Resenha de filme: “O Tempo Não Para”, a história de Cazuza


Uma análise comparada da vida do cantor Cazuza e do nosso colaborador Gerson de Almeida. Embora eu, Fernanda Sampaio, ache que a pobre da mãe não tenha nenhuma culpa, veja o que ele pensa:

Cazuza – De Filho a Filho

       Tem filmes que não valem a pena ter na videoteca (já é questionável a validade da mesma), isso explica minha caixa com dezenas de piratations aguardando destino. Essa semana decidi dar rota de fuga a todos, ou pelo menos a alguns. Para isso resolvi assistir alguns destes “alguns”, antes de dispensá-los à fatuidade da lixeira.

   Dentro da malfadada caixa tinha d’Os Goonies e Highlander a Cazuza – O Tempo Não Para e O Último Americano Virgem; única comédia adolescente que termina com final infeliz, por quê?

      A cinebiografia do cantor carioca lembro de ter assistido no cinema. Lembro também das lágrimas desventuradas lavando os assentos e, à saída da sessão, mais choro e brados de que “o poeta (poeta? Não seria o caso de letrista excepcional, acima da média, e outras classes menos apaixonadas? É possível colocá-lo ao lado de Drummond, do carrancudo João Cabral? O desgraçado que concordar com essa possibilidade estapafúrdia deve ser privado da faculdade de ver. Afinal, a pureza da água não pode aceitar o peso gorduroso do óleo) era insuperável”, “insubstituível (quem não é insubstituível?)” e muchas cositas mas. Passei por insensível, hoje me sinto até melhor do que àquela oportunidade.

      Desde aquele dia minha impressão não mudou. Pelo contrário: piora a cada vez que assisto o filme. À falta do que fazer e à preguiça de procurar, atribuo o fato de aturar a chatice desbundada de Cazuza. Mas essa vez foi a última. Que ele, Agenor Araújo de Miranda Neto, era talentosíssimo, que seu desregramento impôs valores à sua arte, maneira de compor, quem pode negar? O que tenho de birra com o filme, ou com o próprio cantor, vou falar na qualidade do que ele foi e que eu ainda sou: filho.

     Quem assistiu o filme talvez, embasbacado com a “rebeldia do cantor”, tenha deixado passar em branco – ou até mesmo o status de estrela tenha feito o público elevar a prerrogativa de “posso tudo! Estou acima de bem e de mal!” – a cena que me chocou de profundis: sua mãe encontra entre suas roupas uma paranga de maconha e joga no vaso sanitário, ao descobrir que perdeu sua ração diária de cigarrinhos do capeta… Cazuza manda a mãe tomar no cu! Juro: escutei gargalhadas, aplausos, me senti um estranho por ter vergonha.

       Imaginei se ela desse um soco… Não! Um tapa, pois como disse Nelson Rodrigues, “um tapa humilha muito mais do que 100 murros!”, porque é notória a culpa da mãe no fim da picada que se tornou a educação daquele infeliz. Se ela lhe estremecesse os dentes bem ali, talvez não tivesse o fim que teve, ou talvez isso não passe de exagero meu (o que é mais provável).

       Se aquilo é ser rebelde, agradeço a Não Sei Quê ou Quem, por ter sido um adolescente idiota, um jovem apático e ser o adulto retrógrado e caretão que agora escreve estas linhas tortuosas. E essa tal rebeldia? Tenho amigos muito mais rebeldes, um deles conseguiu que todos os alunos da tarde no colégio (cerca de 800 sem-vergonhas) tivessem que ser liberados por suspeita de bomba (serve de paralelo, trocar tiros em brigas de gangues e aleijar o oponente?). Sim: estou falando dos famigerados anos 90. Este mesmo amigo, só de ouvir falar o nome da mãe tremia nas bases, acho que por isso nunca foi caguetado sobre o “atentado ao bebedor” e o “telefonema terrorista” (e é hoje excelente pai). Duvido, aposto minha vida nisso, que ele, ou qualquer outro do nosso círculo de perdidos, pensaria em mandar a mãe tomar no cu fosse pelo que fosse, aliás, nem pensaríamos em ter razão para tanto. Eu sou a prova viva da imponência do respeito que se deve ter à mãe. Repare.

       Há alguns anos, já passava dos 20 e todos e fazia 2 anos que não dava as caras na casa de mamis, voltei de férias ao doce aconchego do doce lar. De chegada a Santa Madre decidiu fazer moqueca de polvo, disse “vá no mercadinho, compre: ‘isso, isso, isso, e o coentro.”, lembrei muito bem do “isso, isso, isso” e esqueci do coentro. Detalhe: antes de sair à rua do esquecimento, ela disse, “porque não anota pra não esquecer?”, eu esquecer? Acabei de cruzar o país. Nunca anotaria um pedido desses. Voltei sem o coentro. Mamis perguntou pelo coentro, com ar de riso, pois comentou que dispensei a anotação, ao que respondi “ah! Depois eu compro!”, e abri a geladeira, enquanto ela continuou de costas na bancada da pia preparando outros temperos. Ao passar próximo a ela, em distância ao alcance de sua mão, recebi o tapa, com as costas da mão, que faz minha omoplata doer até hoje. O que fiz de errado? Não, não foi esquecer o bendito coentro. Foi o “ah!” da resposta, o “depois eu compro” não foi descortês. Segundo sua justificativa à interrogação do estapeado o “ah!” soou desrespeitoso. “Eu sou sua mãe. Não esqueça disso: eu sou sua mãe!”, disse; saí e fui comprar o coentro.

        Dezoito dias depois (detalhe: o incidente foi no segundo dia, após 2 anos fora de casa), voltei à Santa Catarina sabendo que ainda tinha mãe, não importava a idade que minha carranca ostentasse.

    Volto a Cazuza. Se queriam santificá-lo, como se já não estivesse no altar e fosse santo inconteste, poderiam ter aliviado. Se assim o fizeram, que peçam a canonização e pronto, mas a minha anuência, por mais dispensável e desprezível que seja no referido caso, não terão! Quem trata a mãe tal qual uma cadela, não merece respeito, muito menos dividir com o vira-lata famulento a dormida sob a marquise de praça qualquer.

      Muito se fala do “espírito indomável do artista”, do “não sei que bosta do artista”, todo emaranhado de facetas a deixar o sujeito pintar e bordar sem freios e sem receios. Nada pode refrear o gênio, tudo pela arte. A educação permissiva gerou isso. Quem acha que essa barbárie vem dos 90 para os 2000 está enredado na doçura do engano carinhoso. Essa porra vem de muito mais longe.

   Se alguém achar que exagero, que olhe em volta na sua própria família: tem um vagabundo rindo das tradições familiares que levaram séculos para se enraizarem. Meu falecido avô dizia que um pouco de medo fazia das crianças bons adultos no futuro, se as medidas desse medo eram boas palmadas… Estava mais do que certo. Sua pedagogia não cometeu erros. Com nosso “poeta” ocorreu o contrário: seus pais o temiam.

      Ilustro: na época da infância de mamis, a carinhosa que quase me deslocou a omoplata, não tinha água encanada na Gamboa. A roupa era lavada na Fonte do Angelim. Meu avô tinha uma mula, Loteria, levava as filhas montadas e trazia os barris com água de beber no fim da tarde. Minha mãe conta que um dia, depois de lavar roupa o dia todo, escutando algumas senhoras cantando sambas de roda mais antigos que os rascunhos do Antigo Testamento, decorou a estrofe de um deles. Na volta pra casa, quando Loteria tinha acabado de subir a ladeira que dava ao Outeiro, deu vontade de cantar e cantou: “onde vai o valente? Na linha de frente! onde vai o valente? Na linha de frente! na linha de frente, oh, na linha de frente! onde vai o valente?”. Bem, meu avô ia na frente segurando o cabresto de Loteria, logo: era o valente.

    Ao entrar em casa e estender a roupa, tomar banho o Velho pegou o cipó caboclo, segurou-a pelo braço e perguntou: “quem é o valente? Quem é o valente, filha da mãe?! Você não me respeita?”, minha mãe diz que pelo olhar decidido, o mesmo olhar que o Velho lançou por cima do ombro quando começou a cantarolar na subida da ladeira, não tinha alma no mundo que a livrasse daquela surra. Aliás, tanto a salvação da sua alma e a permanência dela no seu corpo, dependiam daquela surra. Ela tomou direitinho… E não morreu! Sou a prova. Eu, minha irmã, minha filha e o filho da minha irmã, a genealogia segue.

         Apesar de saber que meu avô estava errado, pois minha mãe sustenta até hoje que cantou por cantar, ela mesma reconhece que não caiu bem seu canto por causa da posição em que seu pai se encontrava. Sustenta que “educação com beijo, abraço e queijo só produz coalhada”, como os pais de Cazuza descobriram, só que tarde, muito tarde.

caz

 

 

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2 Comments »

  1. Não sei a quantos anos atrás escreveste isto.
    Mas foi adorável de ler! Pensei que fosse a única no mundo que achava esse filme uma tremenda bosta.
    E é lindo o carinho que você expressa por sua familia no texto adorei os exemplos super compatível com toda a história , mostrando os dois lados da situação.
    Pena que pessoas assim como você não viram lenda.
    Só esses podres que morrem de overdose ou de doenças adiquiridas de orgias infinitas.
    :/
    Abraços,
    Catarine Sousa

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