Joyce e os Extremos da Exploração dos Dados Biográficos


Por Gerson de Almeida

               Assistia a um documentário (não me lembro do nome, mas o Youtube pode informar melhor do que posso explicar minha preguiça de rever vídeo por vídeo) sobre James Joyce (1882 – 1941) e uma das entrevistadas, Brenda Maddox, foi apresentada como biógrafa de Nora Barnacle (1884 – 1951), esposa do escritor e famigerada inspiradora do monólogo de Molly em Ulisses, mais conhecido por sua obscenidade que por seu valor estético e sua falta de pontuação, que, aliás, cai bem como exercício de pontuar o impontuado. Na hora que li biógrafa de Nora Barnacle, pensei: a libertina de Galway tem biografia escrita? Preciso ler! Naquela tarde só descansei quando consegui encontrar e comprar a biografia num site que não vou citar o nome porque presta péssimo serviço e vocês, leitores maníacos, conhecem bem.

           Antes que imaginem que tenho fascínio pela aura lasciva da musa de Joyce, digo que estarão enganados se assim pensarem. Sou fascinado pelo que há nas entrelinhas daquela ligação entre os dois e que desafia biógrafos, estudiosos e curiosos como eu: o que Joyce, praticamente cego desde a juventude, pois só enxergava bem a caneca de cerveja e o fundo do bolso alheio, via que não é possível à vista de olhos distraídos?

        Nora, na biografia de Joyce escrita por Edna O’Brien (1930 –), é descrita como totalmente destituída de ambições literárias ou do mínimo interesse pela arte que viria a escancarar-lhe as portas sacras da Eternidade; quase ou como apenas uma obscena dada aos fetiches sexuais do escritor que não era flor que se cheirasse no quesito sacanagem. Era tão frequentador da Red Zone de Dublin que não conseguiu imaginar lugar mais interessante para o primeiro encontro com sua parceira de toda vida (primeiro encontro que ela deu-lhe o cano! E, ao que tudo indica, conhecia a Red Zone melhor do que o próprio que se julgava O grande sibarita de Dublin). Me neguei a aceitar o simplista retrato dado por O’Brien, da “mulher burra que conseguiu, não se sabe se por burrice ou qualquer outro ‘atributo’, encantar o futuro revolucionário das letras”, havia algo mais fundo no fundo daquele lago irlandês.

        Havia algo e não estava no fundo do lago, estava na superfície e protegia, não se sabe como, o amor desvelado de Joyce por sua musa. Ainda no texto de O’Brien, a paixão do escritor pela camareira Barnacle é creditada à “pouca inteligência” desta. A biógrafa dá a entender que o escritor preferia as “burrinhas” por serem mais “fáceis”, domináveis, maleáveis e eteceteras. Tredo engano. Nora podia não ter o nível intelectual de Joyce, mas quem tinha?, e não acompanhá-lo em suas ambições de tornar-se o maior escritor de seu tempo, mas sua sagacidade, língua suja e virtudes que não cabem nestas páginas, atrelavam Joyce a seu calcanhar. Richard Ellmann, autor da maior e melhor biografia do escritor, disse que aos 20 anos Joyce já tinha lido tudo e tinha no arcabouço toda ferramentaria que suas obras futuramente exigiriam, Nora era a peça que faltava para completar o quite.

         Folheando as páginas da história de formação do casal nômade mais aclamado da literatura moderna, descobri o motivo deste texto que agora leem e tudo que escrevi acima não passou de peroração inútil. Come on, friends!

        Vocês leram Dublinenses, mais particularmente: Os Mortos, último conto do livro? Pois… Terminava de ler o conto e o desfecho me fez sentir o que Fernanda (sim: a dona do blog) me descreveu como “Síndrome de Stendhal”. Xinguei, tremi, suei, palpitações faziam todo meu corpo me desobedecer, até vertigem tive. Oh não, não foi pieguice, um animal do meu tamanho não tem tempo pra isso, foi choque com algo maior que escapava, por entre meus dedos suados, à minha definição: simplesmente O conto mais belo que já li na vida (essa definição é um clichê, porém, por mais que tente, não encontro nada que exprima com mais justeza a sensação que tive). Acontece que ler aquele conto impôs barreiras, me perguntei: você quer escrever? Você consegue sustentar algo desse tamanho? Você tem na alma luz necessária a iluminar a treva que é a falta talento? Será que apenas sua vontade desenfreada pode fazer da dúbia chama de vela, labareda? Não me comparo a Joyce, minha leviandade conhece bem minhas limitações, mas quando seus olhos se deparam com tão intensa expressão de vida e arte, há de se questionar a validade, até que ponto e como sobrevive seu desejo de fazer literatura e a questão principal é: vale a pena se lançar, se tem tanta dúvida?

         Passei bons tempos sob efeito, baqueado mesmo. E me fiz outras perguntas: ele tirou todo aquele conto da imaginação? Tudo, cada linha, as falas, a neve, o frio, a música, tudo puro e simples espírito criativo? Pensei, por Deus, não pode ser permitido a um mortal tamanha perfeição na bela e tácita amplitude do conto, há tanta vida e sentimento ali que não é possível não haver nada de real em sua trama a antagonizar o que há de fictício. Fiquei dias, aliás, anos com essa ideia latejando, pois de tempos em tempos releio aquelas páginas e ainda sinto as mesmas sensações e a desobediência dos meus gestos.

         O conto, e direto ao ponto.

         Depois de uma noite prazerosa passada entre os familiares, jovem e belo casal voltam ao quarto de hotel sob frio e neve. O marido tenta fazer do fim festa familiar, clima ideal para noite de amor. Antes de saírem da presença dos seus, a esposa escuta a música tocada ao piano por alguém com voz rouca, mas com poder suficiente para arrastá-la ao baile ininterrupto da memória. Então este casal, sob luzes baixas e desejos indecisos, desenvolvem o diálogo mais instigante do livro, e concluem uma das páginas mais maviosas da literatura universal. Gretta, a esposa, ao escutar a música The Lass Of Aughrim, dá um banho tão frio nas intenções do marido quanto a neve, em sua majestática beleza, empresta em plasticidade ao conto.

         Ao indagar no que Gretta está a pensar, Gabriel, o marido, imagina que ela está operando na mesma frequência, mas acaba descobrindo que tem um rival distante e invencível: o passado da esposa que caminhava pela neve ardoroso e impávido. Sim, todos têm mundos e memórias sentimentais que povoam a vida silenciosa em seu coração. O que o conto diz é que não há mortos onde a vida ainda fervilha. E…? Calma.

         Já se sabe que memória e imaginação, se bem casadas, podem fazer arte de longo alcance. Joyce tinha sentidos aguçados, e sua audição era de urso. Escutou a história dos amores infantes de Nora. Com 13 anos, um pé fora da infância e outro dentro da adolescência, viveu uma historieta com o jovem Michael Feeney, professor de 16 anos (isso já a faz entrar em contradição, pois sempre sustentou que não se interessou por Joyce atraída por suas aspirações literárias e elevado intelecto). O jovem morreu de problemas decorrentes de tísica, ou tuberculose, e Nora nunca o esqueceu. Então? Nora inspirou Gretta e Joyce era o corno Gabriel. Que nem pode ser tratado assim, pois é um corno tão cheio de austeridade e virtude que acaba tornando ainda mais bela a fala onde descreve o que se passa entre seu coração e o de Nora, digo Gretta. Ser derrotado por alguém em quem não se pode dar um soco, um tiro, uma pedrada, não é fácil e isto posto em papel, dadas as proporções, ornamentos precisos, não há adjetivo suficiente no dicionário para abarcar toda maravilha. É Síndrome de Stendhal de parágrafo em parágrafo.

         Minhas desconfianças estavam certas, havia algo de biográfico no conto. Isso só demonstra mais uma vez a grandeza artística de Joyce. Turgueniev também chorou seu desalento em forma de letra, outros escritores o fizeram antes, mas no século passado ninguém foi tão incisivo nessa seara quanto o irlandês, ninguém explorou tanto nem com tamanha ousadia (sabe o que 16 de junho celebra? A primeira punheta de graça do picareta). Nora forneceu material para suas maiores empreitadas e a cada descoberta que faço reconheço mais e mais o valor do bom ouvido. Nada no conto é aleatório, nem mesmo a árvore onde Michael Furey/Feeney é visto por Gretta pela última vez, pois o convento onde Joyce situou a cena, é rodeado por belas árvores.

         É caro amigo, se você tem Dublinenses estacionado na estante, pare de ler Chico “Jabuti” Buarque e Paul Rabbit, esqueça a chorumela da literatura contemporânea voltada a umbigos mal lavados, e vá fazer bem enorme a seus sentidos, pois a neve que, no conto, caía sobre toda a Irlanda pode cair muito bem sobre o calor tropical que a nada inspira. Afinal, o amor é a chama que ilumina a vida dos vivos, e prova que não acaba no silêncio dos mortos.


Nós já fizemos uma leitura coletiva aqui no blog sobre “Dublinenses”, de James Joyce.

Baixe aqui o e-book grátis.

Leia nossas resenhas aqui (Gerson de Almeida), aqui (Fernanda Sampaio), aqui (Ludmila Aguiar),  aqui (Lotthar Vlozian) e aqui (Ronaldo Sérgio).

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