Leitura Além das Leituras: A Decepção Com Um Escritor


Leitura Além das Leituras: A Decepção Com Um Escritor
Por Gerson de Almeida, colaborador.

É no mínimo curioso – por que não, engraçado? – como alguns escritores enganam e conseguem enganar turbas de gente com suposto elevado letramento e outros não conseguem sequer ser ouvidos. Marcelo Mirisola fica no primeiro grupo: como me enganei com esse cara. Vim a lê-lo depois de assistir o programa Metrópole no qual Manoel da Costa Pinto, crítico literário, apresentador e colunista da Folha de São Paulo, teceu loas à sua obra (duvide, duvide trinta vezes da palavra de um crítico que vende peixe na tevê e amendoim com casca no jornal). Como não conhecia o escriba, fiquei entusiasmadíssimo, depois de ver e ler várias entrevistas fui atrás da obra.

Comprei dois livros: O Homem da Quitinete de Marfim e O Azul do Filho Morto. Lendo o primeiro, livro de crônicas, descobri porque Mirisola tem tantos desafetos e tão poucos aliados, para não dizer nenhum. Embora ladra como pitbull, não passa de um pinscher esperando alguém bater o pé para correr com o rabo entre as pernas. Ri. Ri tanto que até esqueci que estava a ler crônicas às quais pouca relevância foi dada. O ataque a Caetano, Marisa Orth, Chico Buarque, Gil, Carlinhos Brown, desafetos reais e imaginários e aos escritores de todas as classes/épocas e tutti quanti, me divertiu. Divertiu tanto que faço releituras esporádicas, embora alguns textos de tão mal estruturados não consigam ficar de pé, caso lhes seja tirada alguma palavra. Quando fala de suas influências é sensato, aventando boas questões, porém no mesmo texto, às vezes no mesmo parágrafo, consegue inserir citações tão desconexas quanto descrever receitas de milk-shake preparadas por um aiatolá usando fio dental, nessas horas me sentia cego, surdo e mudo no meio do tiroteio.

 No segundo, o romance O Azul do Filho Morto, tomei um choque. Choque necessário para quebrar o gelo das apresentações, e o que se seguiu foi decepção ascensionária. Ora! Não vou negar que há algo a ser dito e há algo sendo dito, mas deveria ser daquele jeito? O livro se estrutura em cima da memória tanto do personagem como do mundo em volta, isso qualquer cachorro semialfabetizado saca na primeira página. Não sou conservador, não tenho religião, muito menos Ruy Barbosa na língua, nem tanto apego a pudores sufocantes, mas, mesmo nas mais perturbadoras situações, mantenho linguajar apreciável; o narrador/personagem d’O Azul é só palavrão. Desanca num xingatório que nem Robério de Ogum, nem Constantine, conseguiriam exorcizar-lhe a língua e limpar-lhe a alma (sem trocadilho).

Não li o livro com a pretensão de resenhá-lo, mas folheei antes de traçar estas linhas. Meus “comentários de rodapé” são sempre os mesmos: “o que é isso?” Três vezes, “onde queria ir?” Seis vezes, “chegou a algum lugar?” Quatro vezes, “que diabo é isso?” Doze vezes, “pra quê tanta baixaria?” Nove vezes, “por que tanto palavrão?” Treze vezes, “que porcaria/porra é essa?” Nove e seis vezes respectivamente, a última na última página. Se ler este parágrafo te surpreende amigo(a), me surpreendi mais comigo: terminei a leitura. Embora tenha visto algo de positivo, e direi no próximo parágrafo, mereço uma medalha, algum prêmio de consolação, por ter saído de uma leitura sem levar nada o que ostentar; pois com tanta coisa para ler, e minha fila só aumenta, doei boas horas às platitudes da literatice pretensa de alguém que não pretendia nada senão apenas gritar, pois mesmo a tal “denúncia da classe média burguesa” sai ilesa entre seus latidos. A certa altura pensei: “negão, é sério que você tá gostando disso? Hã?! Minta pra você, nunca pra mim”. Terminei a leitura por ofício de leitor.

 O que o livro tem de bom poderia ser melhor se tivesse linguagem mais polida, não que devesse ser límpida como água de beber, mas se não tivesse cinco, sete ou noventa palavrões por página, seria mais crível e mais cativante – e qual a finalidade dum personagem que mergulha no baú podre de suas memórias para fazer sexo oral em gargalo de garrafa quebrada ou azulejo quebrado, para masturbar um cachorro e esfaquear uma empregadinha estúpida? Uma coisa interessante, a única, é o fato de o narrador não deixar o leitor adivinhar o final do período, sempre faz a curva antes de ser surpreendido pelo leitor mais esperto. Isso eu adorei. Gosto de ver o jogo de gato e rato no texto, ainda que a sujeira incomode a sonoridade da narrativa.

Bem, Mirisola é fã declarado de Fante (1909 – 1983) – quem não é? –, alguns debiloides o comparam ao escritor americano e a seu compatriota Bukowski (1920 – 1994). Nada mais blasé do que ler procurando paralelos, ainda mais paralelos tão esdrúxulos e ofensivos. Analisados de perto, os dois americanos são ofendidos e têm sua linha inconfundível de cunho autobiográfico arrastada ao limbo pela linguagem rastaquera do escritor tupiniquim ou tupinambá. A mordacidade do humor de Fante não começava entre as pernas de uma prostituta para tombar às escadarias da igreja esperando socorro da “mama com um rosário na mão”. A acidez de Bukowski, junto com sua bebedeira, nunca o deixou perder a chama da sua narrativa na esquina do boulevard ou na leveza do voo baixo e inofensivo do seu pássaro. Mas as coisas são o que são e não como esperamos e desejamos. É assim. Me comprometi a não adentrar mais nem uma página de Mirisola, as crônicas e um romance foram satisfatórios (segundo o próprio autor O Azul é seu melhor livro e pelo qual espera ser lembrado… Não consigo imaginar o pior, e muito menos lerei o suficiente para conhecê-lo.). Ah, quase esqueci: li alguns contos seus soltos em blogs suspeitos. Como era de se esperar, nem contos eram. Eram qualquer coisa, contos nunca.

 No balcão-sebo do shopping tinha um feirão no Dia dos Namorados, tentei a sorte: há sempre ouro sob o lixão, ou pelo menos é possível esperar bom achado. Foi assim que Mirisola enterrou o pé no acelerador e desceu a ladeira na precariedade do meu conceito. Veja bem.

Acompanhei o tête-à-tête entre Mirisola X Ferréz e os manos do hip hop. O assunto é tão batido que não atinei se ainda vale a pena citar (a treta foi tão sinistra que Mirisola teve de se escafeder da Praça Roosevelt). No início achei que fosse birra de quem queria ser maior que o outro, gritar mais. Depois passei a achar que fosse a desdita da falta de espaço do primeiro pelo espaço dado por mídia e editoras ao segundo. Àquela tarde no balcão barulhento do shopping, descobri que não era nem A nem B. tinha três livros de Ferréz à venda: Deus Foi Almoçar, Manual Prático do Ódio e Capão Pecado; todos bem editados e bem impressos.

 Já tinha feito minhas aquisições, minha riqueza franciscana não permite altos voos e a literatura dita marginal, feita por Ferréz, não me interessa. Que custava pegar o livro, folhear um pouco? Peguei Deus Foi Almoçar… e o choque fez o barulho ao redor silenciar. Era literatura, cacete! Marginal, de cunho social, o caralho que fosse, era literatura pulsando naquele troço. Não havia nada gratuito, tudo tinha rumo e lugar na página, tinha uma sequência, havia um trilho e o escriba não ousava pensar ou chegar perto de descarrilar. Era seguro e sabia o que estava fazendo. Bem, estava explicado porque Mirisola não se bicava com Ferréz, este conseguiu o que ele vem tentando fazer há tempos: literatura livre da paupérrima intenção de chocar por chocar. Li 15 páginas e fiquei na comparação narrativa, no uso da linguística. O rapper/escritor provou que pode impactar pela integridade textual não só pela violência que habita suas páginas, pois parece saber que chocar por chocar a galinha choca todo dia sem saber por quê.

 Ferréz parece conhecer também, e mais ainda ter aplicado, o termo do Jacobino de Diamantina: ler é melhor do que escrever. Se vai escrever, primeiro tem de ler, ler, ler, ler, ler, ler, ler, ler, depois escrever, escrever, escrever, escrever, escrever e reescrever, reescrever, reescrever, reescrever e reescrever (por favor: não esqueçamos de viver! É perigoso, mas necessário.). Só a leitura pode fazer escrever melhor do que se pensa. Oh, não! Não! Tenham piedade: não sou fã de hip hop. Nem me interesso pelo estilo “use uma calça na qual cabem dois ou três com o seu físico”, essa é uma das vantagens de não ter mais 17 anos. Quem passou noites com os infernos psicológicos de Dostoiévski atormentando o sono não se deixa levar por quem rima “mano” com “humano” e vive a charlar “é nóis na fita!”, “nóis na quebrada” e similares. Depois que descobri que tinha e para que servia o cérebro, cerquei meu aprendizado de Cérberos, não é fácil penetrar o tenebroso labirinto das minhas ideias. Hoje, mais do que nunca, acho hip hop um bom jeito de se esquivar a fazer algo decente e contributivo para a cultura capenga dessa terra à qual Cabral se arrepende de ter chegado.

No mais, têm que haver leitura além das leituras, as entrelinhas estão ali a urgir noção e sentido. Agora que estou arrumando espaço nas duas estantes que insisto em chamar de biblioteca, vou trocar O Azul do Filho Morto no sebo, O Homem da Quitinete de Marfim vai ficar, afinal, foi o petardo corajoso a atirar pedras na cena cultural do país aculturado. Cada vez mais parece que o conselho da amiga, “leia os clássicos. Eles nunca enganam!”, está dissipando as nuvens sobre a face alva da Literatura. Mas… O que torna o livro um clássico?

Mote para o próximo texto.

3080874

Mirisola, Marcelo. O azul filho do morto, Editora 34, 2002. Páginas: 173

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12 Comments »

  1. Adorei o texto, a sinceridade sobre o escritor e o hip hop. São coisas que, ao menos eu, tenho vergonha de falar e de ser apedrejada, ou não ter argumentos suficientes para o óbvio. Acho que toda cultura tem seu valor no momento, mas há que se reconhecer o valor da obra que transcende tempo/espaço. Adorei!

      • Espero que eu não seja “a turba”, pois adorei o post e me identifiquei bastante. Só quis dizer que às vezes não adianta dar murro em ponto de faca. Eu pelo menos convivo com muitas pessoas que simplesmente não entendem e me pergunto se o desgaste é necessário. Poxa, fiquei triste.

      • Val, com certeza, a turba não é vc e não creio que faça parte dela. Entendi o que vc quis dizer e sei que não adianta mesmo esmurrar ponta de faca, a menos que se queira perder os punhos. De minha parte, pode espantar sua tristeza, pois não tem razão de ser. Abraços!!!!

  2. Gerson, vim de outra publicação – sobre as traduções de Ulisses – apenas para dizer que em Santo André (não sei de onde você é) – SP – tem a tradução do Houaiss na biblioteca municipal do paço, caso interesse ou caso um dia esteja pelas bandas de São Paulo, estou lendo, aliás. Acabei lendo também esse texto, claro, tão bom quanto. Gostei muito, caí de surpresa na página e me apaixonei. Belíssimo trabalho de todos!

    • Oi Letícia! Sou baiano, mas moro em Santa Catarina. Obrigado pelo apoio ao blog. É claro que adoraria desmistificar esse papo da melhor tradução e um vou conseguir rssrss, ao invés de reconhecerem o gênio do autor premiam quem rep

  3. Gerson, vim de outro post – sobre as traduções de Ulisses, apenas para dizer que em Santo André (não sei de onde você é) – SP – tem a tradução do Houaiss na biblioteca municipal do paço, caso interesse ou caso um dia esteja pelas bandas de São Paulo, estou lendo, aliás. Acabei lendo também esse texto, claro, tão bom quanto. Gostei muito, caí de surpresa na página e me apaixonei. Belíssimo trabalho de todos! (nossa, não sei se consegui mandar a mensagem, ignorem se ela for mais de uma vez).

    • oi Letícia! Sou baiano, mas moro em Santa Catarina. Obrigado pelo apoio ao blog.É claro que quero desmistificar esse papo da melhor tradução de Ulisses e vou conseguir rssrss, ao invés de reconhecerem o gênio do autor premiam quem repete suas palavras em outro idioma, nesse sentido o Brasil continua sendo um pavão com mais plumas do que a natureza dá. Abraços!!!

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