Eu, Miller e a Inutilidade da Crítica, por Gerson de Almeida


Leia sobre  o passeio de Gerson de Almeida em um sebo que costuma frequentar. Deu pano pra manga!


Sábado passado fui passar algumas horas no sebo, como faço sempre que posso (me pergunto em vão: quando não posso?). Na estante da literatura brasileira, a maior do sebo, a primeira no caminho às estantes de literatura estrangeira, história, filosofia e sociologia, tava uma mistura digna do inferno que se tornou a literatura hoje: até gibis estavam misturados aos romancistas tupiniquins. Tá tudo no mesmo nível, inclusive com as revistas de animi japonesas – outra desgraça.

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 Passei direto e fui pro fundão. A funcionária, Bel, já é íntima minha e sempre conversamos, pergunto o que tem de bom e escuto com riso: tudo que você diz não prestar! Mentira. Nunca disse isso, e ainda que dissesse não mereceria ouvidos. Tinha algumas pessoas ocupando o canto onde sento com um banquinho para matutar minhas estroinices, esse canto fica perto do computador onde Bel faz baixas e entradas no arquivo do sebo. Aí… Uma menina veio pedir “o livro daquela mulher que estava no Jô semana passada” (sei que “o livro daquela mulher…”, não ajuda muito, né? Mas evito falar o nome desse povo, é sério, começo a ter urticárias com sua conversa sobre “isso e aquilo” na literatura adolescente, formação do jovem leitor e conjunturas que fazem dos bêbados no frege-moscas legisladores da Roma Antiga), e “falou sobre seu novo lançamento”. Como não conheço a autora, sua obra, e não sou funcionário do sebo, escutei e continuei calado com Trópico de Câncer de Henry Miller nas mãos.

A jovem rodou, rodou e voltou perguntado por John “não sei das quantas”, com Fim de Fernanda Torres nas mãos, dizendo que sua irmã lera o exemplar da biblioteca municipal (pensei em cancelar minha licença para empréstimos de livros, juro) e tinha gostado muito do livro. Bel me olhou, riu e disse, é muito bom não é Gerson (lembrando-se da tarde em que me deixou ler um seminovo do petardo de Fernanda)?, ri também e assenti. O que mais podia fazer?

Voltando pra casa naquela tarde fria de outono pensaria na frieza da crítica, seus ataques, e no efeito que ela tem sobre a derme do tecido/texto criticado: nenhum. Definitivamente nenhum! Dúvidas? Qual escritor brasileiro mais tripudiado desde as tabuletas de barro à invenção de Gutenberg? Exato: Paul Rabbit. Que adiantou? Nada! Nunca adiantará nada. Rabbit continuará o mais lido, o mais vendido e o mais reverenciado escritor brazuca – sim: remando contra todas as vontades – do fim de século passado ao início deste que inaugura o Apocalipse da literatura no Brasil (Rabbit é hoje o escritor brasileiro mais lido e traduzido em todo o mundo, superando com extrema facilidade Jorge (des)Amado, aquele xarope mais stalinista que Stalin). Porém, não foi para dizer obviedades que tracei minhas linhas, tudo isso vocês estão cansados de saber e já não atiram pedras, tomates ou ovos em protesto. Eu sei, eu sei, é tudo vão.

É por muito crer na força da literatura que não acredito que uma crítica negativa venha coibir o leitor da delícia ou sevícia de determinado livro, do mesmo modo que não creio que a crítica positiva atraia leitores – essas são tão nefastas quanto as negativas. O leitor primeiro lê por lazer/prazer/informação, depois deve ler por acurácia de julgamento e justeza de conceitos, o resto é preenchimento de protocolo e vaidade. É assim que sinto o poder da crítica: nulo. Nunca deixei de ler um livro por ter lido críticas negativas, como também nunca li algum baseado em críticas positivas e, Deus me livre!, nunca tive a pretensão de que alguém deixasse de ler um livro por eu ter lhe baixado o cacete. No máximo a resenha deve servir de cone na pista acidentada: alerta (ou caricatura da banalidade).

E vem outra questão: a crítica acadêmica, qual seu valor/poder? Nenhum! Hoje menos que uma resenha de blog (não tô puxando brasa pra sardinha do FL, quem tem blog, ou colabora em algum, sabe disso). Em nossos dias quem pode muito, e ao mesmo tempo pode nada, é a resenha. O boca a boca faz mais pela literatura do que se imagina, ou, em contrapartida, iludido, faz mais pelo seu declínio artístico; mais até do que as editoras ao publicarem obras de tão baixo valor literário – propagar má literatura é crime para o qual não há pena, eis porque os complexos penitenciários ainda não entraram em colapso –, como vocês podem ver ou lembrar por suas andanças em feiras literárias e livrarias. Sempre acreditei que a boa literatura prevalece. Hoje, confesso, tenho minhas dúvidas. A questão requer considerações razoáveis, há várias e variáveis, respondo conforme minha crença.

Primeiro:

Quem lê a crítica acadêmica não é o leitor comum – eu, você, sua avó, sua tia, seus primos e Zé da Venda –, é um círculo mais fechado que rabo de bandido acuado em fuga, só eles sabem do que falam e como falam e porque falam. A linguagem da crítica acadêmica é tão empolada que, se não existisse o Tio Google, facilmente acreditaríamos em nova reforma ortográfica.

Segundo:

Quando foi que a crítica acadêmica, sei lá, dos últimos 30, 40 ou 50 anos, apontou o norte ao qual nossa jangada, a fazer água, pudesse seguir em segurança? Vejam quem são os premiados com bolsas da Petrobras e Jabuti’s da vida, vejam a lista dos escritores brasileiros nas feiras do livro de Frankfurt e Paris; tá tudo dominado. Como disse D2 “os cães ladram, mas a caravana não para”, sabem quem são os cães e quem faz parte da caravana, não sabem? Não adianta tirar as ferraduras, não adianta pôr pedras no caminho, aliás, não adianta pôr pregos no caminho, a caravana da decadência é irrefreável.

Àquela tarde, ainda peguei uma antologia de contos para folhear… Não riam: correu lágrimas nos olhos (a menina, que não mais largou o exemplar de Fernanda Torres, deve ter achado que meus olhos marejaram por ter visto, bem estampada no alto da estante, a capa dum livro onde uma jovem ria com tubos enfiados em suas narinas. Henry Miller se debatia no meu sovaco suado, triste e frio).

Como um editor, que deve ser um sujeito apaixonado por literatura, como pela própria esposa – se tiver! O que tem de sacana fugindo do sexo oposto, como o capeta foge da cruz, dá pra encher 50 Maracanãs –, põe nas prateleiras uma desgraça daquelas? Não vou comentar o nome aqui, mesmo porque, além de não ter meus escritos em alta conta, se me sobrasse algum nos bolso, estaria a estampar aquelas folhas de batata assada e ainda muito quentes.

Sempre deixei claro meu desejo de fazer literatura, embora, de vez em quando, pense em virar açougueiro ou montar uma banquinha de churros ou churrasquinho (… de gato! A vizinhança está cheia deles); mas, nessas horas confesso a pouca fé. Fazer literatura hoje equivale ao trabalho do beija-flor naquela parábola-clichê – se não a conhecem não me esperem repeti-la – tentando apagar o incêndio na floresta: faz por amor e fé em algo maior.

Voltei com Miller pra casa. Miller e eu. Dois nefastos a desafiar o Outono sob o casaco gelado. Pensei se poderia dizer algo contundente à jovem leitora, não! Não poderia. Divertido seria se ela me dissesse: Miller é um bosta!, com intenção de me fazer declinar da leitura. Não conseguiria efeito algum, mas denotaria a ousadia do ataque e coragem na tomada de posição, tudo que forma o discernimento da opinião dum leitor. Ela notou bem o meu olhar. Com certeza, se não àquele momento, algum dia passará pelo que passei naquela tarde que já irá longe na caravana que não parou e nem pediu passagem à validade da existência. O passado conforta, não porque inabalável, mas por ser silencioso e impassível; afinal, todos sabem que a literatura, tal como a música e muitas outras expressões da alma humana, é uma arte ingrata.


O texto acima é do colaborador Gerson de Almeida. Respeito totalmente a sua opinião, mas creio que a crítica acadêmica é de suma importância. Por si, já é um objeto de conhecimento, além de interpretar, classificar e analisar, entre outros, com bases científicas, comparativistas/dialéticas os materiais literários. É uma fonte de conhecimento, onde deve beber quem pretende compreender a literatura mais a sério, profundamente e com fundamentos teóricos.

A linguagem do blog é mais acessível para que qualquer leitor possa entender. É uma crítica informal também importante, porque aponta direções e populariza a literatura clássica, mas não tem e nunca terá (?) o mesmo status e importância que a crítica formal.

Respeito profundamente a Crítica e todo o seu trabalho de seleção e teorização em cima da arte literária.

Gerson, os quadrinhos, mangás e animes são muito legais, viu?! Ganharam dimensão acadêmica, estão super bem feitos e cuidados, tanto literariamente quanto graficamente.

(Fernanda Sampaio)