Machado de Assis – Nosso Eterno Único


      Por Gerson de Almeida

          Joaquim Maria Machado de Assis (1839 – 1908) é o único escritor brasileiro, o único, que poderia sentar ao mesmo balcão de boteco, em botina de igualdade, com Cervantes e Tolstoi, erguer a caneca, taça, copo ou moringa, chamar o primeiro de canalha, o segundo de barbudo maluco e sair do boteco vivo – sobretudo ovacionado – sob aplausos histéricos. Nunca na história literatura brasileira, depois de Machado, será possível dizer isso de outro escritor. Nunca. Digo mais: é, por toda a pátina da eternidade, nosso único candidato a Nobel injustiçado pelos suecos apegados à distância entre os atlânticos, aos idiomas e às suas cuecas remendadas por esta literatura rastaquera que cruzou o século e vem ganhando prêmio em cima de prêmio. Graças ao Bondoso, e a comprovada morte do gene de Matusalém, não está mais entre nós. Com certeza não aguentaria ler tanto calhordice e sua epilepsia voltaria espaçada em intervalos tão curtos que não teria tempo de arrumar seu bigodão horroroso e preparar um saco mais fundo para aturar a bajulação dos acadêmicos.

       Andei relendo as Memórias Póstumas de Brás Cubas e foi com alegria e estupor que percebi a necessidade de releitura da obra machadiana por nossa Academia, por nossos peri(qui)tos principalmente. Minha primeira leitura foi tão primária quanto apressada, desastrosamente aluada. As Memórias requerem estudos apurados e estarreço por não poder fazê-los, pois minha caixa de ferramentas não tem nem a metade da ferramentaria necessária ao trabalho. Vim esmiuçando capítulo a capítulo e cheguei à conclusão de que devo arder com minhas interpretações, conceitos formados; devo queimar com aquele maldito emplasto, eterno fracasso (justamente por ser eterno).

     Até agora nossos ensaístas estão ensaiando a obra machadiana. Ensaiam tanto que, quando chegar a hora de estrear, estarão atrasados pelo menos uns três séculos – isso se os filhos de netos de nossos bisnetos tiverem sorte. Nossa crítica foi pro beleléu! Não temos mais críticos (o próprio Machado de Assis foi crítico e, à parte laivos deslizes e ferrenhos ataques a supostos desafetos, é também o pai da crítica literária do país no qual praticamente fundou a literatura moderna. Esqueçam a mistificação daquela infeliz Semana de 22). Nosso maior crítico Otto Maria Carpeaux (1900 – 1978), que nem era brazuca, nos teria deixado órfãos, até nos darmos conta da existência de José Guilherme Merquior (1941 – 1991), este não durou muito, apenas o suficiente para sentirmos falta da sua criticidade competente e justa.

       De resto, temos um bando de marxistas rococós (leiam os textos do crítico Roberto Schwarz, – nunca genial e quase sempre lúcido –, sobre Machado de Assis. Reduz, descaradamente, nosso Eterno Único a um estúpido agente da luta de classes a bradar, gago e epilético, contra os abusos da classe dominante.) cagando regras e comparações estapafúrdias em salas de aula, em páginas de calhamaços de estudos impressos em volumes industriais que desgraçam a educação colegial e a formação acadêmica com um programa capenga, mas preciso no objetivo de bitolar desavisados leitores, propensos acadêmicos e escritores que já se lançam fracassados. Nosso ensino está morto à espera do coveiro bêbado que nunca chega ao funeral na cova rasa que mal cavou, é a verdade caída à porta da biblioteca e da escola.

       O que Machado faz, com as peripécias de seu defunto pantagruélico nas Memórias, é bem mais do que inovar ou reformular sua arte, é fundar, na maturidade do seu estilo, o espírito renovado e renovador de uma escrita coesa, com unicidade discrepante para com a realidade literária de seu tempo. Este fator parece estar distante dos olhares que se lançam em acurácias, pesquisas que se dizem históricas e detalhadas, que quando salta aos olhos surtem resultados tão catatônicos quanto os vistos por qualquer enfermeiro na hora de sol no jardim do sanatório.

       Machadinho, até certo ponto, é um sacana escroto. Não é um escritor que te pega pelo braço com delicadeza e diz “vem cá moleque! Vou te mostrar umas coisas!” e te conduz vagaroso e sóbrio pelo vale; não, não faz assim. Ele te dá uns cachações, te joga ladeira abaixo e diz “rola aí, xibungo! Vou te fazer entender o que é literatura, na base do cacete!”, sem esquecer-se de tirar-lhe a camiseta; rolando ladeira abaixo se escoria com apologética, filosofia, cínicas sacadas religiosas, sarcasmo mesclado com pessimismo, as escolas decaídas do século XIX e a pérfida bonomia da sociedade de sua época. Quando você chega ao pé da ladeira, todo ralado e levanta achando que sabe alguma coisa, percebe que seus braços, pernas e cabeça estão atados a cordões, como uma marionete, que Machado lá do topo manipula à vontade de seu riso e de seu bigodão horroroso – faz tudo isso certo de que você não desejará cortar as cordas e acabar com a brincadeira.

       Poderia acenar a trechos e trechos das Memórias, mas tudo soaria vão. Cada capítulo, quando não requer nova interpretação, exige retorno a capítulos anteriores, o menor detalhe após uma vírgula pode dizer muito sobre as entrelinhas de capítulo tal e assim sucessivamente; como há capítulos que não querem dizer nada, até que se encontre lá à frente “a borboleta preta” fazendo alusão ao mito de bruxaria da cultura popular. Até nisso o Bruxo gago do Cosme Velho foi precursor: circularidade na sua escrita (há quem abrace a circularidade camusiana como derradeiro archote de fogo da literatura. Babaquice!). O mulato, vilipendiado pelo Velho Graça, sapateia com louvor sobre aquele que faria dos novos enredos da literatura brasileira – esboços das hordas de pretensiosos inovadores da arte de contar histórias –, montanhas de papel rabiscado, devendo conter a advertência: “muuuita retórica. Resta saber: onde está a literatura?”.

       Abatido pela franqueza que faz alguns pensarem que não tenho amor aos meus dentes, sou levado a afirmar que é isso que o grande escritor faz: manipula, sova, joga pra cima, sob a asa fétida do corvo, e ladeira abaixo a procura da unha encravada largada pelo jabuti, para, afinal, dizer que não está nem aí pros seus conceitos de leitor, a validade de suas interpretações, que está se lixando para sua formação intelectual e lixando a sola com a qual vai te surrar na próxima obra sua (dele) a ser lida; pois, à essa altura, já terá certeza de que o leitor (você) é como o acaso descrito por Maquiavel: tem que apanhar para ser dominado. Com ares de valente, restituído, você tenta erguer o punho, mas o que pode o reles mortal ante a imortalidade do grande artista, fundador de nossas letras (hoje tão feias quanto tortas)?

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