Bob Dylan completa 75 anos


Bob Dylan – A Pedra continua Rolando

Por Gerson de Almeida

       No próximo dia 24 de maio, o garoto rebelde que havia saído de Duluth, em Minnesota, impressionado com a música de  Woody Guthrie, e batizado de Robert Allen Zimmerman, completa 75 anos de muito rock ‘n’ roll e longevas contribuições para música universal.

bob-dylan-001Bob Dylan

         Ainda no ensino secundário o jovem Robert mostrou interesse e talento para música, mas foi quando ingressou na faculdade de Minnesota que a inclinação musical se acentuou. O jovem praticamente não saía do quarto, lendo e escutando todo disco que podia tomar emprestado – alguns dos quais não devolvia a seus donos –, círculo de amizades diminuiu até a decisão de abandonar a faculdade. Partiu para Nova York na crença de viver de, e fazer música e na esperança de conhecer Woody Guthrie, que padecia do mal de Huntington num leito de hospital.

       Uma vez no “Ventre da Besta”, estabelece contato com as figuras do circuito folk e começa a tocar em bares e clubes do Greenwich Village. Tudo passava circuito de Greenwich, como constatou em suas primeiras incursões.

       Conheço gente que acredita piamente que Bob Dylan não tirou seu “Dylan” do poeta galês Dylan Thomas (1914 – 1953), mas sim o contrário. Se bem que a questão, como o próprio explicou em entrevista, foi sonoridade: “Bob Zimmerman soava longo e pesado”, e “Bob Dylan era menos sincrético”.

         Em 1962, o jovem, baixote e desgrenhado, lança Bob Dylan, álbum com uma ou outra canção de sua autoria, e revisões de clássicos do folk americano que dominou as primeiras décadas do século passado. Em 1963 lança The Freewheelin’ Bob Dylan 100% autoral e que deu a tônica de seu passo nos tumultuados anos 60. Depois seguiram-se discos antológicos The Times They Are A-Changin’ (1964), Another Side Of Bob Dylan (1964), Bringing It All Back Home (1965), Highway Revisited (1965), Blonde On Blonde (1966), este último meu favorito e, não minha opinião, disco no qual assumia o posto que lhe fora dado há tempos: porta voz de sua geração.

       Livros e livros encheram prateleiras assentando pesquisas sobre sua vida e obra, mas No Direction Home, originalmente lançada em 1986 e relançada em 2010, de Robert Shelton (1926 – 1995), com autorização e contribuição do mesmo Dylan sempre avesso e esquivo, ríspido e imprevisível em suas fugas, pode vir a perder o posto para sua autobiografia: Cronicles – Volume One (Crônicas – Volume Um; Ed. Planeta, 2005), pela qual fazemos fila à espera dos volumes subsequentes. O resultado é a melhor e mais abrangente biografia escrita sobre sua vida e obra, além do excelente documentário No Direction Home dirigido por Martin Scorsese, fã de carteirinha.

       É quase impossível – acho realmente impossível! – apontar direção em que o alcance de sua influência não tenha mirado e atingido bem no alvo. A trajetória de Dylan é a história de um poeta com um violão, a do músico com uma caneta, nascido e renascido vezes a fio, que “morreu” diversas “mortes” e ainda assim continuou a viver. É a história do herói que não queria ser herói, pois negou o próprio heroísmo, do criador que se voltou contra os excessos do que ajudou a criar. Sua vida é uma longeva música cheia de tons que destruiu os mitos e ajudou a embalar os sonhos e pesadelos de uma geração, e ele chega para festejar seu ajuntamento de décadas ativo e pronto para a nota mais alta que ainda está por vir.