Resenha: “A queda”, de Albert Camus


 “A queda” (1956), do francês Albert Camus, pegou- me logo por causa da primeira frase do livro:

Posso oferecer- lhe os meus serviços, meu caro senhor, sem me tornar inoportuno? (p.7)

Um livro que começa dessa forma para mim é irresistível. Aliás, esse tipo de livro é o que gosto: o que faz pensar, que te faz construir e desconstruir, que lê o nosso pensamento mais íntimo, que diz sem dizer, que oculta nas entrelinhas o essencial. Enfim, um livro que vale a pena!

Papo de bar. O personagem pega alguém para iniciar uma conversa em um bar no porto de  Amsterdã chamado “México City”. O narrador- personagem, Jean Baptiste Clemente, formado em Direito, é “juiz- penitente” (ele explica o que vem a ser essa profissão). Dirige- se a um “senhor” com o questionamento citado e que despertou a curiosidade dessa leitora. Nesse “diálogo” só ouvimos uma voz, não sabemos nada do que o outro responde, fica o enigma. Esse é um dos elementos de um bom livro: a surpresa, a novidade, a sensação agradável de nunca ter lido nada parecido  e de não conseguir adivinhar o que vem depois. Isso é difícil, dificílimo em literatura, já que tudo é cópia da cópia da cópia,- ainda mais agora, a era da facilidade, da rapidez e do descartável.

A obra é curta (85 páginas), mas não é “rápida”. Exige atenção, tudo é importante, se pular uma linha vai fazer falta depois. Não salte parágrafos, muito menos páginas. Abaixo, um trechinho dos muitos que destaquei (p.16):

111

E nesse “diálogo”, o narrador vai dizendo quem é e do que gosta sem dar a chance do outro adivinhar. Assim vamos desencapando o personagem. Sabemos que é um homem de meia idade, frequentador dos bares do porto, que já foi bem sucedido, mas que por algum motivo (que vamos descobrindo) abandonou a vida anterior. Mora no bairro judeu na pós- guerra, depois de Hitler quase arrasar com tudo.

Quando você lê o título, o que lhe vem à cabeça? A queda de alguém poderoso e que perdeu tudo? “A queda” (1958) em questão é outra, muito mais profunda e interessante. Romance escrito por um filósofo foge de superficialidades e obviedades, ele mergulhou fundo nas questões. Camus recriou em forma de ficção, o seu pensamento filosófico acerca do homem. É como se fossem exemplos,  a materialização das suas ideias.

O narrador começa a dar a nota sobre algumas cidades europeias. Veja a crítica apimentada sobre Paris, a sua terra natal (igual que a do seu interlocutor mudo):

(…) Paris é uma autêntica ilusão de ótica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de siluetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação.  (…) Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. (…) (p.9)

Jean conta sobre o seu passado, sua vida plena e feliz. Ele adorava ajudar os demais, sentia- se bem com isso, recompensado; era equilibrado, boa saúde, bom corpo, belo, honesto, bem conceituado, era respeitado. Fazia tudo o que esperavam dele. Um cidadão modelo. Considerava- se um sujeito de sorte, no entanto, queria sempre mais e mais. “Cada alegria fazia- me desejar outra” (p.21).

Algo aconteceu em uma noite de outono perto do Sena, em Paris, e tudo mudou. Esse dia ficou marcado: o início da sua queda. O homem cheio de virtudes ajudava os demais por vaidade. Ele conseguia enganar a sociedade, os amigos e clientes, no entanto, o auto- engano é mais complicado:

(…) Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia a meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo. (p.32)

O personagem começa a desvendar- se. Na verdade, o que sentia pelo outro e a sua dor, suas dificuldades, não lhe importavam muito. Jean era superficial, esquecia rápido, não se envolvia de fato com ninguém. A sua reputação é o que importava. Fazer o correto com uma intenção ruim tira o mérito?

Jean Baptiste esquecia até de quem o ofendia, não porque era bom ou perdoava, simplesmente os esquecia, não lhes importava. Ele era completamente egocêntrico:

(…) Nunca me lembrei senão de mim mesmo. (p.33)

A memória, a consciência naquela noite voltou. E conviver com as próprias verdades pode ser algo bem perigo, muitas vezes, até mortal. Começou a relembrar acontecimentos e viu que algumas de suas reações eram por pura covardia e não bondade. Uma farsa.

(…) Que importa, não é assim, humilhar o próprio espírito se desse modo se consegue dominar o mundo inteiro? (p.36)

A natureza foi generosa com Jean Baptiste. Era bonito e tinha facilidade com as mulheres, mas amou verdadeiramente uma só mulher durante toda a sua vida. Antes ele buscava “objetos de prazer e conquista”, mas com essa mulher ele passou a ser o “objeto”:

O verdadeiro amor é excecional, dois ou três em cada século, mais ou menos. O resto do tempo, há a vaidade ou o tédio. (p.37)

A pior forma de amor? Essa (p.39):

(…) Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: ‘Não me ames e sê- me fiel!’

O livro é muito intenso, todos os parágrafos são interessantes, um livro inteiro “sublinhável”.

Uma das histórias que ele contou (páginas 43 e 44) mostra que ele realmente não tinha uma essência nobre,  ele só ajudava se houvesse “plateia”, se pudesse ser reconhecido. Você conhece alguém assim?

A conversa sai de passeio, sai do bar, os dois homens (que a essas alturas já desconfio que não são dois mesmo, será ele e sua consciência?) caminham até a casa de Jean. No dia seguinte vão para a ilha de Marken para ver o Zuiderzee, que é um golfo, uma ilha de pescadores quase desértica, pitoresca, “Uma aldeia de bonecas, não acha?” (p. 45). O protagonista diz que vai mostrar o que realmente há de importante ali.

Comenta sobre o suicídio, já teve pensamentos nesse sentido:

(…) Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas com a nossa morte. Enquanto vivos,  nosso caso é duvidoso, não temos direto senão ao ceticismo. (p.46)

Conclui que os suicidas, muitas vezes, abandonam a vida como meio de punição ao outro. No entanto, nem com a morte isso acontece, porque a faculdade de esquecimento do homem é muito forte. A pessoa perde a vida e o outro vai continuar, sem mais. O suicídio não é efetivo como vingança ou castigo.

Diz que as pessoas estão prontas e dispostas sempre para duas coisas: julgar e fornicar. (p.48)

Também conta que uma das maiores ofensas às pessoas, algo que realmente as incomoda é a felicidade e o sucesso (p. 49):

(…) Mas para ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As alternativas, contudo, ficam dessa forma limitadas. Feliz e condenado, ou absolvido e desgraçado. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado de felicidades antigas.”

Que tristeza, não? Quem nunca teve essa necessidade de esconder felicidades para não despertar invejas? Repare em “gente- corvo”, que te abraça num momento de infelicidade com um dissimulado sorrisinho nos lábios, sente- se bem com a desgraça alheia, numa falsa atitude de bondade. Fuja!

A lucidez em Camus é como farol que ilumina. Alguns chamam até de pessimismo. Eu chamo de “verdade”. Todos querem ser inocentes, mas ninguém é. Veja isso:

Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam- se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, o que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.

Eu disse que era um livro profundo. E “sufoca”, fica mais intenso ainda a partir da página 50. Se eu for destacar tudo, vou acabar escrevendo o livro inteiro aqui. Eu acho que a filosofia ensina mais e descreve melhor o homem do que qualquer outra disciplina.

Desse livro ficam mais perguntas que respostas: o homem é tão desvirtuoso por causa da sociedade que criou e suas exigências ou é próprio da natureza humana, independente da época e local? E sim: o homem é mais que imperfeito. Quem leva a vida a sério sofre.

Quase todo mundo leva uma vida dupla: o que se é (ou pensa ser) e a que se mostra ao outro.

O tempo. Nos ensinaram a correr desde cedo. A maioria corre por medo de não conseguir realizar tudo o que se pretende ou sonha. Aí vem o pensamento da morte que fica cravado em quem tem a consciência do fim.

Todo o processo de perda, a queda do personagem, tem um objetivo final, que é desprender- se de todas as convenções e amarras em busca da liberdade.

Com isso fabrico um retrato que é de todos e de ninguém. (…) Mas, ao mesmo tempo, o retrato o retrato que apresento aos meus contemporâneos torna- se um espelho. (p.81)

Só no final que você vai descobrir realmente quem é o interlocutor. E se você ler só a última página não vai entender nada, vai ter mesmo que passar por todo o processo que eu passei.


Albert Camus (Mondovi, Argélia, 07/11/1913- Villeblevin, França, 04/01/1960), jornalista, doutor em Filosofia, romancista, ensaísta, dramaturgo e militante político da Resistência Francesa, que lutava contra o nazismo. Ganhou o Nobel de Literatura em 1957. Em 1943, Camus passou três dias em São Paulo. Sofria de tuberculose. A doença atrapalhou bastante a sua carreira acadêmica, não pode ser professor. Morreu cedo, aos 46 anos, em um acidente de carro. O escritor checo Jan Zabrana (1931-1984) afirmou em seu diário, que o acidente foi proposital,  foi assassinado pelo governo russo.

albert-camusTuberculoso e fumante. Difícil achar uma foto de Albert Camus que não esteja com um cigarro na boca.


A edição lida é da portuguesa “Livros do Brasil”, que pertence a Porto Editora. Aproveito para deixar o link de uma das páginas da editora com vocabulário e dicionário da língua portuguesa, que você pode consultar online, Espaço da Língua Portuguesa, clique aqui.

Esse livro é daqueles que eu gostaria de ter escrito, está na linha de Sartre e Dostóievski, humanista.  Recomendadíssimo, coloque na sua lista!

40072-c3bdcfdab21a44ecacc48275daab2aa6Camus, Albert. A queda. Livros do Brasil, Porto, 2015. 85 páginas

Anúncios

Você sabe o que é “Borderline”?


“Borderline” é uma doença mental que muitas vezes é confundida com depressão ou síndrome bipolar.  A doença deixa a pessoa sempre no limite para o bem ou mal.  Acho interessante esse assunto e deixo aqui um release com uma dica de livro (ficção) que aborda o assunto:

Nas fronteiras de Alice, livro escrito por Marcelo Siqueira, discute como é possível reencontrar o amor, transcendendo questões como idade, doenças mentais e ética

Com mais de 80 mil fãs no Facebook, o livro Nas fronteiras de Alice do autor Marcelo Nogueira já é um sucesso. A obra aborda os complexos temas do transtorno de personalidade e do adultério entre um professor e uma aluna, porém mantendo a narrativa repleta de amor e suspense.

Nas Fronteiras de Alice é um romance contemporâneo, narrado como um flashback da vida do protagonista Yuri – um renomado professor de História de 40 anos de idade e filho de um desaparecido político durante a ditadura militar brasileira.

Casado e passando por um momento de reflexão na vida, Yuri conhece Alice durante um Simpósio em Porto Alegre. A jovem estudante de Literatura, possui uma personalidade plural e inconstante, além de uma beleza única.

“Não existia mais nada naquele instante, não havia cenário, personagens, contexto. Existia apenas aquela menina, aquela menina de saia xadrez que me deixou sólido, sem ar e suspenso da realidade que me rodeava. […] Era ela. Pequena, magra, de pele alva e de andar flutuante. Seus olhos levemente puxados, as maçãs do rosto elevadas que se harmonizavam com seu pequeno nariz um pouco adunco. Tinha uma boca desenhada com lábios vermelhos convi­dativos. Emoldurando esse exótico rosto de princesa de revista em quadrinhos, cabelos negros, lisos, mas com algumas ondula­ções, que cobriam sua nuca e mal chegavam a seus ombros.” (p. 33)

Com um jeito sincero, divertido e irônico, e também com um certo ar de mistério e tristeza no olhar, Alice conquista Yuri e os dois iniciam um romance inesperado de intensa entrega. Nesse relacionamento, cada um será exposto às suas fraquezas e desejos mais íntimos, provocando comentários e incompreensões de pessoas próximas, principalmente na questão das múltiplas personalidades.

“– Mas você não precisa ter medo de mim – disse quase triste.
– Eu não tenho medo de você – falei firmemente. – Conte-me mais.
– A Síndrome de Borderline afeta muito a vida social das pessoas, pois as dificulta em seus relacionamentos. Temos oscila­ções de humor e somos muito impulsivas, às vezes, tornamo-nos agressivas. Nós nos irritamos facilmente e perdemos o interesse rapidamente, por isso que não conseguimos manter amizades e relacionamentos por muito tempo e até mesmo” (p. 222)

Por ser um relacionamento proibido, ambos sofrerão as consequências das decisões tomadas. Nas Fronteiras de Alice é uma história de encontros, escolhas e descobertas. Divertida em alguns momentos e intensa em outros. A narrativa transmite para o leitor sensações de nostalgia, erotismo, paixão e cumplicidade, sendo a primeira parte de uma trilogia.

Capa_Nas fronteiras de Alice_V7

Sobre o autor: Marcelo N. Siqueira é professor, arquivista, historiador e paleógrafo. Possui diversas publicações acadêmicas, mas este é seu romance de estreia, fruto de suas observações e vivências ao longo dos últimos anos. Sua paixão por literatura e música, sobretudo o jazz, é percebida ao longo de suas narrativas. Nas redes sociais, possui mais de cem mil seguidores, principalmente na fanpage de Nas fronteiras de Alice, que, em menos de seis meses, já atingiu a marca de dez milhões de visualizações. Marcelo é carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio de Janeiro.

(Texto fornecido pela editora)

“O amor assim, cura tudo”, uma análise do conto”Substância”, de Guimarães Rosa


Por Rômulo Pessanha

Essência

O texto que segue é sobre um pouco de brincadeira e diversão sobre Substância, conto que integra Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa.

primeiras-estorias

Ah, o amor! Ai dessas claridades que nos deixam vislumbrar caminhos invisíveis. A pergunta essencial: você emitiu sua luz? Ou será quando toda luz que vem do alto se mistura com a que vem de dentro?

Ao brilharmos viemos ao mundo ou, nos dando a luz, nossa mãe, nascemos? A luz é a nossa mãe iluminada, luz pura das épocas do amor. Quando os pássaros sobejam no céu é porque os rebuliços na terra sucedem aos amantes e só beijam querendo voar os sentimentos que os namorados abraçam com todo olhar, amor é amar e amar é luzir.

Ah, o mês das noivas, dos apaixonantes apaixonados. É a riqueza mais viva que a vida assim é o amor quando ao nosso se junta mais, número infinito, o verdadeiro amor, a bem querência nossa e a da pessoa que amamos. Diria até ser primavera, mas todas as cores se perdem nos olhos dela, que é a mais bela, na fruta doce da vida, esperando por nós ser colhida, para cearmos da farta ceia o amor, nossa colheita que nada ceifa a não ser o amor, que nem perece até mesmo quando a dor nos enegrece e amarga a vida, porém a calmaria vem, pois tudo é certo: se há noite no dia quando tristes, dia virá para nossa noite, pois felizes estaremos. As coisas são assim eternamente intercalações. E se amor é eterno é só porque está em algum lugar dentro entre os corações.

Os três personagens Sionésio, Maria Exita e Nhatiaga caminham num palco iluminado do quê mesmo? Talvez pela sua própria existência e cada um executa o seu papel. Sionésio duvida, faz questões, se pergunta e se interroga, exita? Maria Exita não exita, responde logo e desconcerta e faz perceber que ela já sabia das intenções de Sionésio. Olhos firmes no trabalho que é sustento, fonte e luz para vida.

O amor pega Sionésio de jeito de forma tal que se o amor o incomodava, ao final, juntou-se a ele, e, perto, aconchegou-se: será? Será que Maria Exita sabia mesmo das intenções de seu patrão Sionésio?

Ah, todo amor tem sua luz, e toda vida seu amor para quem quiser experimentar seu lume. Amar no debaixo do ouro quente do meio-dia e encima da prata refletora do amido é como ter na mente a imagem de uma jóia viva: quando percebemos o amor não apaga sua luz dentro de nós e queremos apenas viver assim quando mesmo até dizemos perecer dela, em verdade vivemos dela e por ela, para ela, as portentosas luminosidades de amar, é alvo que não se apaga.

O pó nos lembra vida, quanto a morte nem nada é, e sendo menos que possibilidade de fato, ela, a de todos certa sorte, nem existe. A energia do amor contida ali nos luzentes: a amada e o amante. Mexendo e tornando pó a energia pura e verde da vida da planta da vida, a energia do amor armazenada e dispendida: quanto mais amor mais acúmulo de energia. Fartura em nós é o alimento do estado de graça, transcendências de nossas humanas sensações. O amor assim, cura tudo. A vida é para a vida toda? Exita nem pisca responde: claro que é, é claro que eu quero. Parece irreflexão responder assim tão rápido ou foi demorada a pergunta? O amor é um espelho em que a gente nem se vê direito o que a gente é, o que gente foi e nem o como a gente está.

O amor é afetuoso raciocínio e por isso a tal vez chega na hora de se pensamor nos raciocínios dos coraçãomentes modos de ver as coisas. Apaixonar e amar é nossa condição, somos do amor a sub instância em forma viva e pensante que igual ao sentimento não sabe ponderá-lo nem dizê-lo apenas se vive e se ama: você me quer? E como resposta: por demais da conta e para até nos depois de sempre. O lugar principal de nossa existência é o amor e seu palco é todo iluminado: o amor é o lugar que une os que amam. É algo que atua em nós de modo brusco, supetão, subitamente enquanto interpretamos nos palcos da vida seu significado intentando significá-lo e dar-lhe consistência.

Assim é quando amamos, ficamos percebendo e padecendo a luz do outro, um ponto num tempo infinito que percorre todos os caminhos de nossa existência e nos faz querer ter para nós somente aquele luminar de olhos que se remexem ao nos ver e a gente vendo assim, ficamos a brotar amor, nos fazendo estremecer, fazem nossos pássaros brilharem, e todo nosso ser voar pelos ares, todos percebem a festa e o sagrado do momento: joguem arroz!, joguem o pó!, trabalhem!, festejem! E mais a Nhatiaga servindo ali de vigia, para tornar abençoado o sagrado do momento. Enfim, ao final podemos dizer: se um dia estive aceso foi só porque amei alguém e esse alguém que amei me deu essa sua luz que entreguei novamente em forma de amor. E assim sendo, dois, que se amam para sempre muito, e para muitos e para todos o amor é a substância essencial de um ato para além das cortinas que se fecham ante o palco que aplaude.

Rio de Janeiro, Capital, 22 de Maio de 2016.

 

 

Antonio Colinas ganha o Prêmio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana


O Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana é o maior prêmio de poesia de língua espanhola, mas que inclui também poetas que escrevem em língua portuguesa, inclusive foram premiados João Cabral, Nuno Júdice e Sophia de Mello.

Esse ano levou o poeta espanhol Antonio Colinas (León, 1946). Além de escrever poesia, ele também é narrador, ensaísta, tradutor e crítico literário. É casado, tem dois filhos e mora em Salamanca.

Quanto à poesia, ele fusiona lugares, experiência, sensações. Estão marcados nos seus versos os lugares que viveu.

Veja a lista de vencedores do Prêmio Rainha Sofia (do El País):

1992 Gonzalo Rojas (Chile)

1993 Claudio Rodríguez (España)

1994 João Cabral de Melo Neto (Brasil)

1995 José Hierro (España)

1996 Ángel González (España)

1997 Álvaro Mutis (Colombia)

1998 José Ángel Valente (España)

1999 Mario Benedetti (Uruguay)

2000 Pere Gimferrer (España)

2001 Nicanor Parra (Chile)

2002 José Antonio Muñoz Rojas (España)

2003 Sophia de Mello Breyner (Portugal)

2004 José Manuel Caballero Bonald (España)

2005 Juan Gelman (Argentina)

2006 Antonio Gamoneda (España)

2007 Blanca Varela (Perú)

2008 Pablo García Baena (España)

2009 José Emilio Pacheco (México)

2010 Francisco Brines (España)

2011 Fina García Marruz (Cuba)

2012 Ernesto Cardenal (Nicaragua)

2013 Nuno Júdice (Portugal)

2014 María Victoria Atencia (España)

2015 Ida Vitale (Uruguay)

2016 Antonio Colinas (España)

Eu conheci Antonio Colinas pessoalmente em 2014. Muito simpático, conversamos sobre literatura, “o que você está esperando para começar a escrever?”- disse. Foi o conselho que trouxe comigo e que preciso executar.

A sua obra é extensa, a última foi “Canciones para una música silente”, o meu livro com dedicatória:

13220857_609738925848338_6015285626246863592_n

Um dos seus poemas (primeiro o original, depois a minha livre tradução), p. 218:

XVII

Mejor así: lejos, muy lejos,
pero con las almas
tan cerca.
Los dos inalcanzables
como las laminillas de oro
de las alas de los jilgueros que huyen
del ciprés,
como el monte negro
que no se deja ascender
bajo una tormenta de lobos,
como la estrella distante
que sin embargo es
como una lágrima nuestra.

Mejor así, como hablan
las almas
con las almas,
tan lejos,
tan cerca.

Traduzido não é tão bonito, porque a sonoridade muda. O som e o ritmo no poema são essenciais, mas vamos lá:

XVII

Melhor assim, muito longe,
mas com as almas
tão perto.
Os dois inalcançáveis
como as lâminas de ouro
das asas dos pintassilgos que fogem
do cipreste,
como o monte negro
que não se deixa ascender
baixo uma tempestade de lobos,
como a estrela distante
que no entanto é
como uma lágrima nossa.

Melhor assim, como falam
as almas,
com as almas,
tão longe,
tão perto.

O poeta ganhou 42 mil euros com esse prêmio.  Abaixo, na Feira do Livro de Madri 2014:

antonio

Parabéns, poeta!

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos


Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


graGraciliano Ramos

Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

vidas_secas_livro

Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

A descoberta da vida, do amor em Clarice Lispector


Por Rômulo Pessanha

Começo pelo começo que ninguém sabe quando começou. A busca pela origem da matéria que contém a vida é algo que nos causa medo e paixão, terror e medo, sensação de aventura e medo, tudo porque a origem da vida é como uma massa misteriosa, a vida não para de nascer a cada instante dentro de nós.
A Clarice Lispector apresenta-nos aqueles momentos de descoberta que as pessoas comuns sabem bem quando estão descobrindo algo, como a descoberta do amor, da solidão, do desejo, mas a descoberta da vida, essa sim, ninguém ainda ousou dizer sua forma e sua luz.

clarice-lispector
A constatação de que apenas baratas estariam presentes no momento que surgiu o primeiro ser humano é algo bíblico. Só as baratas seriam nossas testemunhas: onde se encontraria o evangelho segundo a barata? Estaria na sua massa branca interior, com aquele cheiro de barata? qual a semelhança entre a massa branca e o cheiro da barata com o cheiro das escrituras sagradas que ninguém nunca sentiu? Qual a relação entre sentir a massa gosmenta de uma barata esmagada contra uma porta de um armário qualquer e verificar ali, um ser vivo te observando com a metade de seu corpo esmagado, que a vida também é uma massa sagrada, como as escrituras que saíram de dentro do mistério dos fatos ocorridos no mundo real ou talvez das intenções subjetivas de quem as escreveu?
Ninguém sabe quem esteve presente ao nascimento da primeira barata … Talvez Deus? … Sim, porque nós nos consideraríamos mais importantes? Quem esteve presente ao nascimento de Deus? Deus é maiúsculo ou minúsculo? Se antes de sua criação nada existia então Deus ou deus não era. Era apenas o nada. Deus era apenas o nada, quando nada estava criado. Se nada existia, se nada era regido então sua existência era nula. Qual a massa de deus, ou Deus?
Em Clariceanos aspectos, a religião é uma vida. A vida se origina apenas para falar de sua banalidade, de como ela frágil, pode ser ficcionada em tragédia reconhecíveis pelo mais banal ser humano baratizável, ou, melhor dizendo, que se considere barata perante o mundo banalizável, como no mundo moderno a preocupação com sobreviver se torna mais importante do que o viver. Mais para além de ficção tudo pode ser reduzido ao nada. Assim é o que se quer chegar: o ponto final que deu início a tudo o que não existe. Teorias se tornam matérias para discussões.
Discutir o invisível é o deleite de quem procura saborear o invisível da vida.

O amor surge como descoberta de que dentro de alguém algo desperta mais vida em nós. Passamos de leve a compreender que em alguns momentos estamos presentes no nosso próprio nascimento: é quando a paixão surge. Mas nós talvez nem teríamos consciência do momento de nossa origem. Para isso seria preciso voltar atrás, no tempo, no passado e constatar que nem esforço para isso seria preciso, pois o guardamos conosco em algum ponto inscrito no branco da vida, como papel para ser escrito, vida para ser vivida.