Primeiro vídeo no Canal Falando em Literatura!


O poeta Alejandro Panés e sua máquina de escrever na Feira do Livro de Madri 2016. Ele escreveu um poema para o Falando em Literatura em apenas 3 minutos. Eu dei o tema: “Falando em literatura…literatura salva?”.

O vídeo está sem editar. Falar a verdade, não tenho muita paciência, minhas tentativas de edição não ficaram legais, fora os problemas técnicos. No próximo, tentarei algo mais bacaninha. Mas chega de desculpas, não é? Assim ou nunca começo.

Se vocês quiserem que eu continue postando vídeos, eu continuo, senão ficaremos só aqui no blog mesmo.  Dá muito trabalho fazer pra ninguém ver.

Veja como o poeta pensa rápido no meio de muita gente e barulho.

Leonardo pertence ao grupo Momento Verso de Madrid. Você dá o tema e eles o poema.

O poema saiu muito bom! Ativem as legendas. Espero que gostem!

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Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus


Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122

5 de junho: aniversário de 118 anos de Federico García Lorca


Um dos maiores escritores da língua espanhola, Federico García Lorca (Fuentevaqueros, 05/06/1898 – Víznar, 19/08/1936), poeta e dramaturgo, completa hoje 118 anos de nascimento. Formado em Letras e Direito, mudou de Granada para Madri onde conheceu inúmeros intelectuais.

Viajou para Nova York e Cuba, voltou em 1936 para a sua cidade natal, onde foi preso e fuzilado, dizem, pelos seus ideais liberais. 

Lorca era homossexual. A Espanha vivia uma ditadura, os gays não “existiam”. O escritor era um insulto à moral e aos bons costumes, fora seus ideais políticos. Foi eliminado.

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Na foto acima, Lorca aos 18 anos com Salvador Dalí que tinha 24. Eles eram muito mais que amigos, mas comenta- se que não foi um amor consumado. (Será?! Eu acho que foi sim). Tudo indica que Dalí era homossexual, mas nunca assumiu publicamente, então, oficialmente, o romance nunca foi assumido. A foto desprende intimidade, não?

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No livro “Querido Salvador, Querido Lorquito”, do jornalista Víctor Fernández, reúne cartas de Dalí a Lorca com conteúdo apaixonado, beirando o erótico. Ambos tinham relacionamento com outras mulheres para dissimular.

A opção sexual dos artistas influenciou nas suas obras? Sim, por isso comento.

Leia os poemas de García Lorca (em espanhol). E- book grátis!

Deixo a dica de um filme que conta a história dos artistas com protagonista famoso, Robert Pattinson:

É nosso aniversário: oito anos falando sobre boa literatura!


Quem me avisou hoje foi o WordPress:

wordpress

Nesse mundo virtual tão volátil, onde tudo dura pouco, orgulho- me em celebrar 8 anos no ar! E sem apelação, sem best- sellers, sem mentiras, aqui realmente os livros são lidos, não lemos apenas sinopses ou Wikipédia. Infelizmente, nem todo mundo leva a literatura a sério nesse meio virtual, tanto em blogs, no YouTube e nas redes sociais, muitos estão apenas para conquistar seguidores e faturar com isso. Contudo, até isso eu vejo positivamente. Melhor falar de livros, mesmo que superficialmente, sem propriedade nenhuma, do que de outras coisas ruins, não?

Fico feliz sim, quando um post tem muitas visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, mas a opinião alheia não é o que me motiva. No fundo, eu faço por mim mesma. Esse é o meu diário de leituras, a minha memória. Eu amo os livros, a literatura. Além disso, é a minha profissão. Eu tenho que viver no mundo das Letras para ser feliz. É um estilo de vida, independe de números, dinheiro, muito menos fama. É só amor. Amor não se explica.

Eu vou “comemorar” dividindo minha última leitura poética, que me rompeu por dentro, Drummond me faz chorar de beleza.

Essa semana achei umas coisas bacanas em um sebo ao lado da minha casa. Um dos livros é uma coletânea de Carlos Drummond de Andrade com seus mais lindos poemas. É uma edição argentina de 1978, bilingue espanhol- português. Chama assim “Amar- amargo y otros poemas”, com o “Soneto da esperança perdida” (belíssimo, primeiro verso “Perdi o bonde e a esperança”), “Mãos dadas” ( Adoro: “Não serei poeta de um mundo caduco”), “O lutador” (“Lutar com palavras/É a luta mais vã”), enfim, a mais bela coletânea que achei até agora.

Vou deixar aqui um fragmento de “Nosso tempo”, que é do livro “A rosa do povo” de 1945, mas que poderia ter sido escrito hoje para a atual situação política do Brasil, cai como uma luva:

I

Este é tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha- se em pó numa rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve- se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor do meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar- me
a cidade dos homens completos

Calo- me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam sentido, apenas querem explodir.

IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele e a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

Agradeço a todos vocês que nos acompanham há tantos anos e também aos novos leitores/blogueiros que estão conhecendo o Falando agora. Fico feliz em conhecer tanta gente na mesma onda.

Muita coisa aconteceu nesses anos todos, nem dá pra contar tudo. Mas o saldo é muito positivo. E continuamos…

Um abraço a todos!

Fernanda Sampaio