveza do ser” (1983, leia a minha opinião sobre o livro em 2010). O autor não é só romancista, já experimentou vários gêneros literários:  a poesia, ensaio, teatro e contos. Ele mora em Paris desde a década de 70, exilou- se na França por causa de política, possui a cidadania francesa. Paris é o cenário do seu último romance publicado em 2014, depois de muitos anos de silêncio.

São histórias paralelas de fatos aparentemente “insignificantes” para a humanidade, mas de suma importância para o indivíduo, afinal é a composição do seu mundo interior, a alma, o pensamento, a dor, prazer, tristeza e a alegria.

Um livro que começa cinematográfico, dá pra imaginar facilmente a cena: Alain passeia em um dia de verão pelas ruas de Paris e observa as moças usando blusas que deixam o umbigo de fora. Reflete sobre o erotismo que pode provocar partes do corpo feminino, mas não consegue encontrar uma saída para o umbigo. Parece que o sexo é um tema recorrente na obra do autor, em “A insustentável leveza do ser”, ele também aborda o assunto.

Ao mesmo tempo que Alain, Ramón passeia pelo Jardim de Luxemburgo, onde acontece uma exposição de Chagall. Tanta gente, que decide dar meia- volta. Nota- se claramente o seu problema com o gênero humano, a impressão é de um sujeito misantropo.

Enquanto Ramón desiste da exposição lotada, D’Ardelo entra em uma desagradável consulta médica: teria ou não câncer?

A obra tem um ritmo rápido e divertido. São capítulos muito curtinhos e pode- se dizer que esse livro é um resumo de toda a sua obra. Cada personagem, dizem, possui algum elemento de obras anteriores, como “A lentidão”e “A imortalidade”, por exemplo.

Incorporam- se na história: Charles e Calibán. Todos são amigos.

No meu vocabulário de descrente, uma só palavra é sagrada: a amizade. (p. 32)

O mais velho é Charles, que reflete sobre o tempo e a memória, uma verdade incontestável (livre tradução):

– O tempo corre. Graças a ele, primeiro vivemos, o que quer dizer que já fomos acusados e julgados pelas pessoas. Depois morremos e permanecemos ainda alguns anos entre os que nos conheceram, mas logo se produz outra mudança: os mortos passam a ser mortos velhos, dos que ninguém se lembra e desaparecem no nada; tão só alguns quantos, muito, muito poucos, imprimem seu nome na memória do povo, mas sem testemunhas confiáveis, sem uma só recordação real, passam a ser marionetes… (p.33-34)

Embora tenha alguns momentos assim profundos e emotivos como o descrito acima, em geral, a obra desprende bom humor, além de ser imprevisível e surpreendente.

Apesar de Milan Kundera morar há mais de 40 anos em Paris, sua literatura não nega as suas origens. Personagens e histórias da velha União Soviética são citados constantemente. Ser imigrante é assim: saímos do nosso país, mas ele jamais sai de nós.

Como vocês não lêem textos muito grandes, não vou contar muito mais. Leia, esse é um bom livro!

Para os novos leitores que estão chegando e ainda não sabem, eu moro na Espanha, por isso leio quase sempre edições espanholas como da foto abaixo.  Mas, você pode encontrar esse livro no Brasil  (em promoção) e em Portugal (com 10% de desconto).

O desenho da capa foi feito pelo próprio Kundera:

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Kundera, Milan. La fiesta de la insignificancia. Editora Tusquets, 2014. 138 páginas (se quiser esta edição, clique aqui, 14,90 euros).

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