Você já participou ou participa de algum grupo de leitura?


O que você acha de grupos de leitura? Não, não responda. Fiz uma pergunta, mas, desculpe- me, não quero a sua resposta. Guarde-a pra você.

IMG_0862

Estava assistindo um programa no Canal Futura (ou TV Senado?) voltado à leitura. Um círculo de proustianos participava da reportagem e discutia as bases da leitura em grupo. Confesso que não gosto dessa ideia (pelo menos hoje), mas continuei a assistir, Proust é Proust – nenhuma informação é invalida ou supérflua. Milton Hatoum, grande nome da contemporaneidade literária tupiniquim, proferiu algumas palavras. O programa estava legal. Hatoum disse que havia muito de Proust em sua última obra.

Seguindo esse tatibitate, o líder do grupo de leitura tomou a palavra. Depois de tecer loas, quanto à validade das discussões do grupo, disse que o intuito do grupo era “formar leitores de Proust”, que “a ideia era ensinar como ler Proust”, o coroa chato, com cara de bibliotecário entediado, seguia, “para ler Proust precisa certo estofo, compreensão de que o detalhe está contido na quantidade de tempo que se lê um trecho longo buscando o menor…”, uma lengalenga que quase me fez estourar a tevê (não o fiz porque ainda estou pagando). Como é minha senhora? Onde enterramos o cachorro?!

É isso mesmo: ensinar como ler Proust? Sim, escutei bem. Já participei de grupos de leitura, o último era das leituras de “Cervantes e a Contemporaneidade Quixotesca”. Não adiantou. Toda vez que Sancho falava, e Alonso Quixano arremetia valores com seu ideal calcado na verve que sublima o espírito, eu chorava e perdia a linha interpretativa como o Herói perdia a sanidade. Chorava por saber que em cada um de nós há um Dom Quixote, chorava por saber que somos todos Dons Quixotes. De um jeito ou de outro, todos fadados a sonho e ilusão. Havia uma coisa legal naquele grupo, ninguém me dizia como ler, ou como interpretar, dava-se dicas, apontava-se o norte, o sul, o leste e o oeste, mas ninguém tentou doutrinar ninguém, era, digamos, uma boa aula de “geografia literária”. E saímos todos, cada qual com sua bagagem ou seus parcos conceitos, rumo às campinas atrás de Cervantes. Creio que estamos indo bem, pelo menos não nos perdemos (ainda).

O que quero dizer é que não há jeito universal para se ler Proust, como não há jeito universal para ler Pedro de Lara – só lendo. Cada par de olhos difere de outro par de olhos. Nem vou entrar no mérito de cada cabeça é um mundo. Querer fazer com que as impressões sejam coincidentes e, no final, formem lastro e unicidade, é estupidez. Querer que minhas impressões se pareçam com a de quem quer que seja, só prova a cegueira da minha ignorância e a perda da prioridade: ler e assimilar segundo minhas depreensões. Quanto mais quero ler e leio, quanto mais quero aprender, ou pelo menos ver explicitações literárias, mais tendo a me afastar da manada e seguir sozinho atrás do pasto no Paraíso – “o Paraíso não é o mesmo pra todos”.

 Não é possível que toda a vez que se fale em Proust ou Joyce, tenhamos que escutar as ideias de “preparação”, “iniciação”, “lastro” e outras coisas que só de comentar meus dedos travam e tenho dificuldade pra digitar. Não há coisa mais nojenta do que seres que não reconhecem a sua mediocridade. E todos que se arrolam peritos neste ou naquele autor são medíocres (não acredito que se possa saber tudo sobre a obra de determinado autor, isso, à minha concepção, é impossível). Todos sem exceção. Na cabeça destes abobadinhos é humanamente impossível que o leitor comum seja capaz de ler qualquer dos dois autores (ponha também na lista: David Foster Wallace, William Gaddis, Pynchon, Italo Calvino, Perec e tutti quanti), como se aquele fosse alfabetizado em sânscrito e estes, marcianos, escrevessem em armênio A.C.

O que eu diria a quem está para adentrar à obra de Proust? Comece por Em Busca do Tempo Perdido. De preferência pelo volume O Tempo Recuperado. Creia-me: não há valores para descrever sua evolução enquanto leitor. Vai ler Joyce? Comece por Ulisses (como fiz. Me lasquei, mas fui). O melhor jeito de matar o rinoceronte é acertando a cabeça. Vai ler Foster Wallace? Vá pela Graça Infinita. Gaddis? Comece por JR.

Meu (des)conselho: nunca faça preparação para ler autor algum. Toda preparação, a qual precisará, lhe será oferecida a partir da primeira página. E depois mais e mais, e, conforme a sua necessidade, ela pode diminuir ou aumentar. Esse bando de estetas ficam bolando estes jogos retóricos enquanto tomam seu cafezinho às 17:45h, querendo atravancar o progresso da nossa leitura. A finalidade das teorias dos grupo de leitura é tirar o melhor da leitura truncada: o sabor inefável da descoberta solitária.

Comecei a ler Proust, não fiz diabo de preparação nenhuma, estou é me divertindo. Pouco me interessa que “os cheiros dos cheiros levem a outros cheiros e a cantos esquecidos na memória involuntária”. Que me interessa tanto cheiro perdido em minha memória? Não lembro se o que comi na sopa de ontem foi repolho ou cebola disfarçada. Tenho pena de quem quer saber porque, e como, este ou aquele autor envernizou a barata. Não me interessa. O Livro de todos os Livros, a Bíblia, pede esse tipo de rito? Nunca, fora do círculo religioso, vi se organizarem grupos de leitura para as Escrituras Sagradas, como tenho minhas dúvidas se estes peri(qui)tos leram o que alardeiam ter lido. Duvidar é um dom precioso, não pretendo perder nenhuma oportunidade de usufruí-lo.

Última palavra: proustianos vão recolher xixi de pulgas indianas para seu banho e chá das cinco. Tenho mais o que fazer. Afinal, estou me preparando para preparar um grupo que prepara a preparação para preparar a preparação para preparar um grupo para preparar a preparação… viu que aranzel do cão? É isto que este povo faz: enche páginas de rascunhos, bolando teorias para a leitura, afastando mais e mais leitores dos clássicos. Não deixe que te assustem, são bandos de babacas envergando a toga, estão na sala de casa, ou no canto da biblioteca municipal perdidos nos oceanos do WhatsApp, e pensam estar no salão da academia na Suécia.

Comigo não meu chapa! Seu canário é bom, mas não canta!

 

Anúncios

3 comentários

  1. Ótimo texto, concordo com tudo o que foi dito, creio que cada leitor deve iniciar suas leituras sem ideias de outras pessoas acerca do que será lindo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s