Resenha I- Dom Quixote de La Mancha


Dom Quixote de La Mancha começa bem curioso e engraçado. Uma série de protocolos da época, uma carta de Cervantes ao rei, uma do rei, carta do escrivão, de um licenciado em Letras que dá a sua palavra que as erratas estão de acordo com o livro, tudo isso antes de começar a narrativa propriamente dita. Depois vem o prólogo de Cervantes. Ele dirige- se diretamente ao leitor. Só as duas primeiras palavras já fizeram- me rir: “Desocupados leitores”. Por que será que ele acreditava que só os “desocupados” leriam a sua obra? Por que não a considerava boa ou por sua extensão? Nada disso, ironia pura.

Ele explica que os pais quando têm um filho muito feio e sem graça, normalmente, o protegem, “colocam uma venda nos olhos” e por causa do amor que lhes têm, fingem não enxergar seus defeitos. Mas ele, “que, ainda que pareça um pai, sou padrasto de dom Quixote, não quero ir com a corrente usual (…)” (p.7). Ou seja, ele vai delatar o pobre do Dom Quixote em todas as suas faltas, e a si mesmo (no prólogo) com muita ironia.

Só com o prólogo, que é super bem elaborado, você já recebe uma aula de espanhol (delícia ler essa obra no original!), conheci conjugações verbais que ainda não tinha lido em nenhum lugar, um léxico desconhecido, fora a aula prática de literatura, como se deve escrever um texto.  Cervantes deveria ser leitura obrigatória para todo aspirante a escritor.

Começou emocionante, deu aquele friozinho na barriga e a pergunta interna que não cala até agora: “por que eu não li isso antes?!” Ele inovou ao escrever o prólogo. Disse que não iria fazer como todos faziam: colocar citações de Aristoteles, Platão e de nenhum filósofo, nem a Bíblia. Cervantes, com 57 anos, disse que era um homem de “poucas letras”, por isso não iria mostrar falsa erudição colocando prólogo nem conclusão no livro. Há ironia nisso e, certamente, uma alfinetada nos seus contemporâneos, principalmente o popular poeta Lope de Vega, seu desafeto. Depois diz que é preguiça mesmo. Acho que estava cansado da mesmice do seu tempo. Mais ao menos como nós agora. Ele cita duas frases de Horácio, uma de Ovídio e duas do evangelho, todas em latim, que seus colegas usavam na época, em modo ironia. Coloco uma aqui de Ovídio, que ele utilizou para ridiculizar os escritores, atribuiu a autoria a Catón (p.11), insinuando a falsa erudição dos colegas, que nem sabiam de quem eram os dísticos que utilizavam.

Enquanto és feliz terás muitos amigos; se os tempos forem difíceis, estarás sozinho.

Só o prólogo já deu pano pra manga. Eu não vou contar tudo, mas Cervantes deu uma coça na turma da época. O que me dá mais coragem para seguir em frente com o meu papel de crítica, detonando as obras- “basura”, que estão enfiando goela abaixo do leitor inexperiente. A quantidade de escritor medíocre que anda surgindo me provoca um arrepio de mal estar. Que critiquem a crítica, estou vacinada, o que penso sobre a arte literária e os que estão longe dela, será dito.

Nesse prólogo de 20 páginas (veja o livro no final do post) é escárnio puro. Zomba dos colegas sem nenhum pudor. Depois ele explica um pouco quem é o famoso Dom Quixote: um apaixonado, honrado e valente cavaleiro de Montiel, que tem um fiel escudeiro, Sancho Pança. Termina o prólogo com uma palavrinha: “Vale”. Parece que não significa nada, não é? Errado. É uma alusão ao frei “Antonio de Guevara, autor das “Epístolas familiares”, que usa o nome de três prostitutas da Antiguidade no seu livro e apoderou- se da autoria. Um falso erudito.

Há que se fazer uma leitura atenta de Cervantes, pois nada é por acaso. A obra é muito trabalhada, muita “transpiração”.  Depois do prólogo, Cervantes colocou dez sonetos de sua autoria contrariando, outra vez, o costume de colocar poemas de amigos abrindo as obras.  O “cara” escreveu os poemas “Al libro de Don Quijote de la Mancha” e “Del donoso poeta entreverado, a Sancho Panza y Rocinante” cortando ao meio todas as palavras no final dos versos, tipo…deu uma banana à tradição da época e os que pensavam que sabiam tudo e queriam que os outros fizessem igual.  Cervantes foi o primeiro poeta concretista! 🙂

Aconselho que você preste atenção quando for comprar essa obra, porque há muitas adaptações. Compre alguma edição com o texto integral. As adaptações são um insulto ao leitor, pois tentam encurtar ou “facilitar” a leitura, maculando e depredando verdadeiras obras- primas.

Quando vier à Espanha, não deixe de visitar o Museu Casa Natal de Cervantes, que fica na charmosa cidade de Alcalá de Henares ( adoro!) pertinho de Madri. A entrada é gratuita e você pode conhecer onde nasceu um dos maiores escritores do mundo e de todos os tempos. Até o dia 14 de fevereiro está acontecendo uma exposição de ilustrações do espanhol Miguelanxo Prado:

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Como eu não quero posts muito longos, termino por aqui. Já viram que não vai dar pra ser sucinta com esse livro.

Possivelmente, a edição abaixo seja a melhor em formato low cost dessa obra. Custa só 13, 90 euros e vem com textos de Dario Villanueva, que é o diretor da Real Academia Española, Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala, Martín de Ríquer (falecido em 2013), que eu reverencio, pois era um incrível especialista em literatura medieval, ele tem uma obra chamada “Os trovadores”, que é de chorar de tão incrível. A edição e notas são de Francisco Rico. Só fera!

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Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Leia aqui o primeiro post sobre esse livro, o de introdução.