Você já participou ou participa de algum grupo de leitura?


O que você acha de grupos de leitura? Não, não responda. Fiz uma pergunta, mas, desculpe- me, não quero a sua resposta. Guarde-a pra você.

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Estava assistindo um programa no Canal Futura (ou TV Senado?) voltado à leitura. Um círculo de proustianos participava da reportagem e discutia as bases da leitura em grupo. Confesso que não gosto dessa ideia (pelo menos hoje), mas continuei a assistir, Proust é Proust – nenhuma informação é invalida ou supérflua. Milton Hatoum, grande nome da contemporaneidade literária tupiniquim, proferiu algumas palavras. O programa estava legal. Hatoum disse que havia muito de Proust em sua última obra.

Seguindo esse tatibitate, o líder do grupo de leitura tomou a palavra. Depois de tecer loas, quanto à validade das discussões do grupo, disse que o intuito do grupo era “formar leitores de Proust”, que “a ideia era ensinar como ler Proust”, o coroa chato, com cara de bibliotecário entediado, seguia, “para ler Proust precisa certo estofo, compreensão de que o detalhe está contido na quantidade de tempo que se lê um trecho longo buscando o menor…”, uma lengalenga que quase me fez estourar a tevê (não o fiz porque ainda estou pagando). Como é minha senhora? Onde enterramos o cachorro?!

É isso mesmo: ensinar como ler Proust? Sim, escutei bem. Já participei de grupos de leitura, o último era das leituras de “Cervantes e a Contemporaneidade Quixotesca”. Não adiantou. Toda vez que Sancho falava, e Alonso Quixano arremetia valores com seu ideal calcado na verve que sublima o espírito, eu chorava e perdia a linha interpretativa como o Herói perdia a sanidade. Chorava por saber que em cada um de nós há um Dom Quixote, chorava por saber que somos todos Dons Quixotes. De um jeito ou de outro, todos fadados a sonho e ilusão. Havia uma coisa legal naquele grupo, ninguém me dizia como ler, ou como interpretar, dava-se dicas, apontava-se o norte, o sul, o leste e o oeste, mas ninguém tentou doutrinar ninguém, era, digamos, uma boa aula de “geografia literária”. E saímos todos, cada qual com sua bagagem ou seus parcos conceitos, rumo às campinas atrás de Cervantes. Creio que estamos indo bem, pelo menos não nos perdemos (ainda).

O que quero dizer é que não há jeito universal para se ler Proust, como não há jeito universal para ler Pedro de Lara – só lendo. Cada par de olhos difere de outro par de olhos. Nem vou entrar no mérito de cada cabeça é um mundo. Querer fazer com que as impressões sejam coincidentes e, no final, formem lastro e unicidade, é estupidez. Querer que minhas impressões se pareçam com a de quem quer que seja, só prova a cegueira da minha ignorância e a perda da prioridade: ler e assimilar segundo minhas depreensões. Quanto mais quero ler e leio, quanto mais quero aprender, ou pelo menos ver explicitações literárias, mais tendo a me afastar da manada e seguir sozinho atrás do pasto no Paraíso – “o Paraíso não é o mesmo pra todos”.

 Não é possível que toda a vez que se fale em Proust ou Joyce, tenhamos que escutar as ideias de “preparação”, “iniciação”, “lastro” e outras coisas que só de comentar meus dedos travam e tenho dificuldade pra digitar. Não há coisa mais nojenta do que seres que não reconhecem a sua mediocridade. E todos que se arrolam peritos neste ou naquele autor são medíocres (não acredito que se possa saber tudo sobre a obra de determinado autor, isso, à minha concepção, é impossível). Todos sem exceção. Na cabeça destes abobadinhos é humanamente impossível que o leitor comum seja capaz de ler qualquer dos dois autores (ponha também na lista: David Foster Wallace, William Gaddis, Pynchon, Italo Calvino, Perec e tutti quanti), como se aquele fosse alfabetizado em sânscrito e estes, marcianos, escrevessem em armênio A.C.

O que eu diria a quem está para adentrar à obra de Proust? Comece por Em Busca do Tempo Perdido. De preferência pelo volume O Tempo Recuperado. Creia-me: não há valores para descrever sua evolução enquanto leitor. Vai ler Joyce? Comece por Ulisses (como fiz. Me lasquei, mas fui). O melhor jeito de matar o rinoceronte é acertando a cabeça. Vai ler Foster Wallace? Vá pela Graça Infinita. Gaddis? Comece por JR.

Meu (des)conselho: nunca faça preparação para ler autor algum. Toda preparação, a qual precisará, lhe será oferecida a partir da primeira página. E depois mais e mais, e, conforme a sua necessidade, ela pode diminuir ou aumentar. Esse bando de estetas ficam bolando estes jogos retóricos enquanto tomam seu cafezinho às 17:45h, querendo atravancar o progresso da nossa leitura. A finalidade das teorias dos grupo de leitura é tirar o melhor da leitura truncada: o sabor inefável da descoberta solitária.

Comecei a ler Proust, não fiz diabo de preparação nenhuma, estou é me divertindo. Pouco me interessa que “os cheiros dos cheiros levem a outros cheiros e a cantos esquecidos na memória involuntária”. Que me interessa tanto cheiro perdido em minha memória? Não lembro se o que comi na sopa de ontem foi repolho ou cebola disfarçada. Tenho pena de quem quer saber porque, e como, este ou aquele autor envernizou a barata. Não me interessa. O Livro de todos os Livros, a Bíblia, pede esse tipo de rito? Nunca, fora do círculo religioso, vi se organizarem grupos de leitura para as Escrituras Sagradas, como tenho minhas dúvidas se estes peri(qui)tos leram o que alardeiam ter lido. Duvidar é um dom precioso, não pretendo perder nenhuma oportunidade de usufruí-lo.

Última palavra: proustianos vão recolher xixi de pulgas indianas para seu banho e chá das cinco. Tenho mais o que fazer. Afinal, estou me preparando para preparar um grupo que prepara a preparação para preparar a preparação para preparar um grupo para preparar a preparação… viu que aranzel do cão? É isto que este povo faz: enche páginas de rascunhos, bolando teorias para a leitura, afastando mais e mais leitores dos clássicos. Não deixe que te assustem, são bandos de babacas envergando a toga, estão na sala de casa, ou no canto da biblioteca municipal perdidos nos oceanos do WhatsApp, e pensam estar no salão da academia na Suécia.

Comigo não meu chapa! Seu canário é bom, mas não canta!

 

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