Resenha: “O Atirador da Quitinete de Marfim”, de Marcelo Mirisola


 Por Gerson de Almeida

     Acabo de ler O Homem da Quitinete de Marfim (Record. 242 páginas), livro de crônicas de Marcelo Mirisola. Desavisado, gastei meu estoque de gargalhadas que deveriam durar pelo menos até o término do verão. As crônicas foram escritas para o extinto site da Aol em 2004 e destinadas tanto a atacar detratores e inimigos quanto a pichar o estatuto do meio cultural tupiniquim… Pra isso, não precisava tanto. Ataca de Cabral a Ayrton Senna (um chato, cuja melhor fase da carreira foi ser sparring do fenômeno Schumacher), ninguém escapa.

       Apesar de não entender qual a conexão entre algumas das citações quando juntas no mesmo texto, às vezes no mesmo parágrafo (por exemplo: Saddam Hussein, Lula, Daniel Piza, alho e bugalhos e folhas de carvalho; como interligar tudo isso?), gostei do conjunto porque Mirisola diz o que ninguém mais quer ou tem coragem de dizer, ou tudo aquilo que muitos querem dizer, porém escondem nos cantos da boca.

       São mais de quarenta crônicas, embora algumas não mereçam ser lidas e outras não devessem ser escritas, pois, de tão mal estruturadas, podem desmoronar palavra por palavra durante a leitura, o resultado final as justifica – ou tenta. Nas que ele fala de lésbicas (feministas e militantes LGBT: não me encham o saco! Tenho amigas e primas sapatas e elas me amam tanto quanto a si mesmas), gatos (odeio gatos, são os animais mais pérfidos que existem) e outros assuntos irrelevantes – pra mim –, li mais por obrigação. Gostei das incendiárias! Só o terror no meio cultural de um país aculturado, pode divertir o leitor nos dias de hoje.

       Caetano Veloso não escapa. Marisa Orth também não. Gilberto Gil muito menos. Os manos do rap também, mas estes cobraram a tal ponto que o escritor guardou o fuzil, após ter sido jurado de morte, e teve de se escafeder por bons tempos. O coitado do Ed Motta sofre por cantar em inglês, por “ter assassinado Beatriz”, (música de… Chico Buarque! Que também sofre, como sofre!) e, acho, por ter nascido; todo canto tem alguém que tenta se esquivar e Mirisola consegue enquadrar na alça de mira e desancar tiros devastadores. Escritores? Alguns estão devendo a grana que ganharam dos prêmios, nos quais o cronista deveria ser consagrado. Dalton Trevisan (o cronista mais nojento do nosso sistema solar) e outros ganhadores de prêmios deste e do outro lado do Atlântico. A alguns mandou os dados bancários para que efetuassem a devolução dos dividendos… Ninguém devolveu um centavo! Não se fazem mais escritores como antigamente né meu chapa?

       A orelha do livro merece destaque (risos!). Escrita pelo próprio autor, é hilária com acintosa denúncia da realidade editorial tupiniquim. Chega de blábláblá! Vamos aos petelecos. Chico Buarque, “O maior romancista tupiniquim (cruz credo!)”, de ontem e até o presente momento, apanha mais do que seus cupinchas nos porões da ditabranda. Sua obra-prima à época, Budapeste, é reduzido a partículas tão minúsculas que, ao invés de serem sopradas pelo vento, desintegram só de imaginá-lo soprá-las.

       Como já disse gostei dos textos de modo geral, mas um me chamou mais a atenção: Crônica para Antônia. Por vários aspectos é um texto interessante, começa falando de Primo Levi e seu incontestável É Isto Um Homem?, reflete sobre a importância de ter o que dizer quando se decide escrever e sobre a relevância do que será dito, trata da eternidade do texto e depois… Baixa o cacete em Chico Jabuti! Destaquei essa crônica porque o que o autor diz sobre Budapeste pode ser dito sobre Leite Derramado, Benjamim, Irmão Alemão, Fazenda Modelo (este último um crime hediondo. Quem leu a Revolução dos Bichos de Orwell sabe do que estou falando), e sobre todos os outros livros de Chico que ainda virão. Gerson você pode estar sendo leviano, pode trair seu julgamento mais tarde; dirão. Eu concordo e me explico. Chico descobriu – ou se apropriou de – uma fórmula, e crê que escreve maravilhas. A crítica dá pão e circo, eu quero caviar e champanhe! O que Mirisa diz sobre Budapeste é irmão siamês do que senti quando li Leite Derramado, é gêmeo visceral:

   “O problema consiste no fato de um cara inteligente como o Chico escrever livros inteligentes que se desfazem no ar de tão insossos, e posar de escritor. Não é exagero o que digo. Exagero é o circo que se arma em volta. Budapeste não é O Processo, Budapeste não tem nada a ver com as Cidades Perdidas de Calvino, Budapeste não é um Aleph, e eu poderia citar outras dezenas de autores fundamentais para provar que Chico Buarque não tem nenhuma importância como escritor.”; é certo que se este trecho fosse escrito por mim resumiria dizendo que Budapeste, ou qualquer dos outros livros escritos pelo nosso rei do Jabuti, não vale um período de quaisquer das obras citadas comparativamente.

     Playlist, sob minha ótica: O escroto diz o nome, Alguém aí sabe namorar?, Dostoiévski sem cérebro, nada em lugar nenhum, As pelancas da MTV, Faltou sangue, O Aleph de boteco chique, A vez dos ruminantes, os heróis da Fátima, Notas da arrebentação I, II, III, Tanizaki, Cachaceiro, Festival de Gramado, Para um(a) grande escritor(a), Nada em lugar nenhum – essa última merece destaque pelo cômico desanimo diante do panorama cultural depois de alguns dos seus ataques… – e tutti quanti. Cada uma destas vai clarear ainda mais a hilaridade dos seus risos, sem contar o ataque certeiro, o sarcasmo que quase pede sangue e a arruinada noção de que a cultura de massa, a faceta descarada dos formadores de opinião, vendeu a terrinha antes que ela pudesse ter cultura digna de Nação.

       Mirisola é ciclicamente comparado a John Fante e Charles Bukowski, imbecilidade do criticismo de quem quer atingir o autor, invés de mirar apenas a obra; os dois últimos têm a boca suja, o primeiro tem a boca podre. Não tem como confundir uns com o outro. Não digo isso para diminuir o comparado, de quem me tornei fã, mas para ilustrar que onde aqueles flutuam, sem tocar no fundo temendo afundar e não mais ver a luz, este mergulha, traz merda à superfície e atira na cara da imperante, e não menos capenga, hipocrisia de nossa intelligentsia. Amigos, leiam! Aposto as garoupas dobradas em vossos sagrados bolsos: suas gargalhadas estão garantidas.

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