Resenha: Orlando, de Virgínia Woolf


Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. (P.105)

Leram o trecho acima? Virginia Woolf, em 1928, entendeu o problema de gênero melhor que muitos entendem agora. Vamos entrar no mundo Virgínia Woolf comigo?! Vem!

A inglesa Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, Londres, 25/01/ 1882– Lewes, 28/03/ 1941) foi uma escritora clássica do romance moderno, cultuada e reverenciada nos quatro cantos do mundo.

Virginia teve um romance, durante anos, com Vita Sackville- West, poetisa inglesa, enquanto estava casada com Leonard Woolf, funcionário público e também escritor. Virginia escreveu um diário contando as suas experiências. Que será que o marido pensava disso? Era consciente, consentia ou ignorava a situação? Essa parte fica pra outra ocasião.

Infelizmente, a autora cometeu suicídio jogando- se no Rio Ouse, em Sussex, perto de sua casa, aos 59 anos. Ela sofria, tudo indica, de um transtorno bipolar; uma depressão a fez tomar a fatal decisão. Esses transtornos psicológicos a acompanhavam desde os 13 anos. A escritora deixou uma carta de despedida ao marido, disse não mais suportar as crises, ouvia vozes, temia a loucura, leia.

Sua obra prolixa é composta de ficção e não- ficção.

Virginia_Woolf_in_1902

Virgínia Woolf em 1902, aos 20 anos. A mesma foto da capa da edição que li.

1427054086_112243_1427054854_noticia_normalVirginia em 1931.

VitaSackvilleWestVirginiaWoolf1933Virginia Woolf e Vita Sackville-West na “Monk’s House”, a casa da autora, em 1932.

woolfO casal Woolf

“Orlando” começa com um prólogo da autora com agradecimentos a vivos e mortos, escritores, amigos e familiares. O título do livro é o nome “do” protagonista da história. As aspas em “do” serão explicadas depois. Presta atenção.

A obra de Virgínia Woolf caracteriza- se pelos monólogos interiores, o latente fluxo de consciência dos personagens,  no entanto, “Orlando” não tem especialmente essa característica, é a exceção.

Sua relação homossexual com Vita Sackville-West foi refletida, dizem, em “Orlando”. Vita, nos anos 20 e 30, era mais conhecida e respeitada que Virginia Woolf. Segundo o seu filho, “Orlando” “é uma longa e encantadora carta de amor”. Mas isso eu soube depois da leitura, eu nunca pesquiso antes de ler um livro para não ser influenciada, para não direcionar a leitura, mesmo porquê, temos que nos focar no texto. A vida dos autores é questão secundária, curiosidade histórica, podemos tecer pontes entre o autor e obra, mas o principal  tem que ser o texto mesmo. Mas, nesse caso, o livro ganha um sentido especial conhecendo esses dados.

Eu não sabia absolutamente nada da história, o que iria encontrar era uma incógnita.  O título e a capa não dão nenhuma pista.  Levei um susto, fiquei chocada com a primeira página: um rapazinho brinca com a cabeça cortada de um mouro, vítima do seu pai ou avô.  Pensei que a história acontecia na Idade Média (período longo entre os séculos V e XV). Não, é um pouco depois. Orlando tem 16 anos no início da história, vive na época elisabetana, século XVI, era poeta, ou pelo menos, tentava ser. A história termina, cronologicamente, no século XX, precisamente no dia 11/10/1928. O livro é a biografia de Orlando, no final, com 36 anos. Impossível? É uma alegoria utilizada para demonstrar que uma pessoa pode viver séculos em pouco tempo.

Impressionou- me como a autora descreve os personagens com muita precisão, não só a aparência, mas as características expressivas dos personagens, genial! Ela desenha e dá vida aos personagens perfeitamente com analogias, dá para imaginá- los como em um filme e inseridos em seus cenários. É isso: literatura “fílmica” ou teatral. Não é à toa que muitas obras literárias são adaptadas para teatro e cinema. Essa obra teve uma adaptação para o cinema em 1992.

Veja só um trechinho da descrição do rosto de Orlando, praticamente um retrato- falado :

(…) O vermelho das suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre os dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (p. 8)

Orlando cresceu lindo e galanteador.  Conheceu uma rainha russa, apaixonaram- se, viveram um idílio breve no inverno inglês. A mulher foi embora sem prévio aviso. Orlando primeiro ficou desesperado, depois entrou em uma profunda melancolia e tristeza.

O narrador mantém um diálogo com o leitor, citando-o. Essa voz exerce de biógrafa de Orlando.  Veja se essa descrição não corresponde com o que sabemos de Virgínia e seu caráter, mas estes atribuídos a Orlando (p.41):

(…) Orlando era uma estranha mistura de muitos humores– melancolia, indolência, paixão, amor à solidão, sem falar em todas aquelas contorções e sutilezas de temperamento que foram indicadas na primeira página…”

Orlando gostava de livros desde criança, tinha hábito de ler até tarde da noite:

“Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura.”(p.42)

O personagem sofre dessa “doença”, como chama o narrador. Ele lê seis horas diárias “noite adentro”. O criados da casa dizem que devia abandonar os livros, pois são para “paralíticos e moribundos”. Especialmente nesse contexto histórico, os escritores eram considerados cidadãos de segunda classe, operários, algo para castas inferiores. Portanto, para a família abastada e nobre de Orlando, esse ofício era um desgosto.

O escritor de cabeceira de Orlando é Thomas Browne, inglês que viveu no século XVII. Esse autor realmente existiu e viveu muito para a época, chegou quase aos 80 anos (77), um verdadeiro milagre. Nasceu e morreu no mesmo dia, 19 de outubro.

Além de Browne, há várias citações de histórias mitológicas: “A morte de Ajax”, “O nascimento de Príamo”, “Ifigénia de Áulide”, “A morte de Hipólito”, “Meleagro” e a “A volta de Ulisses”. Orlando lê, escreve e guarda seus escritos em gavetas de madeira.

(…) Assim tinham sido escritas, antes dos seus vinte e cinco anos, umas quarenta e sete comédias, histórias, romances, poemas, uns em prosa, outros em verso, uns em francês, outros em italiano, todos românticos e todos longos.” (p. 43)

Orlando não esquece a amada que o deixou. Faz- se mil perguntas sobre o motivo e não encontra resposta. Foi aí que tentou substituir seu rosto por outro. Começou a escrever.

Conheceu um poeta (pobre), Nicholas Greene, que provoca em Orlando uma espécie de atração- repulsa. O admira e o repele ao mesmo tempo. Depois acaba rendido aos encantos e inteligência do poeta, hospedado em sua casa por uma semana. Orlando encantado com o homem no seu palácio; o poeta, ao contrário, completamente entediado. Ele preferiu retornar para o seu apartamento minúsculo e cheio de gente. Escreve um poema satirizando Orlando, deixando- o em ridículo perante toda a sociedade.

Orlando afasta- se das mulheres e dos poetas. Dá festas homéricas, suntuosas, para milhares de pessoas. Gastou metade da sua fortuna. Decide sair de Londres e vai para Constantinopla.

Acontece algo completamente insólito: Orlando, aos trinta anos, cai em um sono profundo, fica em estado de letargia durante uma semana. Ninguém o consegue acordar. Depois de sete dias, aparecem três santas, a Pureza, a Castidade e a Modéstia. É assim, com esse tom místico e fantástico, que Orlando transformou- se em mulher. Transgênero sem dor, sem espanto, sem cirurgia. Orlando não questiona nada, aceitou sem nenhum assombro o novo gênero.

Muda de vida, “a” Orlando agora, viaja com um grupo de ciganos, absorve a vida nômade, toma banho quando dá, dorme vendo estrelas. Mudou de vida completamente, nada de luxo, longe do conforto da sua casa com trezentos e sessenta e cinco quartos.

Mas, começa a ter umas diferenças com os ciganos, sente falta da vida de luxo, da sua família de mais de quatrocentos anos a qual recordava com muito orgulho. Depois envergonhou- se, os ciganos tinham uma história de mais de dois mil anos e não eram muito piores  que o povo “civilizado”.

(…) Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a nossa própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (…) Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer (…) (p.83)

Orlando acabou indo embora, cansou da vida nômade, sentia falta de tinta e papel, de escrever, sentia orgulho do seu passado que os ciganos desprezavam. Foi embora na hora certa, pois já estavam planejando cortar- lhe o pescoço. Vendeu seu colar de pérolas e comprou um enxoval de mulher. Voltou para Londres.

Essa é uma obra que fala muito sobre literatura. Há trechos interessantíssimos sobre o processo do fazer literário, as fases que passa o escritor. Só por isso já merece ser lida.

(…) O ofício do poeta, portanto, é portanto mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para outros é inatingível. (p.96)

A autora, creio, quis mostrar como seria se as pessoas mudassem de gênero. Um machista que virasse mulher, deixaria de sê- lo? As regras sociais começariam a mudar? Ela estava irritada porque não podia nadar com aquela saia enorme.

(…) devo, então, começar a respeitar a opinião do outro sexo, embora me pareça monstruosa? Se uso saias, se não posso nadar, se tenho que ser salva por um marinheiro, Deus meu!”‘ Gritou, ” que hei de fazer? (P.87)

Orlando descreve situações cotidianas que as mulheres são obrigadas a viver, todas de importância inferior, subjugadas e serviçais.

Ela conhece os dois lados, foi homem durante 30 anos. Sempre amou as mulheres e chega à conclusão que não precisa mudar isso por causa do seu corpo feminino. Ama uma mulher, Sacha, a rainha russa.

Engraçado é que quando ela chegou em casa depois de muito tempo fora e como mulher, nenhum criado duvidou que fosse Orlando e nem estranhou a sua nova condição.

Há tempos, antes de viajar para a Turquia, Orlando tinha conhecido uma mulher com estranhos modos, ele não tinha simpatizado muito com ela. Essa “mulher”, Harry na verdade, volta dizendo ser um homem e que havia vestido- se de mulher para conquistá- lo, pois estava apaixonado. Essa confusão de gêneros, creio, é para mandar o recado de que gente pode se apaixonar por quem for. Se não existissem regras, moralismo religioso, vergonhas próprias e alheias, convenções, amarras, tabus…como seria o amor, o verdadeiro? Dentro dessa parafernália toda de impedimentos, há gente que escolhe simplesmente amar. Mas podia ser sem tanto sofrimento, não é?

Se isto  é amor (…) há no amor alguma coisa profundamente ridícula. (p.99)

O arquiduque Harry fez- lhe uma declaração apaixonada de amor. Harry ama Orlando, seja homem ou mulher, mas não é correspondido.

Do amor ao que nos cobre. Sobre a influência das roupas, segundo a filosofia:

Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito que ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nós aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. (P.104)

Todos temos os dois gêneros dentro de nós, em maior ou menor grau. Não há mal algum assumir isso, há que estar aberto para aceitar o que não é convenção, para normalizar a situação das pessoas que têm uma aparência que não corresponde com o que sentem.

No Brasil e no mundo, o assunto dos transgêneros está nos meios de comunicação, porque gente famosa passou pelo processo físico de transformação. O famoso cartunista Laerte decidiu assumir publicamente o seu lado feminino aos 60 anos; o mesmo aconteceu com o padrasto das Kardashians, Bruce Jenner (agora Caitlyn Jenner); também a Tammy Miranda.

A cineasta brasileira Anna Muylaert ( tive o prazer de entrevistá- la em Madri) lançou um filme em fevereiro no Festival de Berlim: “Mãe só há uma”, em cartaz no Brasil agora. A história é baseada em fatos reais, aquele caso do menino Pedrinho que foi roubado na maternidade. No filme, Pierre (Felipe, na verdade) foi sequestrado por uma mulher que o criou como seu filho. Foi encontrado pela família biológica 17 anos depois. Felipe/ Pierre considera a mulher que foi presa a sua verdadeira mãe. Anna “brinca” com a coisa do gênero/sexualidade do personagem Pierre. Ele é bissexual, aparência andrógina, maquia- se, tem uma banda de rock, pinta as unhas. A liberdade de ser o que quiser ser. Uma pessoa pode ser muitas coisas. Orlando também brinca com a dualidade, por vezes usa roupas unissex.

Outro filme ou livro de David Ebershoff, que você pode conhecer mais sobre o assunto é o “Garota dinamarquesa”, que conta a história verídica de Lili Elbe, parece que foi o segundo caso no mundo de cirurgia de mudança de sexo.

A tolerância e o respeito são fundamentais. Se você não gosta, o problema está com você, não com o outro. Precisa educar- se para aceitar quem não é igual a você. A única coisa triste e feia é ver gente infeliz devido às velhas fórmulas tradicionais, desgastadas e que não servem para todos…

 Orlando, agora vestido de homem e comportando- se como tal, mesmo sabendo- se mulher, dá um passeio noturno e encontra Nell, que não se importa de descobrir que Orlando é também mulher. Orlando achava uma vantagem poder desfrutar dos dois gêneros:

(…) Parece que não tinha dificuldade em sustentar o duplo papel, pois mudava de sexo muito mais frequentemente do que podem imaginar os que só usarem uma espécie de roupas. E não pode haver nenhuma dúvida de que com esse artifício colhia uma dupla colheita, que os prazeres da vida aumentavam e sua experiência se multiplicava. (p. 123)

 Orlando pode ser interssexual. Sua aparência andrógina só pode ser diferenciada pelas roupas.

Atribui- se à Vita o personagem de Orlando.  Mas a questão dessa briga interior, quem sabe,  não serviria para Virginia também? Seria a gênese dos problemas psiquiátricos da autora? Ou não… quem sabe?

Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdia- a; o amor,  não o conheci; a vida –e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres (…) não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu em cima de mim. (Orlando caído no chão, no bosque, com o tornozelo quebrado, p. 139).

As dores da alma podem ser muito maiores e devastadoras que as físicas.

Mas, sossega…essa história tem um final feliz. “Nada muda”, mas num espaço de “três segundos e meio”, tudo pode mudar.

Uma das coisas mais interessantes desse livro é a questão do tempo/relatividade/intensidade. Tem gente que vive 200 anos, mas só tem 36 anos de idade, como Orlando. Há amores que duram pouco tempo cronológico, mas duram milênios pela intensidade que implicam; já outros, duram trinta anos, mas caberiam em um só dia.

Que vinha a ser, então, a vida? (p.159)

Vida? Literatura? Converter uma na outra? (p.160)

A verdadeira substância da vida, agora (…) é mágica. (p.169)


A edição que eu tenho é muito especial. É de 1978, traduzida pela poetisa Cecília Meireles: “a tradução que a Nova Fronteira agora reedita foi feita por Cecília Meireles. Trata- se não de uma tradução literal; palavra por palavra, do original. Trata- se como toda grande tradução, de um novo original. Quase como se Virginia Woolf fosse uma grande escritora brasileira.”

Curiosidade: esse livro foi encontrado em  um sebo em Barcelona. “Orlando”, em perfeito estado de conservação, parece nunca ter sido lido pela sua primeira dona, a Ana do Rio de Janeiro, em 1989, há 27 anos:

13615132_631078893714341_7022206275252763066_nQuem será Ana? Ana, cadê você?! Como o seu livro foi parar do outro lado do Atlântico?!

Resenhão, não é? Muito extenso. Ainda assim, creio que passaram detalhes e matizes que ainda vou ter que polir. Como disse a princípio, é a minha primeira incursão em Virgínia Woolf.

Obrigada pela paciência e por ter chegado até o final. Um livro intenso, que levanta muitas questões importantes, que fazem refletir sobre o tempo, a vida e a morte, o ser, a sexualidade e gênero, a sociedade, o amor e o fazer literário.

13606849_631079127047651_686360459499893383_n

Woolf, Virginia; Orlando, Coleção Grandes Romances. Nova Fronteira, 1978, Rio de Janeiro. 185 páginas

Anúncios

Resenha: “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón


– Cuidado, Eulália, desconfie das palavras. Elas tanto afirmam quanto desdizem. E isto por conta da nossa vaidade. ( p.14)

Ler “A república dos sonhos” é ler uma vida inteira. É ler a saga de uma família, três gerações. É ler a história do Brasil, sua política, usos e costumes. É desvendar o sentimento imigrante não importando a nacionalidade, há um sentimento comum a todos. É ler a história da Galiza, suas gentes, lendas e superstições. É descobrir que a família pode ser amor e ódio.

Ler esse livro mostrou- me que o Brasil já está errando há tempo demais. A leitura do Brasil nação é atual e acaba sendo triste. Não evoluímos, o tempo não jogou a nosso favor. Ainda falta muito pra melhorar em todos os setores e temo que esteja muito distante.

De que me vale a riqueza de ter duas pátrias, se as duas me querem dividir, ambas me fazem sentir que não pertenço a lugar nenhum. (p. 182)

A memória, as vozes do passado, raízes, família, pátria, amor e ódio dão o tom da narrativa.

Com esse livro, Nélida Piñon alcançou o nível máximo na excelência da arte literária. Não se pode escrever melhor! Eu havia lido seus contos e “A casa da paixão”, mas essa narrativa prolixa e excepcional, me conquistou completamente! Posso compará- la e colocá- la no mesmo patamar de Marcel Proust, Machado de Assis ou Dostoiévski, nível A. Nélida Piñón é a Proust brasileira! Fiquei muito impressionada com essa obra.  Ah, também lembra “Cem anos de solidão”, de Gabo. Nélida Piñón tem uma escritura fina, rica e elegante. Veja como começa:

Eulália começou a morrer na terça- feira. Esquecida do último almoço de domingo, quando a família se reunira em torno da longa mesa especialmente armada para receber filhos e netos. (…) (p.7)

O primeiro capítulo serve como apresentação do casal protagonista, já idoso, que prepara- se para o final de Eulália, que pressente a morte e prepara- se para tal. Essa obra trata da história dessa família de imigrantes galegos que foram para o Brasil em busca de um sonho. O povo da Galiza tem essa vocação imigrante, na própria Espanha são conhecidos assim. Essas terras galegas não oferecem (até hoje) as melhores condições de vida e trabalho, o tempo inclemente, muita gente vive do mar e da terra, ofícios duros e sem boas  expectativas de futuro, o que os empurra a sair da sua terra. A neta Breta tenta reconstruir a saga da sua família.

– O mar é a minha memória, Venâncio. (…) (Madruga, p. 11)

Alguns personagens:

Eulália: imigrante galega (espanhola), casada com Madruga. Muito religiosa, mãe dedicada, submissa ao marido, resignada, misteriosa. Forte e frágil ao mesmo tempo. Preparou caixinhas com recordações para cada um dos filhos.

Madruga: imigrante galego (espanhol), casado com Eulália. Imigrou adolescente para  Rio de Janeiro com muita força e ganância. Teve sorte, começou a trabalhar em um hotel de um espanhol e logo passou a ser sócio do negócio. Assim começou o seu império. Machista, frio com os filhos e a esposa, os filhos o consideram um déspota.

Venâncio: velho amigo de Madruga e Eulália, chegaram juntos no Brasil em um navio inglês, no ano de 1913. Ao contrário de Madruga, não teve êxito financeiro, era seu empregado. Seus valores e sentimentos eram muito diferentes, mas mantiveram- se unidos até o final. Escreveu um diário, dessa forma podemos conhecer quem é e o que pensa.

Dom Miguel: pai de Eulália

Odete: a servente de Eulália. Apesar da abolição da escravatura em meados do século XIX, a escravidão no Brasil continuou no século XX. Até hoje vemos e sentimos as consequências.

Breta: neta de Eulália e Madruga, filha de Esperança, que morre (“spoilerzinho”!)

Xan: avô de Madruga, distante, mas sempre presente

Urcesina: mãe de Madruga

Ceferino: pai de Madruga

Antônia: filha de Madruga e Eulália

Tobias: o filho mais velho de Madruga e Eulália.

Amália: esposa de Tobias

Esperança: filha de Madruga e Eulália

Bento: filho de Madruga e Eulália

Miguel: filho de Madruga e Eulália

Luís Filho: genro de Madruga e Eulália, casado com Antônia

Tio Justo: irmão de Madruga

Dona Aquilina: a bruxa, uma “meiga” da Galiza

Maria e Viriato, imigrantes portugueses, pais de Cláudio, soldado brasileiro na Itália na II Guerra Mundial. Ele volta, mas sofre problemas mentais provocados pela guerra.


O segundo capítulo começa com a história da família contada em 1º pessoa por Madruga, que nasceu em Sobreira, Pontevedra (Espanha). Com 13 anos, planeja a viagem ao Brasil, a América é o seu sonho, acha que não tem o que fazer naquele povoado, mata virtualmente os pais, tenta retirar todo o vínculo emocional, só assim poderia sobreviver na nova terra. Quem vai e fica emocionalmente dependente dos que ficam, não consegue enfrentar a dor da separação. Ele pede ajuda financeira (a passagem de navio) ao tio Justo, um sujeito solitário e irascível, que migrou para o Brasil, mas retornou, não deu certo.

O livro inteiro é destacável, são 705 páginas magistrais, por motivos óbvios, não vou poder destacar tudo o que eu gostaria. O trecho abaixo, tão atual (a obra foi escrita em 1984, mas poderia ser hoje) dito pelo filho de Madruga, é advogado e está muito insatisfeito com a falta de valores nobres que rege o país:

“– As nossas franquias institucionais sempre representaram uma farsa, padrinho. Começando pelo aparato jurídico que é capenga, amolece diante dos regimes fortes. Por isso nos tornamos todos tiranos. Da estirpe de Getúlio, Médici e outros mais. Oferecemos cafezinho às visitas, que mal nos chegam na soleira da porta, com a chibata na mão. Não temos feito outra coisa que dilapidar um patrimônio que uns chamam de nação, outros de país, ou de pátria. O Brasil vem mentindo para si mesmo a cada hora. E não existe pior elite que a nossa. Ela condena os fracos e os miseráveis ao extermínio ou ao exílio. O exílio do silêncio e da não participação social. Da privação dos direitos humanos.”
(Tobias ao padrinho Venâncio, p. 36)

O advogado Tobias defende as pessoas sem recursos contra a ditadura. Tem muitos problemas econômicos, enfrenta a mulher, pede empréstimos bancários, vai contra o pai, com quem não se dá bem, não gosta do seu autoritarismo, o considera um déspota. Tobias ia na contra- mão dos seus irmãos que acatavam as ordens do pai, que trabalhavam nos negócios dele junto com o genro puxa- saco Luís Filho. Madruga fez fortuna no Brasil.

No entanto, ser imigrante não é nada fácil, uma verdade transportada à ficção de Nélida:

Ganhar a vida, em um país estrangeiro, equivalia no início a dolorosas amputações. A perda da alma e da língua ao mesmo tempo. (p.67)

Essa obra nos conta costumes brasileiros e espanhóis, sob a ótica dos galegos (nascidos na Galiza). O sentimento imigrante é muito parecido, não importa a nacionalidade. Em muitos momentos identifiquei- me, infelizmente, com algumas coisas que não são muito agradáveis de sentir na própria pele, trechos da página 173:

O peso:

“(…) Parecia, então, estar arrastando Espanha às costas, como se fosse uma mochila de couro. Enquanto o Brasil, a despeito do seu conteúdo jovem e falsamente lírico, igualava- se em peso a uma pedra que devesse deslocar sozinho do chão.”

Só o esquecimento salva do mal- estar diário:

“– Não se pode conviver intensamente com dois países mortíferos como o Brasil e a Espanha. Você terá que abrandar um deles dentro da alma. De outro jeito, eles terminam por mata- lo (…)

A sensação de ser um forasteiro, ainda que morando há muitos anos fora:

“(…) Pondo os pés num país que, em movimentos díspares, retinha- o e expulsava- o seguidamente. Somos e não pudesse esquecer que o Brasil não fora a sua primeira manjedoura.”

Venâncio imigrou junto com Madruga. Ele era empregado deste, que enriqueceu com um hotel. Sorte de um e falta da mesma para outro. Venâncio é melancólico, não acaba de arraigar- se no Brasil e sofre. Não tem família, não tem riqueza, parece viver sem esperança. Madruga tem o consolo do dinheiro, do êxito, do sonho cumprido e a ainda família numerosa para completar.

A história acontece na década de 30, períodos políticos complicados, tanto no Brasil quanto na Espanha. No Brasil, o suicida e ditador Getúlio Vargas teve quatro mandatos como presidente que duraram 15 anos. Um golpe militar depôs o então presidente Washington Luiz para entrar Getúlio. Anos de revoltas e assassinatos da oposição, uma história confusa e complexa; na Espanha, também acontecia uma guerra civil (1936- 1939). Ganhou a pior parte, o ditador Francisco Franco, que governou o país durante 36 anos, até a sua morte em 1975. Um longo período em que a Espanha não teve liberdade de expressão, não teve imigração, também não existiam homossexuais e nenhum opositor, já que esses eram eliminados. O mundo estava em pé- de- guerra, em 1939, também explodiu a II Guerra Mundial. Veja (p.176):

13501693_622183117937252_8372127748385535776_n

Quem quiser conhecer melhor a história de Olga Benário leia “Olga”, de Fernando Morais. Esse é um livro que ainda quero fazer uma resenha. A história trágica dessa mulher (e de muitos outros) foi promovida por Getúlio Vargas.

A diferença entre o Brasil e a Espanha? O brasileiro parece desconhecer a história do próprio país. Uma das principais ruas da cidade que eu morava em Feira de Santana, adivinha? “Avenida Getúlio Vargas”. Tenho certeza que a população pensa que foi algum herói. Já na Espanha, os símbolos franquistas da ditadura foram retirados das ruas, praças, cidades.

Os personagens estão inseridos nesse contexto político- social e suas vidas, medos, condutas são influenciados por esses fatos. Venâncio temia que a ditadura brasileira o expulsasse para a ditadura espanhola.

Passado e presente vão intercalando- se entre os cenário do Rio de Janeiro e de Sobreira, na Galiza.

Merece destaque a relação da galega Eulália com a sua fiel empregada Odete, negra, órfã, pobre e totalmente serviçal, sem vida própria. Vivia entregada a servir a patroa sem horários e direitos, muito menos comer à mesa com os patrões. Em 2016, continua igual em muitos lares do Brasil. Na realidade baiana que conheço mais, afirmo sem medo de errar, que muitas faxineiras, cozinheiras, babás, lavadeiras e passadeiras são tratadas praticamente como se não fossem seres humanos. O lugar delas é na cozinha, a relação não é como a de outro profissional qualquer, são tratadas de cima pra baixo, como era a relação do senhor da Casa Grande e do escravo da senzala, de Brasil Colônia. Eu vi, presenciei, ninguém me contou. Espero que algum com essa doença psicológica/social/moral leia isto e caia a cara de vergonha.

Outra coisa: “pegar pra criar” alguma criança pobre, como se fosse um favor, para usá- la como escrava na sua casa, para fazer todas as tarefas domésticas não é ser “irmão ou irmã de criação”, isso tem outro nome: ESCRAVIDÃO! Pois é, na Bahia isso ainda acontece. Irmão é irmão, não é escravo.

Eulália mantinha- se alheia aos acontecimentos políticos brasileiros e do mundo, centrava- se nos afazeres domésticos: “(…) Nada escraviza mais que a devoção integral às panelas, à roda de fiar, aos utensílios, que põem uma tela escura à vista.” (p.376)

A relação entre Madruga, a esposa Eulália e o amigo Venâncio era estranha. Fiquei desconfiada que Venâncio era apaixonado por Eulália e vice- versa, e que o filho mais velho de Eulália era dele, não de Madruga. Venâncio não casou, era muito reservado, solitário e muito preocupado com a situação política da Espanha, não conseguia esquecer da terra natal. Madruga o recriminava o tempo todo,  achava que isso o impedia de ser feliz no Brasil, queria que arranjasse uma mulher, tivesse família, mas Eulália desculpava o amigo e colocava panos quentes. Madruga acabou descobrindo que o amigo adoeceu. Quando o sonho se transforma em pesadelo, Venâncio (p. 183):

– Será que não existe na terra um só lugar que acalme um homem ferido?

Nem todo mundo tem estrutura emocional para ser imigrante. Já vi brasileiros na Espanha perderem a paz, a saúde, o juízo diante do fracasso, seja qual for. Muitos ficam prisioneiros das próprias decisões, não podem ir e nem ficar, mesmo porquê, muitos já nem têm para onde ir. Conheci brasileiros que ficaram com depressão, que se auto- mutilavam, que tiveram derrame, que entristeceram tanto afundando na depressão, que já nem sabiam quem eram. O lado B da imigração que ninguém conta. Se olhar nas redes sociais, parece que todos são ricos e felizes, enquanto carregam uma mochila de fracassos. E presta atenção: nem sempre é questão de dinheiro. Vi gente enlouquecer com a conta bancária recheada. Imigração é assunto complexo que mexe com perdas, como a convivência com a família. Uma ruptura com o passado e todo o conhecido, entre muitas outras coisas, que as pessoas mais sensíveis podem não suportar. Venâncio internou- se na Beneficência Espanhola (p. 185):

– Não estou louco, Eulália. Só preciso adaptar- me à realidade feita por homens como Madruga.

Esse livro fez- me pensar sobre a minha própria condição. A conclusão foi muito positiva. Eu venho de uma tradição imigrante, pais e avós, não somos de criar limo; aliás, a hera, o musgo me remete sempre à sujeira, parasitas, grude, feiúra. Eu deixo o musgo para as pedras, que acumulam taturanas, escorpiões, aranhas e lacraias. Descobri- me uma imigrante orgulhosa. A única coisa que me arrependo é de não ter mudado mais. Além das mudanças interiores, que devem ser constantes, como a de escolher quem deve estar ao meu lado.  A vida é movimento desde que o mundo é mundo; o contrário é a morte.

A história pula para 1969, o golpe militar no Brasil. Breta era militante e teve que exilar- se na Europa. Primeiro na Espanha com o avô, depois foi para a França.

A obra é contada sob várias perspectivas, em primeira e terceira pessoa. “É preciso sentir para saber”. O outro que vê de fora, julga e vê sem conhecimento de causa. Pode mudar a história inteira! As verdades mudam, depende de quem conta.

Há muitos trechos que desvendam a conduta sexual dos personagens, que tem relação direta com suas condutas sociais, psicológicas. Inclusive, daria uma tese interessante “A sexualidade na obra de Nélida Piñón”. Nesse livro e em “A casa da paixão”, já dá um bom material. Deixo como sugestão para quem tiver interesse na área.

A relação entre os irmãos é complicadíssima, amor e ódio. A relação entre os filhos e Madruga, idem. Não é uma história alegre, é triste e complexa. O que me fez chegar à conclusão: a família pode ser a pior inimiga.

O que senti falta nesse livro é uma mais descrição física mais detalhada dos personagens, houve pinceladas, mas tive dificuldade em imaginar a maioria deles. Venâncio magro e de nariz adunco; Madruga, encorpado, de olhos azuis, bonito, o mais bonito da família. Miguel, o mais bonito dos filhos, e pouco mais, não há muitos detalhes para ajudar na visualização dos personagens.

A dificuldade com a nossa língua, do diário de Venâncio, que serve como reflexão (p. 376):

A conquista desta língua portuguesa me é penosa. Trava- me a língua, quando falo. Ela é tirânica e traiçoeira, e não basta conhecê- la. sobretudo devo vencer aqueles sentimentos subalternos, disciplinares e canónicos, de que ela se reveste. Esta língua lusa, como todas as outras, organizou- se de forma a impedir que o povo tome a si e rompa- lhe os grilhões. Os senhores da língua sempre temeram que o povo convivesse com aquela camada subjacente da língua, capaz de conduzi-lo à apostasia do imaginário. À liberdade.

O Brasil tem um “karma”, uma sorte, destino ruim, não pelo seu início, mas porque ainda não se redimiu dos seus pecados. Estagnou. Os ricos de sempre, as famílias tradicionais, conquistaram a sua riqueza com sangue e exploração dos escravizados, mais frágeis e desvalidos; os novos ricos, idem, exploram a riqueza e mão-de-obra barata. Sempre desconfio dos que fazem fortuna, porque essa sempre depende da pobreza alheia. Infelizmente, isso está instituído. O Brasil não é um país justo. O abismo social e financeiro, o apartheid  continua no ano 2016. Tais diferenças são mais notórias ainda no norte- nordeste do país.

Tobias considera Venâncio o seu pai, na verdade, o seu padrinho. Ele não gosta, tal como Venâncio, de como Madruga fez a sua fortuna. Eles têm consciência dos problemas do Brasil e de como foi construído.

(…) O Brasil era todos nós. Desgarrados e melancólicos. Seríamos, em conjunto, as falências e aspirações desta nação. (p.385)

 Temos a sensação de que o brasileiro estende tapete vermelho para os estrangeiros, mas não é bem assim. Depende. Depende do bolso do estrangeiro. Se for recheado é bem aceito. Vemos a imigração pobre que chega da América do Sul e os haitianos, depois do terremoto, serem desprezados, mal recebidos. O mito do brasileiro “acolhedor e gente boa”, é isso, só um mito, já que é seletiva. Venâncio (p. 574):

– Quando desembarquei no Rio de Janeiro, lá pelos idos de 1913, fui recebido com suspeitas. Como se fosse um salteador, um assassino. O Brasil tinha vergonha da própria origem. E demonstrava um sentimento de oposição ao estrangeiro.

Esse livro me fez pensar sobre a história do nosso país. Quem somos? De quantas nacionalidades somos feitos? O Brasil composto de imigrantes de todas as raças, privilegiando umas mais que outras. O resultado não está sendo bom. O Brasil está em dívida, uma dívida muito alta e difícil de saldar. Viramos o século, mas parece que certas coisas nunca mudam.

A obra também vai te levar até a Galiza. Para quem se interessa por essa região da Espanha (ou não) é muito interessante.

A sina do imigrante, sair de onde saiu, mas não saber aonde irá terminar:

nelid

Parece que a república dos nossos sonhos, de estrangeiros e nacionais, ainda é um projeto para as futuras gerações.


Nélida Piñón (Rio de Janeiro, 03/05/1937) é filha de Lino Piñon Muiños e Olivia Carmen Cuiñas Piñon, galegos. A sua origem foi o motivo da escritura dessa obra. Nélida entrou para a Academia Brasileira de Letras em 1989 e foi a primeira mulher a presidi- la. Ganhou prêmios importantes como o Jabuti no Brasil e o Príncipe de Astúrias na Espanha.

Veja aqui a resenha de “O calor das coisas”, contos de Nélida e “A casa da paixão”.

A autora com sua cadelinha Susi (ela tem outro chamado “Gravetinho”. A escritora é solteira e não tem filhos, optou pela liberdade (inteligente e esperta!). As fotos foram tiradas na sua casa no Rio de Janeiro com vistas à Lagoa.

img-645725-nelida-pinon20141125151416937505

img-645729-nelida-pinon20141125151416937558Fotos de Cadu Pilotto para a revista Caras


Nélida é uma das escritoras brasileiras mais lidas na Espanha. Aqui é possível encontrar sua obra em português e espanhol. Veja aqui nessa livraria em Madri seus livros na estante.

Eu tive o privilégio e  orgulho de entrevistar a autora para a Revista BrazilcomZ, no último mês de março. Linda entrevista, Nélida deu uma aula de literatura, de vida e humildade, realmente uma pessoa e escritora muito especial! Você pode ler online a revista (páginas 13-17):

2

1

Eu sempre me sinto realizada depois de ler um livro assim, uma obra “master blaster”. A edição lida foi essa, da editora portuguesa Círculo de Leitores, que precisa ser revisada, há erros, não da autora, mas de quem diagramou o livro. Há palavras separadas inadequadamente, deslizes de revisão.

pinonPiñón, Nélida. A república dos sonhos. Círculo de Leitores, Lisboa, 2014. 705 páginas

Ps: Estou de férias e escrevi esse post do celular. De antemão, peço desculpas pelos eventuais erros no texto. Quando chegar em casa irei revisar.

Livros para ler nas férias


Verão na Europa, muito sol, praia e piscina. Entre as atividades aquáticas, vou de livro em livro.

Trouxe comigo “A República dos Sonhos”, de Nélida Piñón, que eu tinha começado a ler no ano passado, deixei estacionado, porque acabei me envolvendo com outras coisas. Retomei e hoje finalizei as compactas 705 páginas. Esse é um livro/autora que tenho muito respeito; inclusive a entrevistei por todo o apreço que lhe tenho. Foi uma leitura minuciosa, até tensa, porque não quis perder nenhum detalhe. Vou ter que comprar outro exemplar, o meu ficou arrasado, cheio de anotações, areia e salitre. Possivelmente, Nélida virá para a Espanha em novembro, quero uma dedicatória (em um novo exemplar menos arrasado). Essa semana, finalmente, sairá a resenha.

13615369_758844380884588_1573498372021946876_n

 O povo espanhol é um povo leitor. Em todos os lugares vejo gente com livros, isso me deixa feliz. Na praia (Calafell, Tarragona, Catalunha- Espanha) não é diferente. Esses dois senhores estavam ontem na minha frente, formamos um trio leitor! 🙂

13606683_758843134218046_2215343454115325717_nNão consegui ver o título, mas o livro é extenso e o senhor com seu charutão (apagado, ufa!) estava nas últimas páginas.

13627061_758843130884713_535231026912501067_nEsse outro senhor com um livro também extenso estava bastante concentrado enquanto o neto (ou filho) brincava na areia.

Veja a lista de livros que trouxe comigo. Não vai dar tempo de ler todos, mas quis ter opções. Escolhi livros que quero muito ler para já! Como terminei um nacional, agora virá um internacional, Woolf ou Dostoievski. Os dois começam interessantes, o prólogo de Virginia em “Orlando” é um agradecimento a autores que lhe inspiraram…

13612343_758409324261427_3971203317994069731_n

…e Dostoievski, começa assim, primeiro parágrafo de “Noites Brancas”:

“Era uma noite maravilhosa, uma dessas noites, amável leitor, que quiçá só exista em nossos anos jovens. O céu estava tão estrelado, tão iluminado, que olhando- o a pessoa não podia deixar de perguntar: mas é possível que baixo um céu como este possa viver tanta gente colérica e fútil?” (livre tradução)

E mais:  “O Buda dos Subúrbios”, de Hanif Kureishi, inglês de origem indiana. Esse não levarei para a praia, pois está autografado. Esse livro virou série, é bem famoso no Reino Unido.

“Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, tenho muita curiosidade para conhecer essa história de ficção científica, literatura fantástica, futurista de um país, Montag, onde é proibido ler.

“Histórias da Artámila”, de Ana Maria Matute. Essa autora faleceu há dois anos, eu tive a oportunidade de conhecê- la na última Feira do Livro que participou em Madri. É uma das grandes escritoras espanholas. Falo no presente, porque a literatura tem o poder de imortalizar. Na minha opinião, é o maior benefício que traz a literatura para o indivíduo: nunca ser esquecido; ou pelo menos, nunca ser esquecido por algumas décadas, já que muitos não conseguem ultrapassar os séculos. Pensa que ser Shakespeare ou Cervantes é pra muitos?!

Essa é a listinha que trouxe para passar as férias comigo. Gostou,  já leu algum?