Sobre as traduções de “Ulisses”, de James Joyce


A tendência brasileira à “totemização” começou como uma febre. Febrezinha tratável, algo normal se tratando do país onde brotam mais celebridades do que bandos de refugiados em caminhões pela Europa. Com o passar do tempo tornou-se necessário um estudo patológico aprofundado dessa doença. Sou completamente a favor de pesquisas detalhadas, pena não poder servir de cobaia: não costumo sair à cata de novos idolecos. Minha sem-vergonhice tem limites e, às vezes, exige tanto respeito que chego a pensar que não me pertence.

O poeta Ivan Junqueira (1934 – 2014) disse que alguém – um outro escritor de grosso calibre – disse “você pode traduzir o que ele disse, nunca o que ele quis dizer”, comentando a problemática da fidelidade das traduções às obras originais. É a real. Pelas palavras postas podemos ler o literal, mas as entrelinhas, o subliminar, o que pode ou poderia estar entre um artigo e uma vírgula, jamais poderá ser atingido na mosca. Ou seja: as traduções, por mais maravilhosas que sejam, nunca podem expor com exatidão a alma dos seus autores.

Tinha ganhado de presente de aniversário No Direction Home: A Vida e a Música de Bob Dylan, por coincidência um primo também me deu de presente a mesma obra. Acabei indo trocá-la na livraria e decidi procurar Ulisses de Joyce. Encontrei a tradução da prof.ª Bernardina, mas estava consideravelmente mais cara. Acabei ficando com tradução de Caetano Galindo: capa inferior, mas bonitinha, boa encadernação; porém o importante era ler a obra magna de Joyce (na verdade comprei-a porque encontrei mais barata que a tradução da prof.ª Bernardina da Silveira, e, talvez, porque nunca vi uma edição do Houaiss). De quebra, na mesma pilhagem, trouxe o pirata Keith Richards – Vida autobiografia – à tripulação do escaler.

Depois de seis longos meses, terminei minha subida do calvário joyceano. Mas antes de terminar, pesquisando no velhaco Youtube e incomodando ao máximo o Tio Google, notei que a tradução que ocupava meu tempo era a mais comentada das traduções: Comentários notadamente intencionados em colocá-la como a melhor tradução da obra do Canalha de Dublin, quando não a definitiva em português.

Por quê?

Porque não me interessava. Não no sentido de que a obra não mereça notoriedade, o tempo já provou sua validade e, indo além de toda revolução romanesca, sua grandiosidade, mas no sentido da promoção, da babação, da chatice e do blábláblá. Meu Deus… a academia é um cesto cheio de víboras tentando copular e devorando-se a todo tempo.

  Por quê?

 A verdade é que a tradução de Caetano “Mário de Andrade” Galindo está num lugar confortável: situado pós duas traduções publicadas. Na verdade pode abrir espaço e se alojar entre as duas (como creio que deve ter feito, mas, como ainda não li as outras duas, corro risco de queimar a língua). E o fato de ter demorado dez anos não deve dizer ou acrescentar nada. Absolutamente nada. Por mais complexa que possa ter sido a tradução, dois pares de olhos já tinham trilhado linhas e entrelinhas. O que estes dez anos podem dizer à tradução de Houaiss (1966), ou à da prof.ª Bernardina (2005)? Novamente: nada! Não interessa quanto tempo se levou traduzindo. Mesmo porque, com dois cavalos abrindo trilha, deveria ter economizado tempo. Então, por favor, parem de comentar que Galindo levou dez anos para traduzir Ulisses! Isso é um problema dele. Não me interessa. Não alardearia, mesmo se possível, que levei dez anos acordando ao lado de Marilyn Monroe (bom… até que eu merecia pelo menos umas noites)!

Diogo Mainardi fez jabá no Manhattan Connection (vi com estes olhos, e escutei com estes ouvidos, que o forno crematório há de fazer arder), e, ainda que citasse a amizade que tem pelo tradutor, nunca vi nada parecido em relação à nenhuma outra obra – seja qual for o autor – traduzida por estas bandas. Nunca antes na história deste país um tradutor ficou acima do autor traduzido! A coisa fica inexplicável quando se fala de James Joyce! O cara foi elevado à degraus onde se encontram Tolstoi e Cervantes, sua obra foi eleita o romance mais importante do século passado. O que não seria pouco, nem para os deuses citados anteriormente, se assim fossem tratados em suas respectivas épocas.

Volto a repetir: não li tradução a do filólogo Houaiss, e, como também já disse, não comprei a da prof.ª Bernardina. Contudo, sei que você já deve ter escutado coisas horrorosas, tipo “Houaiss usou todas as palavras do seu dicionário para traduzir Ulisses! Empolou o texto!” ou “a prof.ª Bernardina fez quase tantas notas de rodapé quanto a quantidade de referências no corpo do texto, fugindo às questões mais problemáticas e linguísticas”, tudo baboseira. O que Houaiss fez foi engravatar nosso idioma que vivia em trajes sumários e o pôs em local de respeito que é onde deve estar toda língua que move uma nação, e o que a prof.ª. Bernardina fez foi “aliviar” a austeridade do filólogo (pelo menos é o que se pode entender dessa celeuma tradutória que, entre olhos roxos e bocas arrebentadas, está longe de um final apaziguado).

E o que Galindo fez

Ora! Sabe-se que Joyce odiava hífens (e vírgulas também). Galindo deu galindadas nos hífens.

Só isso?

Não. Deve ter trocados advérbios, locuções adverbiais, verbos, substantivos e outro monte de diabos (que pouco conheço) em trechos-chaves. Como o verbo “cabriolar” que Houaiss usou e ele, muito honestamente, afirmou que não teria imaginado tal solução vocabular àquele trecho, usando-o mais à frente para evitar comparações.

E… Só?!

Jesus! Tem mais! Quanto ao (seu) Ulysses com y, disse:

“*Depois de explicar tanta coisa aqui talvez eu possa me arriscar a usar as palavras que foram um dia de Guimarães Rosa e, recentemente, de Quentin Tarantino (esse cineconoclasta me persegue!), quando lhe perguntaram o sentido da estranha ortografia do título de Inglourious Basterds: tem coisas que é melhor deixar para o leitor resolver…”, e aí satisfeito (a)?

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(foto: letroactivos.com)

Para além de satisfações e insatisfações, não há nada na tradução de Houaiss que não esteja na da prof.ª Bernardina, embora com alguma diferença; do mesmo modo, não há nada na tradução da prof.ª Bernardina que não esteja na tradução de Caetano Galindo, também, devo ressaltar, com várias e variáveis diferenças. Sendo assim algumas coisas, as principais, nunca mudam ou mudarão: A essência, a alma e a verve alucinada de Joyce são as mesmas – isto nenhum tradutor e nenhuma tradução poderá mudar. E se tens Ulisses na estante, seja qual for o tradutor, não se perturbe: a essência estará lá. É Joyce página por página. Quantos aos receios sobre a leitura, vale lembrar, e como vale!, as palavras de Nabokov, nome certo na minha lista de injustiçados pelos suecos. Comentando o mais famoso “guia de leitura” do romance, escrito por Stuart Gilbert, disse o russo: “um chato (…) seria uma completa perda de tempo procurar paralelos próximos (com a Odisseia. Desconfio que Homero – se morreu – morreu de rir. Eis prova plausível) em cada personagem e cada cena do livro”. Por Nabokov, entendo que Ulisses não pode deixar de ser o que é: um livro. Não a merda de um quebra-cabeças que não pode ser montado por qualquer moleque afim de se divertir.

 Você sabe quem é Paulo Bezerra? Eu não. Mas sei que traduziu O Duplo de Dostoiévski (do russo da época!). Você sabe quem foi Paulo Vizioli (1934 – 1999)? Também não! Mas traduziu Omeros de Derek Walcott, obra não menos trabalhosa dado o uso do dialeto crioulo pelo poeta santa-lucense. Você sabe quem é Paulo Henriques Britto? Também não sei. Porém, deste, não vou citar nenhuma tradução. Se você nunca leu nada traduzido por ele – pior: se não tem nenhuma obra traduzida por ele na sua estante –, com certeza há tempos que não vai à livraria: é apenas o maior tradutor brasileiro em atividade. Se em alguma leitura, das leituras traduzidas por estes, você notar a presença deles na tradução – terão fracassado em seu engenho. Duvido que cometam tal equívoco, não há vaidade onde a sensatez e a prudência imperam.

O grande tradutor se ausenta, física e espiritualmente, da tradução (a menos que você seja um dos Irmãos Campos e aí já estaremos falando de outra bagatela enojada e sem cabimento). Ele deve ser apenas um canal para introduzir-nos àquele mundo desconhecido. E só. Ou você já ouviu falar de A Consciência de Zeno de Ivo Barroso? Ou d’O Coração das Trevas de Celso M. Paciornik? Ou Três Tristes Tigres de Luís Carlos Cabral? Nunca. Embora não seja perito no assunto tradução (como não sou em merda nenhuma!), poderia estender essa brincadeira até à próxima passagem do cometa Halley. Respostas: Italo Svevo, para a primeira; Joseph Conrad para a segunda; Guillermo Cabrera Infante para a terceira.

 O problema não é quem seja Caetano “Mário de Andrade” Galindo. Está dito: tradutor e prof.° universitário em Curitiba. E profissional muito competente, não restam dúvidas. Mas por que colocá-lo sobre os ombros de Joyce? Nunca vi um tradutor aparecer mais que a obra traduzida. Também não digo que Galindo esteja trabalhando pra isso, se é um homem de letras e prudente, como creio que seja, deve estar estarrecido com tanta babaquice (assim creio, talvez, compadrewashingtonianamente). Estou cansado da conversa de “Ulisses do Galindo (a piada mais chata e mais sem graça da história da tradução literária no Brasil)”, chega dessa balela que não se sustenta ao menor espirro! O Ulisses é – pelo menos ainda é! – de James Augustine Aloysius Joyce!

Não sei quantos anos Houaiss levou em seu processo tradutivo, nem quantos anos a prof.ª Bernardina levou, o importante é saber Quem o escreveu. Se quiserem saber quanto tempo Joyce levou escrevendo o calhamaço, a saber: entre 1913 e 1914 inicialmente, até à publicação em 1922. Quanto a esse tempo há até a piada. Um sacana pergunta: “e o que o senhor fez na Grande Guerra, senhor Joyce?”, no ato: “eu escrevi Ulisses e você?”.

Joyce arrebentou a vista e a saúde; fez tantos ajustes e releituras que, entre um substantivo e um verbo, enfiou vinte páginas em alguns capítulos; apostou a família e desgraçou a vida de mulher e filhos nessa empreitada. Fugiu da Guerra. Fugiu de credores. Traiu amigos, tratos e contratos firmados. Foi apedrejado por muitos, protegido por alguns poucos, feriu o orgulho de outros, foi sacaneado por um punhado (entre eles H. L. Mencken); teve seus textos pirateados; não ganhou o suficiente para estabelecer um padrão de vida confortável à família (acho que nem se vivesse 100 anos ganharia o suficiente para sustentar os padrões que ostentava), não pôde ajudar o pai arrebentado num hospital arrebentado em Dublin, foi escorraçado da Irlanda e pelo resto dos dias conviveu alheio e descrente da loucura da filha. Tudo, tudo isso decorre de Ulisses e sua produção. Silvia Beach que – editou e publicou Ulisses – protegeu-o e sustentou por muito tempo, descreve dramáticas cenas em suas memórias. Lidar com Joyce poderia parecer ser fácil, mas sustentar os devaneios da libertina Nora, os tratamentos da maluca Lucia e outras excentricidades do cegueta, exigiram de Beach esforços sobre-humanos; como exigiu de todos que tentaram ajudar o homem. Todos esforços válidos, que fique claro (com exceção de Lucia: nem Jung deu jeito na desmiolada). Galindo está longe de passar tais misérias. Deve estar mui saudável gozando os louros de sua façanha e, risonho, sob a faceta do fã-clube de mentecaptos.

Então por que fazer com que a memória do bastardo nolano – que dedicou a vida, e não só a sua, à produção literária – fique submissa a um nome de agora? Poderia fazer uma piada grosseira: por que Nora masturba Joyce em 1904 e Galindo… ?! Ou ainda pior: por que Galindo goza com o… dos outros?

*Nota do tradutor. Galindo, Caetano

Ulysses, James Joyce. Penguin companhia

1106 páginas.

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