A culpa é de Nabokov (ou uma crítica da crítica)


Sim! É isso mesmo: a culpa é de Nabokov.

Quem leu seu livro com as Lições de Literatura Russa que promoveu em conferências e lecionou nos Estados Unidos, logo entenderá minha sanha momentânea.

Eu, como você também, deve escorregar, costumo ver um ou outro vlogger falar sobre literatura. Alguns me surpreendem pela profundidade e originalidade de ideias e conceitos, que de simplórios nada têm. Outros quase me arrancam os dreads dada à vaidade e a empáfia com que se paramentam para, em frente à câmera ou às invenções diabólicas engendradas por Jobs (que, deixo às claras e agradeço, as criou com a melhor das intenções), tecerem comentários estapafúrdios sobre Nomes que Não Devem Ser Incomodados por mortais levados à sandice pelo desejo de açambarcar a alma literária.

Edmund Wilson, “o maior intelectual americano” segundo Paulo Francis (e este “o maior intelectual brasileiro”, segundo Joquinha do Caju), já havia apontado a ojeriza inexplicada de Nabokov contra Dostoiévski, que na opinião de muitos, literatos ou não, seria (junto com Turgueniev) no nosso, nos anteriores e no mais futuro dos tempos, o único Ser capaz de fazer beira ao Deus: Tolstoi, ou mesmo ao seu pai: Cervantes. Nabokov nunca esclareceu a ojeriza, que Wilson já julgava caso de patologia crônica, mas nunca desencadeou ondas contrárias à validade da obra do russuiçudo epilético. O que, por um lado, faz da sua ojeriza coisa menor ante um dos maiores baluartes da literatura de seu país, e, por outro faz dele, em propícias ocasiões, um cão afônico latindo ao Boeing que se diverte entre as nuvens.

Vou tentar me explicar e espero alguma luz entre minhas trevas. Se não conseguir, este amontoado de palavras vai ficar tão inexplicado quanto a ira de Nabokov ou a ousadia de fazê-lo cão afônico latindo em vão.

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Nabokov caçando borboletas

Vladimir Nabokov, então reconhecido no mundo literário como “o russo do momento” que, após a fama meritória adquirida com a publicação de Lolita no Ocidente, afastada da fama de pornográfica, agora poderia dedicar-se integralmente à literatura – sua grande paixão junto com as borboletas –, foi convidado a dar aulas em universidades americanas, Cornell foi uma delas, acho que Columbia também, se não me falha a falha memória. Leu todos os clássicos russos, os reconhecidos pela crítica e pelo maior de todos os críticos: o Tempo; os reconhecidos por ele mesmo, por sua paixão ou sua obsessão pela linguagem, e formulou o material lecionado. Um verdadeiro primor, dadas algumas erratas (nenhuma encontrada por mim, que fique claro) e avaliações precipitadas.

Não sei o resultado em sala de aula, e não duvido de que tenha sido excepcional, mas o resultado periférico… Foi uma desgraça (falo só pela parte relacionada ao russuiçudo epilético). Nabokov explica que a primeira vez que leu Crime e Castigo, achou a obra excelente, coisa de primeira grandeza. A segunda leitura não ficou muito aquém da primeira e não abalou o que tinha acumulado anteriormente. A terceira começou a declinar e, da quarta à quinta, sob as quais estava trabalhando para formar o estofo de suas aulas e conferências, percebeu “falhas” na obra-prima dostoievskiana. Com lucidez, e dando descontos, é possível entender as exigências de Nabokov. Sim, quem leu Crime e Castigo, e não se assustou e travou-se com o inferno psicológico de Raskolnikov, pode entender as exigências nabokovianas.

O escritor aponta que a prostituição de Sônia é ouvida e lida, mas não consegue ser vista e sentida pelo leitor, e que não há nada de concreto em relação à sua vida meretrícia. É aceitável. Sabemos disso, mas o enfoque do livro é a paixão, a luta e a derrota de Raskolnikov ante o verdugo da consciência. Sônia é uma espécie de bálsamo, não dado a curar, nem mesmo para aliviar sua dor, mas apenas para mitigá-la em seus efeitos, os quais viriam a ser sua vida futura – preso por duplo assassinato.

Outra acutilada nabokoviana aponta a cena em que Raskolnikov lê a Bíblia junto com Sônia (infelizmente não me lembro do trecho. Li as Lições de Literatura Russa na livraria, e por mais que pareça contraditório, havia muito barulho, embora estivesse muquiado num cantinho quase debaixo da mesa, sobre a qual, à distância, poderiam ser vistos meus dreads perdidos quando balançava a cabeça em assentimento ou negativa), e diz que nenhum escritor, a menos que fosse um iniciante precipitado, descreveria cena mais patética (estou sendo generoso. A crítica de Nabokov faz piruetas a dizer que a cena é, praticamente, uma das piores da literatura russa, senão a pior já escrita em russo), que nenhum escritor sensato descreveria cena mais clichezada, que aquele tipo de encenação, a tríade – a puta, o criminoso e a Palavra Sagrada juntos, à frente do leitor –, já havia sido explorada no século anterior a Dostoiévski.

Tudo que Nabokov disse é perfeitamente crível, se pensarmos que ninguém melhor que o russo, com estofo para tanto, para compreender os meandros da alma russa, e ele estava mais do que apto à tarefa.

Eis que depois de ler as considerações de Nabokov sobre Crime e Castigo (que não mudaram em nada minha visão de Dostô: imensurável), assisto duas vlogger’s falarem sobre quem pode falar sobre literatura (não vou citar seus nomes. Não por temer eventuais tretas com possíveis processos. Nada tenho, nada tenho a temer, mas só para não dar luz a cego e nem roubar a bengala branca de Santa Luzia). A primeira insistia ser peri(qui)ta em Sylvia Plath, tudo bem. Ainda não li Plath, então pouco me importa sua peri(qui)tagem. A segunda… Meu Jesus! Era, entre outras diplomagens, formada e reformada em literatura comparada, doutorando em não-sei-o-quê, tradutora, professora, vlogger, ensaísta e liderou um grupo de leitura com mais de cem pessoas (mais de cem patetas) sobre as obras de Dostoiévski.

Para tanto, ela e seu séquito de cem cabeças, “o bonde dos sem cérebro”, leram toda a obra de Freud (assim diz). E descobriram que Dostô era um freudiano antes de Freud. Weeellll!!! Pergunto: qual a novidade?

Ora, quem quer que tenha lido O Duplo e Niétotchka Niezvânova (se você conseguir conceber a mente humana como um labirinto a ser adentrado e não apenas esmiuçado à luz da razão, nem precisa ler todo Freud ou Dostô, e souber que Freud não é mera figura de linguagem no Chão de Giz de Zé Ramalho), sabe que o russo é o pai do pai da psicanálise. Se não fosse pelo russuiçudo, Freud teria chegado aonde chegou muito mais cansado e com as solas dos pés muito mais gastas pela dura caminhada, e toda rachada pela aridez do deserto que é esse troço chamado alma humana, do que pode explicar sua vã psicanálise. Que ninguém duvide disso. Basta olhar no espelho e perguntar: o que você vê? Espere alguns segundos e o silêncio, entre as palavras que formaram a pergunta, dirá que não estás louco, apenas pouco perturbado. Somos assim, somos humanos, e quando estamos com medo só enfrentamos a nós mesmos.

Eu já estava de saco cheio e a vlogger deu a falar da biografia de Dostô. Não li, e sei que quem está perdendo sou eu. A biografia diz muito sobre o autor e sua vida, mas a obra pode indicar fatos que a vida não pôde encenar e agastar com intensidade. A tragicidade, necessária à catarse dos sentimentos mais violentos, pode ser almejada, porém quase nunca sentida em sua completude. Quero dizer que, para avaliar os aspectos psicológicos de uma obra baseada em faces e facetas da fragilidade mental, o essencial é ler a obra com afinco, e não se apegar a dados da vida íntima do autor. Seu vício em jogos de azar, doença, dívidas com editores e temporadas de bolso raso, são apenas cabides cheios de informações inúteis na avaliação do seu trabalho. É uma googleda rumo ao nada, quando o que se quer é detalhar o traçado de sua arte. A vlogger, com sua cara de pau diplomada, me roubou preciosos 12min., cobrarei com juros, passarei o número da minha conta bancária (sempre seca como a alma sertaneja), antes consultarei o contador (fiado), mas não agora.

O negócio é que a sujeita caiu num campo pantanoso e frio: a álgida alma russa. Você não pode entender a alma russa mergulhando na alma austríaca, como não poderá entender a do baiano mergulhando na do gaúcho. Só fazendo estudo apurado de costumes e tradições da época em questão, do que era ser russo sob o punho do czar, pode-se vislumbrar o norte. A vlogger entedia tanto de Dostoiévski, e sua obra, quanto eu de logaritmos neplerianos e astrofísica. Desastres cabais.

Nabokov fugiu do leninismo e dos tentáculos longos e cruéis do stalinismo, viu sua família perder tudo, teve mil dificuldades em se estabelecer na Europa, até viver da sua arte. Foi russo nato como todos os outros que tiveram destino parecido. Pôde falar com propriedade e probidade exacerbada, ainda que se pudesse sentir em suas palavras a mesma ojeriza notada, sobriamente, por Edmund Wilson; não cabe aqui, e muito menos a mim, apontar questões além da minha geografia. Nabokov travou sua luta contra um morto, um morto imenso e imbatível, mas ele sabia disso. O que decorreu de seus estudos apuradíssimos foi “o bonde dos sem cérebro” sair por aí se julgando detentor da dostoievskianidade que, creio, não está acessível a ninguém que se comprometa mais em mostrar orgulho sórdido em dizer que os romances do russo “eram longos porque ele ganhava por página escrita e carecia de bons editores, pois suas obras precisavam de cortes e revisões mais apuradas (talvez se os revisores e editores fossem vlogger’s brasileiros…)”, e menos em notar seu compromisso com a Literatura.

A birra de Nabokov não deveria chegar às vias de pathos de fato, mas chegou e por culpa sua, e do descaramento que é a vida literária no Youtube – foço de excrementos mais fundo e fétido do que governo petista –, qualquer um pode falar de literatura, mesmo que saiba menos dela do que daquilo que vê ante o espelho – ou daquilo que não vê ante o espelho. Nisso já não sei o que é pior, mas essa não é culpa que possa ser atribuída a Nabokov.