Crônica: Nem Todo Carpinteiro Será Poeta


Por Gerson de Almeida:

Shakespeare já havia me dito: “não faças poesia! Não passas de serviçal do aprendiz de feiticeiro trancado no calabouço do feiticeiro.”. O teto da loucura permite certo chiste, mas nada tão ofensivo. Falei do velho bardo inglês porque foi o primeiro a ser justo antes de ser generoso em sua arte. Definitivamente: nem todo ser que escreve pode ser poeta; como nem todo poeta pode ser prosador (há raríssimas exceções, alguns conseguem conciliar a beatitude do verso com o humanismo complacente da prosa romanesca), encanador, carpinteiro, ou faz-tudo do bairro, e tem mais: quem faz tudo não é bom em porra nenhuma.

De todas as expressões da arte escrita, cada dia me resta menos dúvidas de que a poesia é a mais exigente. O escriba pode ter caudaloso estofo de leitura, experiência empírica em níveis estratosféricos, mas se a essas duas não juntar a sensibilidade como horizonte a nortear em seu verso, de nada adiantará encher bibliotecas com edições de suas obras: já há poetas ruins o suficiente em várias prateleiras por aí. Pode até escrever com carimbo de autenticidade, mas, entre uma palavra e outra, deve haver algo que não pode ser visto por ele enquanto escreve, e que só será visto pelo leitor (atento) quando o tiver lido; espécie de selo de garantia da Poesia. Deve passar uma emoção restrita ao leitor que tanto poderá ser sentida na leitura do primeiro verso, como no fechamento do último verso no derradeiro poema do livro. Estou mais e mais convicto de que a poesia é essa dança da troca de emoções… E se você nunca dançou, não pode aprender dois passos e achar que é Fred Astaire – nem Fred Astaire sabia que o era.

Hoje, revendo meus arremedos em prosa e verso, me assusto com minha coragem em chamar aquilo de poesia. A única justificativa em defesa da minha sandice é a mesma contra a qual Nelson Rodrigues morreu enfrentando a inconsequência: juventude. Eu tinha 18! Acho até que todo jovem nessas casas – 16 a 18 – deve “cometer” seus poemas. Rimbaud já está no inferno, não tem como fazê-lo de novo, repetição a riguer é impossível. Meus quatro cadernos estão repletos, da primeira à última capa, de anotações, cheios de rabiscos, rimas e apontamentos e, é claro, poemas (?). Ri relendo as barbáries. Quem muito sofreu em minha fúria plagiária foi Manoel Bandeira. Drummond também sofreu, Guilherme de Almeida mais que ele, Augusto dos Anjos nem se fala: mais que todos juntos. É clichê dizer que se começa copiando alguém, mas, no meu caso, é a mais nua verdade, o pior é que copiei mal.

 Embora tenha desistido dessa empreitada a tempo (é impossível manter a sanidade em busca do verso autêntico), a sincera vontade de escrever Poesia não ficou estatelada pelo caminho. O diabo é que durante bons anos acreditei que era poeta, meu Deus… Ainda bem que os estragos foram poucos, enganei a mim e a única pessoa na face da terra que viu raio no que não passava de archote dúbio: Luzia (minha eterna prof.ª de português). Minha mãe, sempre certa, nunca pôs sua fé em perigo. Meu pai… Nunca decidiu se acreditava naquilo ou não. Espero que nunca tenha acreditado mesmo. Não falo com falsa modéstia, como sempre pareço falar, mas com a sinceridade que – juro de joelhos! – já enterrei e perdi o mapa; mas ela sempre escapa e me persegue.

João Cabral de Melo Neto, numa entrevista, comentou que “escrevia o verso e botava na gaveta, seis meses depois, pegava para ver se este verso cabia na minha poesia”, eu faria isso? Este é trabalho de cultor, de senso e esmero e principalmente de paciência. Em poesia a paciência não vem com a idade, não está ligada à experiência, não se consegue advinda da leitura. Vem da alma, e é um (outro) clichê bagatela dizer isto, mas é verdade. Nenhum grande poeta tem pressa com o fechamento do último verso em seu poema, este, no geral, nem chega a ser a cereja do bolo (a menos que se fale de soneto que, sem o bom fechamento dos tercetos – chave de ouro –, fica tão feio quanto Scarlet Johansson caolha, desdentada e perneta), é mais um passo no caminho que vai terminar na leitura silenciosa do leitor atento.

 É isso aí! O recado está dado: poetas acordem, se poetas são! Os que estão em dúvida, desistam. Se a fé vacilou, você não deveria ter escrito nenhuma linha, a Poesia não aceita fraqueza, se têm dúvidas… Pulem fora da canoa. (Por que acham que virei resenhista?) O certo é que nem todo carpinteiro é poeta. O contrário talvez seja verdade, dada a produção industrial, tipo leste europeu entre anos 30 e 40, mas poesia, a Mãe de toda arte escrita, terminantemente, não é parada para qualquer fusca. Jegue então…