“Ebooqueiro”, o Calo no Pé do Livreiro, por Gerson de Almeida


Ebooqueiro, o Calo no Pé do Livreiro*

Meu amigo(a), nestas maltratadas e maltratadoras linhas, vou tentar ser rápido como o gosto do remédio amargo e eficaz como o ferro em brasa: você já leu um e-book, pêdêefe ou similar? (Tentei o digital, mas o troço não ia de jeito nenhum.) Por favor, não responda! Sua resposta, por mais educada que seja, será ofensa. Só perguntei por isto que você tem por educação e eu conheço por atalho às uvas.        

Uma sensação incômoda me surgiu depois de mandar Proust pro inferno (junto com Musil e pelos mesmos motivos. E acho Musil muuuuuito maior que Proust, constatei isto lendo umas 200 páginas d’O Homem Sem Qualidades num pêdêefe vergonhosamente mal digitado). Juro: não o desterrei pelo fato do narrador/personagem levar mais de trinta páginas para pegar no sono, eu sempre dormia antes dele, mas por respeito a uma das grandes obras da literatura universal. Em Busca do Tempo Perdido é demasiado exigente para que se leia nessa invenção do capeta chamada de livro-digital ou pêdêefe ou o que quer que se nomeiem essas plataformas; realmente não me interessa sabê-las. Estava lendo No Caminho de Swann quando decidi voltar às raízes. Leitura, pelo menos pra mim, não é apenas a visualização das letras, seu significado e a contação da história a ser lida; é também o contado físico: mãos e livro.

O Quarteto de Ouro do romance moderno no século passado: Marcel Proust (1871 – 1922), Robert Musil (1880 – 1942), James Joyce (1882 – 1941), Franz Kafka (1883 – 1924), isso já é alardeado a quatro ventos. Não merecem tratamento reverente? Deveriam ser proibidos de serem lançados em e-book ou serem digitalizados nesse pêdêefes que contém tanto erro quanto um discurso de improviso da ex-presidente. É ofensa gritante ter a linguagem refinada do nojento Proust tão aviltada pela má digitação. A digitalização d’O Homem Sem Qualidades dispensa comentários… Um horror! Kafka não vi ainda, senão em papel impresso. Joyce… não consigo imaginar. Tem que ter muita vontade de conflitar a tradição com a indecência pra pôr águias perdidas entre pardais na precariedade duma aquarela.

 Sei que os escritores precisam vender seus textos como os peixeiros precisam vender seus peixes, eviscerados ou não, mas desde que não estejam moídos (podres). Sei também que as editoras precisam inovar, precisam acompanhar o mercado e a evolução das plataformas de mídia e divulgação, porém precisam aviltar a nobre arte?

Lembro da participação de Vargas Llosa no Roda Viva comentando os livros digitais: “não me dá gana de lê-los”, completou dizendo que suas obras não sairiam em edições digitais (obrigado amigo). Llosa é um dinossauro, salientou a paixão pelo livro impresso, o contato direto com o autor e sua obra. A edição digital pode evoluir em mil maneiras, mas nunca reproduzirá o júbilo desse simples contato dos dedos ávidos do leitor com as páginas onde estão as palavras e as emoções descritas pelo gênio do autor. Querer tirar isso que às vezes é único vínculo capaz de fazer com que ao ler um autor de quatro ou cinco séculos passados possamos estar com ele em sua jornada, não pode ser visto com bons olhos.

 Creio profundamente que o livro digital atrai o leitor raso e espanta a socos e pontapés o leitor apaixonado, o antigo que andava com livro debaixo do braço e sentava no banco da praça, do metrô ou à beira da praia, para seus instantes de longa viagem. Sou como tio Borges: “sou capaz de conceber um mundo sem pássaros e sem águas, mas sou incapaz de imaginar um mundo sem livros”. Livro digital? Nem a pau! Que me interessa a comodidade, o armazenamento? Que me importa a fácil mobilidade disso ou daquilo? Eu sou da velha guarda, não consigo pensar num livro sem vê-lo, senti-lo em minhas mãos, dobrando página a página, a deslizar por minhas retinas. Há cheiro nas páginas impressas, e nenhum leitor pode senti-lo pela tela do ipad, iphone, notebook e outras invenções ameaçadoras; que ninguém tente me convencer do contrário.

 Eu sou um dinossauro, um poço fundo de preconceitos, é duro admitir. Há alguns dos quais já tentei me livrar, porém já estou com a conta das primaveras avançada, não dá pra “concertar” o que não tem “concerto”. Vou sair da vida para entrar na história carregando minha capanga de chatices e excentricidades como alguns vão bater, em vão, à porta do céu com suas malas cheias de virtudes e pérfidas consciências socioculturais. Que Deus me favoreça, afinal, Ele também tem paixão pelas letras.

 A única leitura em pêdêefe que completei me causou horror tão profundo que tive medo de não conseguir ler nem a bula do analgésico que tive que usar por dias a fio (lembra dessa, né Fernanda?). Quando uma amiga me ofertou Os Cossacos de Tolstoi em pêdêefe, sem pestanejar cortei relações por um mês. Voltamos às boas marés, acho que entendeu bem o recado: me deu um livro de ensaios de Canetti de presente. Sem-vergonha, sabe como comprar amizade.

Tem mais! Já cansei de me repetir, não sei se para meu convencimento ou para convenção alheia, mas repito uma vez mais: hei de escrever um livro. Ah, sim! Nem que tenha de assistir Ana Maria Braga pelo resto dos meus dias, e copiar aquelas receitas com cheiro de náusea e dor de barriga, para lançar um livro de receitas de empadinhas. Sucesso ou não, ninguém o terá em edição digital. Nunca permitirei a traição da tradição. Tudo pelo simples fato de que caso o leitor queira atear fogo ou atirar o dito-cujo na minha cara, seu prejuízo seja o menor possível: não perde notebook, Iphone ou Ipad e além dos mais adoraria ter minhas próprias palavras atiradas à minha cara, sob excelência de prelo e impressão, a qualquer invenção que a novidade ultrajante da tecnologia possa oferecer.

Gerson de Almeida


 *A opinião do colaborador não é exatamente a minha. Amigo Gerson, vou te “ofender” respondendo: apesar de preferir os livros em papel, acho os e-books uma alternativa genial. A existência de plataformas digitais facilitam a compra de livros sem pagar frete (internacional então, um abuso!), são mais baratos e ecológicos, mais leves, podemos ler no escuro, os e- readers são fáceis de transportar, principalmente em viagens e têm um poder de armazenamento muito bom. É verdade que há PDFs gratuitos de péssima qualidade, mas também há muitos e-books idênticos aos livros de papel lançados por editoras grandes e que garantem qualidade. Acho que as duas versões podem conviver sem trazer prejuízos a ninguém. (Fernanda Sampaio)