Resenha: “A queda”, de Albert Camus


 “A queda” (1956), do francês Albert Camus, pegou- me logo por causa da primeira frase do livro:

Posso oferecer- lhe os meus serviços, meu caro senhor, sem me tornar inoportuno? (p.7)

Um livro que começa dessa forma para mim é irresistível. Aliás, esse tipo de livro é o que gosto: o que faz pensar, que te faz construir e desconstruir, que lê o nosso pensamento mais íntimo, que diz sem dizer, que oculta nas entrelinhas o essencial. Enfim, um livro que vale a pena!

Papo de bar. O personagem pega alguém para iniciar uma conversa em um bar no porto de  Amsterdã chamado “México City”. O narrador- personagem, Jean Baptiste Clemente, formado em Direito, é “juiz- penitente” (ele explica o que vem a ser essa profissão). Dirige- se a um “senhor” com o questionamento citado e que despertou a curiosidade dessa leitora. Nesse “diálogo” só ouvimos uma voz, não sabemos nada do que o outro responde, fica o enigma. Esse é um dos elementos de um bom livro: a surpresa, a novidade, a sensação agradável de nunca ter lido nada parecido  e de não conseguir adivinhar o que vem depois. Isso é difícil, dificílimo em literatura, já que tudo é cópia da cópia da cópia,- ainda mais agora, a era da facilidade, da rapidez e do descartável.

A obra é curta (85 páginas), mas não é “rápida”. Exige atenção, tudo é importante, se pular uma linha vai fazer falta depois. Não salte parágrafos, muito menos páginas. Abaixo, um trechinho dos muitos que destaquei (p.16):

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E nesse “diálogo”, o narrador vai dizendo quem é e do que gosta sem dar a chance do outro adivinhar. Assim vamos desencapando o personagem. Sabemos que é um homem de meia idade, frequentador dos bares do porto, que já foi bem sucedido, mas que por algum motivo (que vamos descobrindo) abandonou a vida anterior. Mora no bairro judeu na pós- guerra, depois de Hitler quase arrasar com tudo.

Quando você lê o título, o que lhe vem à cabeça? A queda de alguém poderoso e que perdeu tudo? “A queda” (1958) em questão é outra, muito mais profunda e interessante. Romance escrito por um filósofo foge de superficialidades e obviedades, ele mergulhou fundo nas questões. Camus recriou em forma de ficção, o seu pensamento filosófico acerca do homem. É como se fossem exemplos,  a materialização das suas ideias.

O narrador começa a dar a nota sobre algumas cidades europeias. Veja a crítica apimentada sobre Paris, a sua terra natal (igual que a do seu interlocutor mudo):

(…) Paris é uma autêntica ilusão de ótica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de siluetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação.  (…) Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. (…) (p.9)

Jean conta sobre o seu passado, sua vida plena e feliz. Ele adorava ajudar os demais, sentia- se bem com isso, recompensado; era equilibrado, boa saúde, bom corpo, belo, honesto, bem conceituado, era respeitado. Fazia tudo o que esperavam dele. Um cidadão modelo. Considerava- se um sujeito de sorte, no entanto, queria sempre mais e mais. “Cada alegria fazia- me desejar outra” (p.21).

Algo aconteceu em uma noite de outono perto do Sena, em Paris, e tudo mudou. Esse dia ficou marcado: o início da sua queda. O homem cheio de virtudes ajudava os demais por vaidade. Ele conseguia enganar a sociedade, os amigos e clientes, no entanto, o auto- engano é mais complicado:

(…) Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia a meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo. (p.32)

O personagem começa a desvendar- se. Na verdade, o que sentia pelo outro e a sua dor, suas dificuldades, não lhe importavam muito. Jean era superficial, esquecia rápido, não se envolvia de fato com ninguém. A sua reputação é o que importava. Fazer o correto com uma intenção ruim tira o mérito?

Jean Baptiste esquecia até de quem o ofendia, não porque era bom ou perdoava, simplesmente os esquecia, não lhes importava. Ele era completamente egocêntrico:

(…) Nunca me lembrei senão de mim mesmo. (p.33)

A memória, a consciência naquela noite voltou. E conviver com as próprias verdades pode ser algo bem perigo, muitas vezes, até mortal. Começou a relembrar acontecimentos e viu que algumas de suas reações eram por pura covardia e não bondade. Uma farsa.

(…) Que importa, não é assim, humilhar o próprio espírito se desse modo se consegue dominar o mundo inteiro? (p.36)

A natureza foi generosa com Jean Baptiste. Era bonito e tinha facilidade com as mulheres, mas amou verdadeiramente uma só mulher durante toda a sua vida. Antes ele buscava “objetos de prazer e conquista”, mas com essa mulher ele passou a ser o “objeto”:

O verdadeiro amor é excecional, dois ou três em cada século, mais ou menos. O resto do tempo, há a vaidade ou o tédio. (p.37)

A pior forma de amor? Essa (p.39):

(…) Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: ‘Não me ames e sê- me fiel!’

O livro é muito intenso, todos os parágrafos são interessantes, um livro inteiro “sublinhável”.

Uma das histórias que ele contou (páginas 43 e 44) mostra que ele realmente não tinha uma essência nobre,  ele só ajudava se houvesse “plateia”, se pudesse ser reconhecido. Você conhece alguém assim?

A conversa sai de passeio, sai do bar, os dois homens (que a essas alturas já desconfio que não são dois mesmo, será ele e sua consciência?) caminham até a casa de Jean. No dia seguinte vão para a ilha de Marken para ver o Zuiderzee, que é um golfo, uma ilha de pescadores quase desértica, pitoresca, “Uma aldeia de bonecas, não acha?” (p. 45). O protagonista diz que vai mostrar o que realmente há de importante ali.

Comenta sobre o suicídio, já teve pensamentos nesse sentido:

(…) Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas com a nossa morte. Enquanto vivos,  nosso caso é duvidoso, não temos direto senão ao ceticismo. (p.46)

Conclui que os suicidas, muitas vezes, abandonam a vida como meio de punição ao outro. No entanto, nem com a morte isso acontece, porque a faculdade de esquecimento do homem é muito forte. A pessoa perde a vida e o outro vai continuar, sem mais. O suicídio não é efetivo como vingança ou castigo.

Diz que as pessoas estão prontas e dispostas sempre para duas coisas: julgar e fornicar. (p.48)

Também conta que uma das maiores ofensas às pessoas, algo que realmente as incomoda é a felicidade e o sucesso (p. 49):

(…) Mas para ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As alternativas, contudo, ficam dessa forma limitadas. Feliz e condenado, ou absolvido e desgraçado. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado de felicidades antigas.”

Que tristeza, não? Quem nunca teve essa necessidade de esconder felicidades para não despertar invejas? Repare em “gente- corvo”, que te abraça num momento de infelicidade com um dissimulado sorrisinho nos lábios, sente- se bem com a desgraça alheia, numa falsa atitude de bondade. Fuja!

A lucidez em Camus é como farol que ilumina. Alguns chamam até de pessimismo. Eu chamo de “verdade”. Todos querem ser inocentes, mas ninguém é. Veja isso:

Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam- se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, o que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.

Eu disse que era um livro profundo. E “sufoca”, fica mais intenso ainda a partir da página 50. Se eu for destacar tudo, vou acabar escrevendo o livro inteiro aqui. Eu acho que a filosofia ensina mais e descreve melhor o homem do que qualquer outra disciplina.

Desse livro ficam mais perguntas que respostas: o homem é tão desvirtuoso por causa da sociedade que criou e suas exigências ou é próprio da natureza humana, independente da época e local? E sim: o homem é mais que imperfeito. Quem leva a vida a sério sofre.

Quase todo mundo leva uma vida dupla: o que se é (ou pensa ser) e a que se mostra ao outro.

O tempo. Nos ensinaram a correr desde cedo. A maioria corre por medo de não conseguir realizar tudo o que se pretende ou sonha. Aí vem o pensamento da morte que fica cravado em quem tem a consciência do fim.

Todo o processo de perda, a queda do personagem, tem um objetivo final, que é desprender- se de todas as convenções e amarras em busca da liberdade.

Com isso fabrico um retrato que é de todos e de ninguém. (…) Mas, ao mesmo tempo, o retrato o retrato que apresento aos meus contemporâneos torna- se um espelho. (p.81)

Só no final que você vai descobrir realmente quem é o interlocutor. E se você ler só a última página não vai entender nada, vai ter mesmo que passar por todo o processo que eu passei.


Albert Camus (Mondovi, Argélia, 07/11/1913- Villeblevin, França, 04/01/1960), jornalista, doutor em Filosofia, romancista, ensaísta, dramaturgo e militante político da Resistência Francesa, que lutava contra o nazismo. Ganhou o Nobel de Literatura em 1957. Em 1943, Camus passou três dias em São Paulo. Sofria de tuberculose. A doença atrapalhou bastante a sua carreira acadêmica, não pode ser professor. Morreu cedo, aos 46 anos, em um acidente de carro. O escritor checo Jan Zabrana (1931-1984) afirmou em seu diário, que o acidente foi proposital,  foi assassinado pelo governo russo.

albert-camusTuberculoso e fumante. Difícil achar uma foto de Albert Camus que não esteja com um cigarro na boca.


A edição lida é da portuguesa “Livros do Brasil”, que pertence a Porto Editora. Aproveito para deixar o link de uma das páginas da editora com vocabulário e dicionário da língua portuguesa, que você pode consultar online, Espaço da Língua Portuguesa, clique aqui.

Esse livro é daqueles que eu gostaria de ter escrito, está na linha de Sartre e Dostóievski, humanista.  Recomendadíssimo, coloque na sua lista!

40072-c3bdcfdab21a44ecacc48275daab2aa6Camus, Albert. A queda. Livros do Brasil, Porto, 2015. 85 páginas

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