Marcelino Freire e Dalton Trevisan: O (In)feliz e Controverso Encontro da Concisão


Por Gerson de Almeida

Quando o sebo aqui do centro da cidade (Jaraguá do Sul – SC) pensar em premiar seu frequentador mais assíduo, não tenho dúvidas de que serei o escolhido. E ai de quem tentar roubar meu quinhão. Pelo menos uma ou duas vezes por mês, passo lá. Se não compro, leio alguma coisa, sentado no cantinho perto da prateleira dos livros de viagem (e que meus felizes inimigos não armem tocaia em hora santa sob a pacatez do local sagrado). O sebo é rota e rotina.

Depois de ter visto o bate-papo de Marcelino Freire na Feira do Livro, em junho do corrente ano, fiquei mais caído pela obra do autor. Conversador, simples, desempolado, acessível. O tipo de sujeito que eu adoraria fazer pagar umas cervas no botequim do seu Rocha. Entre outras carcarradas e comentários, leu trechos de sua obra Rasif – Mar Que Arrebenta (Record, 2008), livro que reúne 17 contos. Semanas depois, encontrei um exemplar na prateleira do sebo. Folheei. São contos curtos, não para serem lidos de um fôlego, mas para serem bebidos numa só dose – cachaça de rolha no balcão da vida. Rápidos, cortantes e ensanguentados, como riffs da dobradinha Kerry King/Jeff Hanneman – sendo mais incisivo. A cadência e a rima são tão precisas e musicais que podem ser cantadas enquanto – ou ao invés de – lidas; desde que se escolha a melodia certa. O leque, se tratando da musicalidade destes contos, é vastíssimo, não à toa seus textos são encenados por palcos e balcões. Marcelino acertou bem o passo, e fez do livro a tribuna para destrinchar a corriqueira situação dos sem-voz. Saiu-se melhor do que esperava, creio.

Marcelino Freire é escancaradamente devoto da concisão. Tanto é que se pode notar nos contos a constância no rigor do período curto. Mas… Até o talo?! Frases que poderiam ter 1m, ou 1m½, ficam com 33 cm ou algumas migalhas a mais… Digo: a menos. É concisão pela extrema concisão, embora isso não atravanque o desenvolvimento da contística. O sacana domina com maestria a loucura em que se meteu, é a afirmação do estilo “cada palavra no seu lugar!” como ele mesmo diz, o grito no curto espaço, feito para explodir em evidência. Marcelino sabe o diabo da pedra que fundou com sua rabada e seu bode pernambucano. Gostei. O que não gostei – os pontos continuativos, embora saiba que fazem parte do projeto e da cadência dos contos, para darem arrimo necessário às rimas e aos ritmos que afloram de período em período – não foi o suficiente para dispensá-lo à prateleira e não cogitar a leitura dum próximo trabalho, pois seus textos são galgados em poesia e adoro poesia.

12196202_1690456361177225_1551177395860675068_n

Marcelino Freire (Facebook do escritor)

Para Iemanjá, conto/canto de abertura, poderia ser musicado pela Nação Zumbi, banda conterrânea de Marcelino. A letra quase não precisaria de ajustes. Roupa SujaI-no-cen-teOs atores e Ponto.com.ponto problematizam arroubos de desejos escrachados que no fim das contas terminam em banhos de sangue onde se ergue a tribuna de rua. Fred 04 poderia fazer coisas interessantes com estes textos. Amigo do rei aponta sua paixão pela poesia com humor sarriado pela aura boiolesca que o poeta carrega ao assumir sua paixão pela palavra ritmada. Seguem-se, a este, outros tantos temas alicerçados numa contemporaneidade vibrante. O turana de Sertânia – PE sabe cozer, com faca e verbo, bem melhor do que se imagina.

Eis que atarefado, debatendo com o nordestino, olho duas prateleiras acima, onde estavam agrupados alguns exemplares de Dalton Trevisan: Novelas Nada Exemplares, O Vampiro de Curitiba (por que não… Excentricidades de Um Curitibano Vaidoso?), outro que não lembro o nome e A Trombeta de não sei que diabo. Terminei minha leitura. Peguei este último e comecei a folhear. Parei. Recomecei. Re-parei. Re-recomecei. Re-re-parei. Pensei “que porra é essa?!”. Não consegui avançar. É muita chatice pra pouca literatura, não há nada que justifique as testas ao chão e… As Aspirinas, descoradas pelo frio curitibano, apontadas pra Deus. Se Trevisan só fala através de sua arte – que a mim nada disse – essas almas, curvadas em reverência ao vampiro mais sedento de elogio que de sangue, falam por ele… E não são poucas! Junte a essas, mais da metade da cena literária curitibana (não seria toda a cena literária curitibana?) que fala em defesa de sua vampirice, ao invés de ser crítica e imparcial. A sacralidade que a construção do mito conseguiu é duma idiotia desmedida.

Não sou um cara rançudo, nem sou mais enjoado do que realmente pareço, além do mais sou um leitor esforçado, dedicado, e não costumo desistir quando quero me embrenhar na lama onde algum autor de renome – este, a meu ver, de renome duvidoso – chafurda. Outro dia comentava minha dificuldade em ler Trevisan com uma amiga, a qual respeito pela capacidade de discernimento, formação intelectual e estofo de leituras; disse ela, “ele vende mais pelo hermetismo, esse cara é um bom cronista, só isso.”, (não foi… Fernanda “The Boss”Jiménez?), é verdade. Seus textos não passam de crônicas – e suas formas canhestras não me apetecem. São curtos e dúbios até mesmo para serem crônicas –, minimizadas sob o disfarce de contos. Na seara das crônicas, se já tivemos Rubem Braga e ainda temos Luís Fernando Veríssimo, por que se derreter com a insossa arenga de alguém tomando café escondido, sob um boné no canto da confeitaria, enamorado de sua própria esfinge de cera?

mi_511836249471921

Dalton Trevisan, Revista Isto É, 2010.

Li alguns contos d’A Trombeta de não sei que diabo, eis o que encontrei: o pai dá uma surra de facão no filho (tomara que tenha sido neste livro, pois se foi noutro, corro o risco de estar dizendo que os contos do cabra curitibano são sempre a mesma coisa. Li outro horroroso chamado Mister Curitiba e um que falava não-sei-o-que-lá de Noiva. Arrghhh!), e o filho só grita: “de facão não que dói pai, de facão não que dói.”. O que achei? Típico causo que escutamos no balcão do botequim. Por favor: não diga que nunca viu, ou escutou, em sua vida provinciana ou urbana, os desfiles da violência doméstica. Não que o balcão do botequim não possa trazer emoções autênticas à literatura, porém não tinha o algo mais, necessário a fazer dele tecido de realeza, linho nobre ou corte de pura seda, entendeu?

   Em outro conto curto, mas tão curto que… Perdi o fio. Parecia ter pego uma piada, dessas bem baratas, (tipo: o senhor chega ao ponto de ônibus, sob um dilúvio, e encontra a jovem. Percebendo que vai se atrasar, pergunta as horas, a jovem responde e ele diz “chuva cacete!”, a menina prontamente olha-o e diz “chupo sim, senhor!”), e estendido um pouquinho, trocando algumas cositas e aparando algumas arestas: está pronto o conto. Criativo, imaginoso, mas nada que mereça tanto destaque, um inheninheninhen desgraçado exposto na força da expressão vocabular, afora a concisão e a lengalenga do minimalismo – ferramentas do capeta a serviço de quem se esconde dos grandes feitos.

Deveria ter lido todo o livro, mas, se em algumas páginas não me dilatou as retinas, desisto. Essa leitura não rende e vai acabar fazendo mal. O que falta em Trevisan é autenticidade, fogo entre as palavras, vontade de sair do marasmo que este seu esconderijo fajuto ergueu. Por mais que sua obra exale originalidade (até Paul Rabbit é original!), falta a profundidade das entranhas, de onde o ser humano – ou sai mais humano, ou –, escalpela sua sordidez para salvar seu espírito. Trevisan passa longe disso… Há mais de sete décadas.

Há quem o compare a J. D. Salinger (believe me: já escutei compararem-no a Pynchon, por causa de sua recluvaidade devoradora de elogios, muitíssimo bem disfarçada de reclusão – Pynchon não é recluso, só não vive neste planeta, logo: não pode aparecer –, nada demais. Só alguém que pulou o muro do sanatório dentro da camisa de força, merece crédito por sair carregando esse cartaz atroz), citando sua reclusão e recusa em falar com o grande público, sob a insistência de só se comunicar por sua arte. Hum… Sei. Falta e muito para ele beijar a sola dos sapatos de Salinger. Pode começar lambendo sabão achando que é rapadura e parando de publicar.

Trevisan está para o escritor americano como o banhista, nadando numa piscina infantil, está para o nadador que atravessou o Canal da Mancha. Notem: Salinger, depois de voltar da Guerra e publicar O Apanhador no Campo de Centeio, publicou poucas obras e, traumatizado, se escondeu de tudo e de todos, principalmente de si mesmo. Odiava os holofotes, mesmo que viessemdaqueles poucos pertencentes ao seu círculo. Já este senhor, um sábio (ou sabido?) nonagenário, construiu o mito e se tornou missionário ferrenho na perpetuidade de sua lenda – e está conseguindo resultados estarrecedores há um bom tempo. Chegou a tal ponto, que disseram dele: “é a melhor coisa que surgiu em Curitiba desde… Curitiba!”. Reduziu tudo e todos aos seus contos, sua reclusão (nada além de vaidade e carrancismo) e sua chatice disfarçada de modéstia. Creiam cristãos, ateus, macumbeiros, budistas e filisteus: minha ignorância, arrogância, língua solta, desinformação, imodéstia, insensatez, ousadia, petulância e todas as outras virtudes que tenho, e possa vir a ter, não são páreo aos cumes que a vaidade de certos escritores almeja atingir. Everestes e Everestes sobre o Everest de si mesmos.

Nos dias de hoje desgraçam a poesia de Paulo Leminski naquelas bandas dizendo que “ele (Leminski) dizia o que você queria escutar”, weeelll!!! Quem dera todo escritor, o qual se querler e ouvir falar, dissesse o que queremos escutar; não estaria fazendo nada além do seu excelso ofício: embevecer alma e vida. É isto que faz os grandes serem grandes e os pequenos se acharem entre eles quando fazem suas diabruras com petecas no papel ou com verbecos no Word.

No (in)feliz e controverso encontro da concisão, ficou, entre as prateleiras, o leitor surpreso com a sonoridade do pernambucano fazendo do simplismo cadenciado da concisão sua bandeira à “literatura de enfrentamento”, e estarrecido com um monte de livros do curitibano que não sabe o que conta e mal sabe a quem contar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s