O Arquipélago de Maisnardi


Diogo Mainardi é aquele que de tanto atazanar o governo d’O Chefe, Lula, (excelente atazanação, por sinal, feita como poucos, para não dizer: como ninguém mais soube fazer. Primeiro porque falta coragem; segundo porque a imprensa brasileira tem o rabo tão preso que peidar é um ato de extrema dificuldade. Uma penúria), deu outra cara ao articulismo político da imprensa tupiniquim. Seus artigos diziam que não se pode ter medo de falar, de atacar, às vezes, de ofender: alguém tinha que falar. Ele falou por muito tempo. Gostava de seu estilo, de suas analogias, assim passei de leitor dos artigos a leitor da prosa literária. Hã?! Lá vou descendo a ladeira onde os caminhos se fundem.

Poucas vezes na vida li um livro numa tarde, conto na ponta dos dedos e esse número não chega a quatro:

Uma: “Leite Derramado” de Chico “Jabuti” Buarque (irresenhável, pelo menos pra mim. Minha ida ao purgatório)”;

Duas: “Fim” de Fernanda Torres (minha volta do purgatório. Só para esfregarem na minha cara que existia coisa pior que o velho misógino do livro de Chico. O fim da picada se tratando de literatura, e meu fim enquanto esforçado leitor. Das resenhas que odeio, a que escrevi sobre o livro é a que mais odeio);

Três: “A Queda” de Diogo Mainardi (um prazer de leitura. Divertido, engraçado, informado e informativo, amplo de vias à interpretação e, sobretudo, a prova de que o homem que aparenta impassibilidade inabalável, ama desveladamente); para ler um livro numa tarde, além do livro ter poucas páginas, tem de ser intensamente instigante, tem que prender, amarrar palavra à palavra e assim por diante linha à linha – a validade estará em cada período. A leitura se faz e rende.

 Encontrei novinho na estante do sebo um exemplar de Arquipélago de Diogo Mainardi (Record; 130 páginas). Segundo a qualidade da prosa vista n’A Queda, era diversão garantida. Nem cassetete, nem hatchet, me mandaram matar leões com um tosco canivete. O livro é uma desgraça!!!diogo-mainardi-thumb2(Essa foto foi pescada do acertodecontas.blog.br)

Enredo

A barragem de Ilha Solteira desmorona e uma enchente inunda a cidade de Pedranópolis. Alguns desabrigados se encontram em meio ao que sobrou emerso das águas sujas e se unem para sobreviver enquanto aguardam o nível da água baixar e a vida seguir seu curso. Ponto.

 Desenvolvimento ou Prosa Boiando

 Todos os personagens são nominados apenas como Desabrigados. Dez aparecem e são rotulados em sequência: primeiro desabrigado, segundo desabrigado e assim sucessivamente. (Confesso que não me agradou não poder me afeiçoar a nada na narrativa. Nomes e descrições, gestos e cacoetes dão corpo à imagem que fazemos dos personagens, dão norte à leitura. Sim, já li textos em que os nomes eram suprimidos, mas era textos além de Bem o do Mal, no caso em questão o texto mal consegue ficar além do nojo em minha opinião.) Todos remam aferrados a um tronco de carnaúba até o topo da abóbada da igreja de Pedranópolis. E assim começou a cozinhar essa quiabada. Ponto.

 A orelhista fala de humor e há uma pá de referências filosóficas. Minhas incursões em filosofias foram desastrosas, infelizmente não pude fazer avaliações mais percucientes. E, se filosofia for ficar em cima da abóbada a insistir que estou refletindo sobre o acaso do cotidiano e suas vicissitudes, sobre os estratos comportamentais do meu semelhante, prefiro voltar ao botequim, à boa mesa de carteado, depois de ler a “filosofia” de Pedro de Lara (simplório, mas divertido).

As cidades da redondeza foram todas submersas: Palmeira d’oeste, Estrela d’Oeste, Aparecida d’Oeste, Santa Clara d’Oeste, Santa Rita d’Oeste, Dolcinópolis, Fernandópolis, Marinópolis, Janeópolis e Susanópolis; todas debaixo d’água e com elas os valores de suas respectivas sociedades. Em algumas linhas parecia puramente manual de citação filosófica, logo depois ciência política. Que diabos posso querer saber de ciência política? Que tem a ver o… com as calças?

O narrador, algo como grande pensador dos desabrigados, assume o posto de líder: Legislador. Assim a narrativa toma forma mais interessante, as cenas se centram, mas ainda não o suficiente para dizer: gostei. Lia porque nunca abandonei uma leitura (se Rabbit for considerado leitura, abandonei uma sim), tinha pressa em terminar, pois a sensação que tenho ao ler livro ruim é que o escritor tá gozando da minha cara. Mainha não criou nenhum idiota. “Seria mesmo a narrativa uma reflexão filosófica?”, rabisquei essa pergunta – e outras impublicáveis – na página três, reli ao escrever a resenha e a única coisa que faz jus a pergunta é a afirmação do Legislador “vocês não passam de ferramentas para a reflexão filosófica.”. Mais à frente, na página 21, as assertivas filosóficas ficam nítidas “se todos fossem indivíduos, não sobraria ninguém para representar a coletividade. Visto que os desabrigados não existiam como indivíduos, tornava-se absolutamente impossível estabelecer diferenças entre eles.”, como não? Se ele acabou de afirmar suas existências? Que tipo de estudo entre individualismo e coletividade é esse?

A seguir “de acordo com meu raciocínio, cada ser humano encerrava em seu interior todo o resto da coletividade, sob a forma de frases feitas e ideias preconcebidas. A única maneira possível de um limitado progresso individual era negar essa coletividade, expurgando os outros de dentro de si. (Pág. 22)”, ora!, isso eu sei: o único modo de evoluir, onde quer que empenhe suas energias, é destoando da manada – para o bem ou para o mal. Tanto é que o mesmo, na mesma página, afirma “acrescentei que o indivíduo dependia inteiramente da coletividade, pois só passava a existir como indivíduo à medida que a negava.”, não foi o que eu disse? Me fale do que não sei ou do que não conheço, e, assim, me instigue a ir buscá-lo, mas se ficares ali, ilhado em sua retórica (só vista, porém nunca sentida), não vai instigar nem os meus dotes de boxeador. Até os cães sabem que, no fundo, é reparando o outro, perscrutando-o que assumimos nossa integridade e individualismo. Quero saber o que não sei e que talvez não possa aprender, você vai me mostrar?

Há confissões “Montaigne é meu escritor favorito. A menor referência à sua obra bastava para que eu negligenciasse o trabalho legislativo e dedicasse horas e horas à análise do argumento em questão (pág. 26)”, a confissão é do Legislador, mas vale ao próprio Mainardi: cita Montaigne o tempo todo, não que seja ruim, mas ad nauseam?! Arrrgghhhhhh!!!!

 Ainda persistindo nessas assertivas o Legislador diz a um dos desabrigados “você é um instrumento para a reflexão filosófica (repeti tanto essa expressão que o espelho me diz que tenho sintomas de catatonia), (pág. 37)”, algo como incitação de reações dos interlocutores e escuta “se não fossemos instrumentos para a reflexão filosófica, provavelmente perderíamos a razão de existir. (Pág. 37)”, eis uma boa razão para a existência: servir de instrumento para tais reflexões. Segundo a ótica dos desabrigados, se todos são instrumentos para as reflexões, como definir o que não é, já que até a água serve de instrumento? Hã?!

Também há o famigerado fluxo de consciência. Essa ferramenta atormenta narrativas que se querem excessivamente complexas, não é este o caso, porém aqui deu chama de vela à noite sem luar e sem estrelas. Seguindo no escuro, segurando essa dúbia chama, escutei “o mais provável é que tudo que me acontecera desde a enchente não passasse de um artificio da minha imaginação, uma confusa fantasia provocada por demasiadas leituras no campo da filosofia. (Pág. 49)”, ah!, como queria que fosse sua imaginação, sua fantasia mesmo. Isto seria a salvação da historieta.

Quanto ao humor, o único trecho em que cheguei a um quase-riso foi na página 50. O Legislador decidiu explorar o fundo da cidade submersa. Estavam desenvolvendo treinamentos para aumentarem sua capacidade pulmonar. “Os exercícios consistiam tocar cornetas, inflar balões, enfiar a cabeça dentro de sacos plásticos e disseminar odores desagradáveis para que tivéssemos que tapar as narinas até o cheiro passar.”. Eis uma boa utilidade à flatulência: ampliar a capacidade pulmonar. Em literatice até peido vira instrumento para reflexão filosófica. Acho que foi destas reflexões que meu primo criou o personagem que habita suas mensagens no WhatsApp: Aristófodes. Este filósofo me recita monólogos estarrecedores em meio à receitas para orgasmo feminino, acho que os desabrigados do Arquipélago não tinham celulares em condições de receber Whats.

As citações dão alento: “num ensaio dedicado à arte divinatória, Montaigne revela que, aturdidos pelas próprias desventuras, os homens tendem a se aferrar às mais disparatadas formas de superstição. Argumenta então que é preferível confiar na casualidade do jogo de dados do que em qualquer tipo de crendice (pág. 67)”, ai, ai, ai… há quanto tempo se vem reclamando da futilidade humana em se apegar nesta ou naquela crença para libertar-se dos grilhões da frustração, seja em quaisquer dos âmbitos: social, familiar, profissional, religioso e sentimental? Isso eu também já sabia. Não posso sanar a derrocada de um fracasso erguendo o templo onde vou orar devotamente a um Deus que – não me atendendo na primeira empreitada –, supostamente vai escutar meu apelo singelo de fiel abnegado e destituído de apostasia. Por mais que não tenha embasamento filosófico, no dia a dia encontro, o tempo todo, a tal novidade que a narrativa tenta expor com ares de novidade – vinda de um museu da Idade Média.

Devo engolir pouco do meu enfado e destacar o ranço de história da filosofia, há, sob toda cascateira de desabrigados, o rascunho do pensamento filosófico, o problema é não haver nele nada de novo, ou nada que ressalte algo contundente do que já foi visto. Afff!!! Roda, roda e cai como a ema enfiando a cabeça no buraco.

Como afirmei parágrafos acima, tudo pode servir de instrumento para reflexões filosóficas. Debatendo sobre retornar às origens, os matutos insistem ante o Legislador “(…) é necessário voltar às origens, ou seja, que não passamos de instrumentos para reflexão filosófica (pág. 86)” ao que de pronto, o Legislador afirma “não há um único elemento no universo que não possa ser visto dessa maneira. (Pág. 86)”, mais uma verdade a ver navios: qualquer pescador de carapicum filosofa sobre a pescaria à beira-mar (garanto: coisa muito mais interessante). Poderia pôr meu pudor na gavetinha embutida no guarda-roupa e expor as “reflexões” que rabisquei nos cantos das páginas, mas sou um desbocado respeitador.

Às páginas tantas nosso Legislador troca de lugar com um dos desabrigados. O que passa, a meu ver, não merece comentário, se até ali a quiabada ainda não estava no ponto, poderia esperar um pouco mais.

Enfim um pouco de conclusões comportamentais “depois da estadia na abóbada conclui que há somente dois universos possíveis, o das ideias e o do dia-a-dia. (Pág. 111)”, e, novamente, qual a novidade? Mesmo um vigário no aquário sabe disso. Um canário na gaiola sabe disso. Você que lê – esta resenha enfadonha –, também sabe disso. Porém, apesar do fastio, é aqui que a quiabada começa a cheirar. A narrativa toma ares de interrogação mais aprofundada e o narrador estabelece diálogo com esposa após retornar pra casa depois de dias na abóbada. Believe me: a única coisa interessante realmente no livro. O diálogo é direto, preciso. Incorre sobre os preconceitos coletivos cabidos no dia-a-dia, na verdade uma catarse de Rousseau, Platão, Montaigne, Voltaire e sei lá mais quem pode ser escalpelado ali.

Além das incursões filosóficas, algumas tão chatas que preferi passar reto, e das dialética comportamentais, nada aqui merece singular destaque. Humor? O humor descrito pela orelhista é para poucos entendidos, bem poucos. Não ri. Nenhuma vez. Ainda bem que só perdi uma tarde digerindo essa quiabada. É certo que meu conhecimento em filosofia não difere muito do que o meu jegue sabe sobre astronomia e física quântica, mas o Arquipélago do Maisnardi é de lascar (e odeio quiabada).

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Mainardi, Diogo

Título: Arquipélago, 130 páginas

Editora: Record