Resenha: “Orlando”, de Virgínia Woolf


Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. (P.105)

Leram o trecho acima? Virginia Woolf, em 1928, entendeu o problema de gênero melhor que muitos entendem agora. Vamos entrar no mundo Virgínia Woolf comigo?! Vem!

A inglesa Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, Londres, 25/01/ 1882– Lewes, 28/03/ 1941) foi uma escritora clássica do romance moderno, cultuada e reverenciada nos quatro cantos do mundo.

Virginia teve um romance, durante anos, com Vita Sackville- West, poetisa inglesa, enquanto estava casada com Leonard Woolf, funcionário público e também escritor. Virginia escreveu um diário contando as suas experiências. Que será que o marido pensava disso? Era consciente, consentia ou ignorava a situação? Essa parte fica pra outra ocasião.

Infelizmente, a autora cometeu suicídio jogando- se no Rio Ouse, em Sussex, perto de sua casa, aos 59 anos. Ela sofria, tudo indica, de um transtorno bipolar; uma depressão a fez tomar a fatal decisão. Esses transtornos psicológicos a acompanhavam desde os 13 anos. A escritora deixou uma carta de despedida ao marido, disse não mais suportar as crises, ouvia vozes, temia a loucura, leia.

Sua obra prolixa é composta de ficção e não- ficção.

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Virgínia Woolf em 1902, aos 20 anos. A mesma foto da capa da edição que li.

1427054086_112243_1427054854_noticia_normalVirginia em 1931.

VitaSackvilleWestVirginiaWoolf1933Virginia Woolf e Vita Sackville-West na “Monk’s House”, a casa da autora, em 1932.

woolfO casal Woolf

“Orlando” começa com um prólogo da autora com agradecimentos a vivos e mortos, escritores, amigos e familiares. O título do livro é o nome “do” protagonista da história. As aspas em “do” serão explicadas depois. Presta atenção.

A obra de Virgínia Woolf caracteriza- se pelos monólogos interiores, o latente fluxo de consciência dos personagens,  no entanto, “Orlando” não tem especialmente essa característica, é a exceção.

Sua relação homossexual com Vita Sackville-West foi refletida, dizem, em “Orlando”. Vita, nos anos 20 e 30, era mais conhecida e respeitada que Virginia Woolf. Segundo o seu filho, “Orlando” “é uma longa e encantadora carta de amor”. Mas isso eu soube depois da leitura, eu nunca pesquiso antes de ler um livro para não ser influenciada, para não direcionar a leitura, mesmo porquê, temos que nos focar no texto. A vida dos autores é questão secundária, curiosidade histórica, podemos tecer pontes entre o autor e obra, mas o principal  tem que ser o texto mesmo. Mas, nesse caso, o livro ganha um sentido especial conhecendo esses dados.

Eu não sabia absolutamente nada da história, o que iria encontrar era uma incógnita.  O título e a capa não dão nenhuma pista.  Levei um susto, fiquei chocada com a primeira página: um rapazinho brinca com a cabeça cortada de um mouro, vítima do seu pai ou avô.  Pensei que a história acontecia na Idade Média (período longo entre os séculos V e XV). Não, é um pouco depois. Orlando tem 16 anos no início da história, vive na época elisabetana, século XVI, era poeta, ou pelo menos, tentava ser. A história termina, cronologicamente, no século XX, precisamente no dia 11/10/1928. O livro é a biografia de Orlando, no final, com 36 anos. Impossível? É uma alegoria utilizada para demonstrar que uma pessoa pode viver séculos em pouco tempo.

Impressionou- me como a autora descreve os personagens com muita precisão, não só a aparência, mas as características expressivas dos personagens, genial! Ela desenha e dá vida aos personagens perfeitamente com analogias, dá para imaginá- los como em um filme e inseridos em seus cenários. É isso: literatura “fílmica” ou teatral. Não é à toa que muitas obras literárias são adaptadas para teatro e cinema. Essa obra teve uma adaptação para o cinema em 1992.

Veja só um trechinho da descrição do rosto de Orlando, praticamente um retrato- falado :

(…) O vermelho das suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre os dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (p. 8)

Orlando cresceu lindo e galanteador.  Conheceu uma rainha russa, apaixonaram- se, viveram um idílio breve no inverno inglês. A mulher foi embora sem prévio aviso. Orlando primeiro ficou desesperado, depois entrou em uma profunda melancolia e tristeza.

O narrador mantém um diálogo com o leitor, citando-o. Essa voz exerce de biógrafa de Orlando.  Veja se essa descrição não corresponde com o que sabemos de Virgínia e seu caráter, mas estes atribuídos a Orlando (p.41):

(…) Orlando era uma estranha mistura de muitos humores– melancolia, indolência, paixão, amor à solidão, sem falar em todas aquelas contorções e sutilezas de temperamento que foram indicadas na primeira página…”

Orlando gostava de livros desde criança, tinha hábito de ler até tarde da noite:

“Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura.”(p.42)

O personagem sofre dessa “doença”, como chama o narrador. Ele lê seis horas diárias “noite adentro”. O criados da casa dizem que devia abandonar os livros, pois são para “paralíticos e moribundos”. Especialmente nesse contexto histórico, os escritores eram considerados cidadãos de segunda classe, operários, algo para castas inferiores. Portanto, para a família abastada e nobre de Orlando, esse ofício era um desgosto.

O escritor de cabeceira de Orlando é Thomas Browne, inglês que viveu no século XVII. Esse autor realmente existiu e viveu muito para a época, chegou quase aos 80 anos (77), um verdadeiro milagre. Nasceu e morreu no mesmo dia, 19 de outubro.

Além de Browne, há várias citações de histórias mitológicas: “A morte de Ajax”, “O nascimento de Príamo”, “Ifigénia de Áulide”, “A morte de Hipólito”, “Meleagro” e a “A volta de Ulisses”. Orlando lê, escreve e guarda seus escritos em gavetas de madeira.

(…) Assim tinham sido escritas, antes dos seus vinte e cinco anos, umas quarenta e sete comédias, histórias, romances, poemas, uns em prosa, outros em verso, uns em francês, outros em italiano, todos românticos e todos longos.” (p. 43)

Orlando não esquece a amada que o deixou. Faz- se mil perguntas sobre o motivo e não encontra resposta. Foi aí que tentou substituir seu rosto por outro. Começou a escrever.

Conheceu um poeta (pobre), Nicholas Greene, que provoca em Orlando uma espécie de atração- repulsa. O admira e o repele ao mesmo tempo. Depois acaba rendido aos encantos e inteligência do poeta, hospedado em sua casa por uma semana. Orlando encantado com o homem no seu palácio; o poeta, ao contrário, completamente entediado. Ele preferiu retornar para o seu apartamento minúsculo e cheio de gente. Escreve um poema satirizando Orlando, deixando- o em ridículo perante toda a sociedade.

Orlando afasta- se das mulheres e dos poetas. Dá festas homéricas, suntuosas, para milhares de pessoas. Gastou metade da sua fortuna. Decide sair de Londres e vai para Constantinopla.

Acontece algo completamente insólito: Orlando, aos trinta anos, cai em um sono profundo, fica em estado de letargia durante uma semana. Ninguém o consegue acordar. Depois de sete dias, aparecem três santas, a Pureza, a Castidade e a Modéstia. É assim, com esse tom místico e fantástico, que Orlando transformou- se em mulher. Transgênero sem dor, sem espanto, sem cirurgia. Orlando não questiona nada, aceitou sem nenhum assombro o novo gênero.

Muda de vida, “a” Orlando agora, viaja com um grupo de ciganos, absorve a vida nômade, toma banho quando dá, dorme vendo estrelas. Mudou de vida completamente, nada de luxo, longe do conforto da sua casa com trezentos e sessenta e cinco quartos.

Mas, começa a ter umas diferenças com os ciganos, sente falta da vida de luxo, da sua família de mais de quatrocentos anos a qual recordava com muito orgulho. Depois envergonhou- se, os ciganos tinham uma história de mais de dois mil anos e não eram muito piores  que o povo “civilizado”.

(…) Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a nossa própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (…) Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer (…) (p.83)

Orlando acabou indo embora, cansou da vida nômade, sentia falta de tinta e papel, de escrever, sentia orgulho do seu passado que os ciganos desprezavam. Foi embora na hora certa, pois já estavam planejando cortar- lhe o pescoço. Vendeu seu colar de pérolas e comprou um enxoval de mulher. Voltou para Londres.

Essa é uma obra que fala muito sobre literatura. Há trechos interessantíssimos sobre o processo do fazer literário, as fases que passa o escritor. Só por isso já merece ser lida.

(…) O ofício do poeta, portanto, é portanto mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para outros é inatingível. (p.96)

A autora, creio, quis mostrar como seria se as pessoas mudassem de gênero. Um machista que virasse mulher, deixaria de sê- lo? As regras sociais começariam a mudar? Ela estava irritada porque não podia nadar com aquela saia enorme.

(…) devo, então, começar a respeitar a opinião do outro sexo, embora me pareça monstruosa? Se uso saias, se não posso nadar, se tenho que ser salva por um marinheiro, Deus meu!”‘ Gritou, ” que hei de fazer? (P.87)

Orlando descreve situações cotidianas que as mulheres são obrigadas a viver, todas de importância inferior, subjugadas e serviçais.

Ela conhece os dois lados, foi homem durante 30 anos. Sempre amou as mulheres e chega à conclusão que não precisa mudar isso por causa do seu corpo feminino. Ama uma mulher, Sacha, a rainha russa.

Engraçado é que quando ela chegou em casa depois de muito tempo fora e como mulher, nenhum criado duvidou que fosse Orlando e nem estranhou a sua nova condição.

Há tempos, antes de viajar para a Turquia, Orlando tinha conhecido uma mulher com estranhos modos, ele não tinha simpatizado muito com ela. Essa “mulher”, Harry na verdade, volta dizendo ser um homem e que havia vestido- se de mulher para conquistá- lo, pois estava apaixonado. Essa confusão de gêneros, creio, é para mandar o recado de que gente pode se apaixonar por quem for. Se não existissem regras, moralismo religioso, vergonhas próprias e alheias, convenções, amarras, tabus…como seria o amor, o verdadeiro? Dentro dessa parafernália toda de impedimentos, há gente que escolhe simplesmente amar. Mas podia ser sem tanto sofrimento, não é?

Se isto  é amor (…) há no amor alguma coisa profundamente ridícula. (p.99)

O arquiduque Harry fez- lhe uma declaração apaixonada de amor. Harry ama Orlando, seja homem ou mulher, mas não é correspondido.

Do amor ao que nos cobre. Sobre a influência das roupas, segundo a filosofia:

Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito que ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nós aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. (P.104)

Todos temos os dois gêneros dentro de nós, em maior ou menor grau. Não há mal algum assumir isso, há que estar aberto para aceitar o que não é convenção, para normalizar a situação das pessoas que têm uma aparência que não corresponde com o que sentem.

No Brasil e no mundo, o assunto dos transgêneros está nos meios de comunicação, porque gente famosa passou pelo processo físico de transformação. O famoso cartunista Laerte decidiu assumir publicamente o seu lado feminino aos 60 anos; o mesmo aconteceu com o padrasto das Kardashians, Bruce Jenner (agora Caitlyn Jenner); também a Tammy Miranda.

A cineasta brasileira Anna Muylaert ( tive o prazer de entrevistá- la em Madri) lançou um filme em fevereiro no Festival de Berlim: “Mãe só há uma”, em cartaz no Brasil agora. A história é baseada em fatos reais, aquele caso do menino Pedrinho que foi roubado na maternidade. No filme, Pierre (Felipe, na verdade) foi sequestrado por uma mulher que o criou como seu filho. Foi encontrado pela família biológica 17 anos depois. Felipe/ Pierre considera a mulher que foi presa a sua verdadeira mãe. Anna “brinca” com a coisa do gênero/sexualidade do personagem Pierre. Ele é bissexual, aparência andrógina, maquia- se, tem uma banda de rock, pinta as unhas. A liberdade de ser o que quiser ser. Uma pessoa pode ser muitas coisas. Orlando também brinca com a dualidade, por vezes usa roupas unissex.

Outro filme ou livro de David Ebershoff, que você pode conhecer mais sobre o assunto é o “Garota dinamarquesa”, que conta a história verídica de Lili Elbe, parece que foi o segundo caso no mundo de cirurgia de mudança de sexo.

A tolerância e o respeito são fundamentais. Se você não gosta, o problema está com você, não com o outro. Precisa educar- se para aceitar quem não é igual a você. A única coisa triste e feia é ver gente infeliz devido às velhas fórmulas tradicionais, desgastadas e que não servem para todos…

 Orlando, agora vestido de homem e comportando- se como tal, mesmo sabendo- se mulher, dá um passeio noturno e encontra Nell, que não se importa de descobrir que Orlando é também mulher. Orlando achava uma vantagem poder desfrutar dos dois gêneros:

(…) Parece que não tinha dificuldade em sustentar o duplo papel, pois mudava de sexo muito mais frequentemente do que podem imaginar os que só usarem uma espécie de roupas. E não pode haver nenhuma dúvida de que com esse artifício colhia uma dupla colheita, que os prazeres da vida aumentavam e sua experiência se multiplicava. (p. 123)

 Orlando pode ser interssexual. Sua aparência andrógina só pode ser diferenciada pelas roupas.

Atribui- se à Vita o personagem de Orlando.  Mas a questão dessa briga interior, quem sabe,  não serviria para Virginia também? Seria a gênese dos problemas psiquiátricos da autora? Ou não… quem sabe?

Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdia- a; o amor,  não o conheci; a vida –e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres (…) não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu em cima de mim. (Orlando caído no chão, no bosque, com o tornozelo quebrado, p. 139).

As dores da alma podem ser muito maiores e devastadoras que as físicas.

Mas, sossega…essa história tem um final feliz. “Nada muda”, mas num espaço de “três segundos e meio”, tudo pode mudar.

Uma das coisas mais interessantes desse livro é a questão do tempo/relatividade/intensidade. Tem gente que vive 200 anos, mas só tem 36 anos de idade, como Orlando. Há amores que duram pouco tempo cronológico, mas duram milênios pela intensidade que implicam; já outros, duram trinta anos, mas caberiam em um só dia.

Que vinha a ser, então, a vida? (p.159)

Vida? Literatura? Converter uma na outra? (p.160)

A verdadeira substância da vida, agora (…) é mágica. (p.169)


A edição que eu tenho é muito especial. É de 1978, traduzida pela poetisa Cecília Meireles: “a tradução que a Nova Fronteira agora reedita foi feita por Cecília Meireles. Trata- se não de uma tradução literal; palavra por palavra, do original. Trata- se como toda grande tradução, de um novo original. Quase como se Virginia Woolf fosse uma grande escritora brasileira.”

Curiosidade: esse livro foi encontrado em  um sebo em Barcelona. “Orlando”, em perfeito estado de conservação, parece nunca ter sido lido pela sua primeira dona, a Ana do Rio de Janeiro, em 1989, há 27 anos:

13615132_631078893714341_7022206275252763066_nQuem será Ana? Ana, cadê você?! Como o seu livro foi parar do outro lado do Atlântico?!

Resenhão, não é? Muito extenso. Ainda assim, creio que passaram detalhes e matizes que ainda vou ter que polir. Como disse a princípio, é a minha primeira incursão em Virgínia Woolf.

Obrigada pela paciência e por ter chegado até o final. Um livro intenso, que levanta muitas questões importantes, que fazem refletir sobre o tempo, a vida e a morte, o ser, a sexualidade e gênero, a sociedade, o amor e o fazer literário.

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Woolf, Virginia; Orlando, Coleção Grandes Romances. Nova Fronteira, 1978, Rio de Janeiro. 185 páginas

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