Resenha: “Miséria e Grandeza do Amor de Benedita”, de João Ubaldo Ribeiro


Por Gerson de Almeida

    Numa dessas tardes frescas de início de outono, peguei um livro para ler. A ideia é que fosse um livreco, não por se tratar de quem o escreveu – João Ubaldo Ribeiro (1941 – 2014) –, mas pela pouca repercussão que teve, e tem!, dentro do conjunto de sua vasta obra. Tredo engano. Miséria e Grandeza do Amor de Benedita é um livraço, em vários sentidos.

       “Já entrando em anos, mas ainda com vigor de mocidade, seria mesmo Deoquinha Jegue Ruço, de pia Deoclécio Pimentel, que, arroxeado e nu por baixo de um lençol amarfanhado, agora jazia defunto, no obscuro leito de uma casinha de porta e janela, na Gameleira? (pág. 09)”, com um defunto – morto na cama da amante, como saberemos linhas à frente, como sempre desejou morrer: em ação –, nosso narrador começa a contar a história de Deoquinha Jegue Ruço, personagem que carrega, e traz à narrativa, uma rede de personagens só possível na cabeça de João Ubaldo (ou na Ilha de Itaparica mesmo), ou a alguém com sua competência… Ou seja: ninguém!

         Da morte de Deoquinha, a notícia voa às línguas e chega ao ouvido do irmão de sua comborça, Lourival Divino Beiço. Este engole três copos de cachaça e o narrador mergulha em sua memória a contar a vida pregressa do ilustre corre-freguesia – jazendo teso e frio na cama da rapariga. Tudo muito simples, não é? Eis a troça de Ubaldo. Deoquinha é uma espécie de coronel, da época em que o dinheiro trazia a patente, tem todos os motivos para ser odiado e temido: cheio de filhos, prestígio, dinheiro e amantes, mui bem casado com Benedita – bela, casta e submissa (seria “do lar”, hoje. feministas adoram esse bate-boca). Com sutileza o narrador mergulha na memória de Lourival, desta à de Deoquinha e assim por diante, dando piruetas cheias de sal, sol e brejeirice de uma época em que valia a pena narrá-la. Quando o leitor dá por si, está no final do livro sem saber como chegou, mas imensamente rejubilado por ter percorrido tão fortuita peripécia. A língua coça para entregar o final, mas o cinismo de João não me permite. Vou respeitar. Quem quiser que leia: a morte às vezes nos poupa de coisa pior (como gargalhei no final).

        O pouco que conheço da obra de João Ubaldo me leva a afastá-lo de seu amigo, e suposto mentor, Jorge Amado (1912 – 2001), que não passava de entregador de paçoca. A semelhança entre os dois se esfacela na tentativa de ligá-los para além do fato de serem baianos. Tudo entre os dois, a meu ver, para por aí. E fico com Ubaldo. Por quê? Sua preocupação mais com o jeito de contar do que com a história que conta. João, às vezes pode-se notar isso, não está nem aí pros personagem, cuidado mesmo só com a linguagem. Essa percepção é traiçoeira, pois cada personagem é calcado milimetricamente. Ninguém fala demais, ninguém fala de menos.

         A linguagem reina e flui numa cadência raras vezes vista e quase nunca tão bem orquestrada. Quando se percebe isso no corpo do texto, estrutura e história tomam dimensões discrepantes, não menos atraentes, como se a história viesse a ser contada a partir de entidades distantes do centro de onde nascem os personagens. A memória de cada figura surge à necessidade de buscar algo no passado, mais distante ou mais próximo, segundo o comando de um narrador impecavelmente lúcido e descaradamente engraçado. Algo fora de sério, se tratando de alguém que parecia tão carrancudo.

        A primeira coisa que salta aos olhos é o jeito largo e verborrágico do texto de Ubaldo. Longuíssimos períodos, com vírgulas a dar o tom, toda zorra gramatical – pontuação, sintaxe, regências e outros aparatos do cão – dominada pelo adestrador de verbos irregulares e palavras que insistem não figurar dicionários, tudo muito bem calcado e escrito com a fineza dum mestre no auge do domínio de sua arte. Lê-se coisa do tipo:

“Combate este que nem a inderrotável pena de Carneiro Ribeiro, itaparicano que mostrou a Ruy Barbosa seu lugar e lhe deu baile no correto português, acharia como fazer a narração, porque não há verbo que descreva, substantivo que nomeie, adjetivo que faça justiça, advérbio que socorra ou interjeição que esteja à altura, nem na nossa língua que é a mais rica, nem nas outras, que já são amarradinhas pela própria natureza do gringo, que entende de petróleo, de viagem à Lua e de cérebros eletrônicos, mas não sabe conversar tão bem quanto o brasileiro, não havendo um só exemplo aqui na ilha, morando ou de passagem. (pág. 77)”.

       Talvez essa seja a herança dos tantos sermões, do Padre Antônio Vieira (e, se você já leu os Sermões do Padre, fica ainda mais nítida sua influência na obra ubaldiana), copiados em sua época de castigos escolares e corretivos aplicados pelo pai, como costumava explicar quando perguntado sobre suas influências na escrita. E escolhi justamente este trecho porque expõe duas características da narrativa: o período longo e personagens históricos. Carneiro Ribeiro não conheci, mas sei que era nome de um colégio que, após anos abandonado pelo descaso de governantes mequetrefes, foi reformado e transformado em mercado de variedades. Não lembro se ainda leva o mesmo nome. Porém a lenda da querela entre Carneiro Ribeiro e Ruy Barbosa já fez sopa na pátina dos séculos: todo itaparicano conhece essa história em mais de uma versão. Há até “a piada do bípede”, a qual escutei algumas vezes e não lembro por completo, fazendo referência à erudição de Ruy Barbosa.

         Depois de saracotear na história do município e de seus munícipes, era hora de entregar o morto aos mortos. Lourival se refaz à morte do cunhado “não-cunhado”, e espera o desenrolar dos acontecimentos à chegada da viúva. Pouco se fala da amante, por ser mais uma das tantas que Deoquinha tinha de ponta a ponta da Ilha.

         Não sei onde começa a ficção ou onde termina a realidade. Os nomes dos personagens, vários e aparecendo um a quase certo número de parágrafos, não são de minha época – estudei em Itaparica e concluí o 2º grau no Colégio que leva o nome do autor –, mas pude identificar dois que conheci: René de Dida “suíço arquibiliardário que veio passar um dia na ilha e hoje tem pavor de botar os pés fora daqui (pág. 106)”. René, cujo sobrenome desconheço, era um gringo muito conhecido por ser espécie de empresário Casanova na Ilha de Itaparica, um bon vivant que, depois de ter provado desde moquecas e a “radioatividade” solar itaparicana, fincou os pés nas havaianas e nunca mais saiu de lá (morreu há alguns anos). E o papel de René no desenrolar da história tem importância equivalente à do defunto Deoquinha Jegue Ruço, até mais caso se permita dúvida.

       Ficou conhecido por “de Dida” por ter se casado com Dida, “a melhor, mais admirada, mais gostosona, mais elegante, mais chique, mais inteligente, mais bela e mais cobiçada mulher de todo o Recôncavo e, se fosse divulgada, de todo o Brasil, negra lindíssima, a rainha de Sabá encarnada. (pág. 107)”, afirma nosso narrador tão inflamado que levantaria suspeitas nos mais insuspeitos. Sim: tudo que se disse relativo à Dida é verdade. Era comentada nos quatro cantos da ilha. Mulheres se contorciam de raiva e inveja, homens se esgueiravam para vê-la de biquíni na praia. Como o próprio narrador comenta “(…) aqui na ilha, doloroso é reconhecer, não tinha talher para Dida, só um suíço arquibiliardário e cheio de charmosidades como René (pág. 107)”.

         Àquele tempo era possível sustentar tais afirmações, hoje pareceriam delírios de alguém que acabou de fugir da camisa de força. Dida não é nem um terço da rainha que um dia fora. Sim, ainda conserva algo de majestade, foi-se a beleza, ficou o ar de princesa, mas tão dacaída que plebeus são capazes de cruzar oceanos a nado para fugir-lhes os caprichos. Só pra se ter ideia dois amigos meus, durangos e de pés rachados, foram seus namorados (creiam: amo meus amigos, mas para namorar qualquer daqueles dois, o filme tem que estar mais ou menos como o da Presidanta. Outro dia estava com meu pai e ela passou com umas amigas, cumprimentou-o, depois perguntei: “quem é aquela, Velho?”, respondeu sem pestanejar, “era Dida”, o “era” foi tão triste quanto sua constatação.). Miséria e Grandeza do Amor de Benedita relata, com humor, a decadência insuspeitada de uma ilha que não existe mais, feita por pessoas que custamos a crer que não existiram, mas, se existiram, podemos crer na fidelidade do retrato a elas dado por João Ubaldo. O mais fiel retratista da vida na ilha.

        É com pesar que encerro estas linhas, pois imagino o quanto se deveria valorizar a prosa de João Ubaldo em toda sua vitalidade. Ninguém fez mais por cada grão de areia, siri, caranguejo e aratu no mangue; nenhuma personalidade de renome insistiu tanto pela conservação das tradições ilhoas, ninguém amou mais aquele recanto de mar e sal do que Ubaldo ou como ele amou. Para se ter ideia, quando ainda estava cursando o 2º grau, ele visitou a escola que anos antes fora nomeada em sua homenagem. A prof.ª de português perguntou aos alunos de 1º, 2º e 3º anos, quem já tinha lido alguma obra do escritor… Fomos todos à biblioteca para o bate-papo sem poder fazer perguntas pertinentes relativas à sua obra. Esse descaso vem de muito tempo, pois se as novas gerações estavam nessa canoa, significa que outros saveiros já tinham afundado… E a ilha segue junto, não sabendo reconhecer os valores genuínos de sua terra.

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Ribeiro, João Ubaldo. Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 2000. 134 páginas

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