Colisões Bestiais (Particula)res, de Kátia Gerlach


Kátia Gerlach é uma carioca radicada em Nova York, estreou em 2009 com “Forrageiras de jade” , “Forasteiros” (2013) e este ano lançou Colisões Bestiais (Particula)res, livros de contos.  Surpreendeu muito, tanto positivamente, quanto negativamente, nesse livro com extremos tão marcados.

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Kátia Bandeira de Mello Gerlach é advogada e mestre em Direito Internacional (Facebook da autora)

Comecei a leitura com uma boa impressão, já na primeira frase do primeiro conto, que vem em formato epistolar. Um desconhecido dirige- se a Julio Cortázar: “Padeço de celafeias intermitentes e acendo os sonhos com a cabeça de um fósforo.” (p.11) “Opa!”, pensei. Um livro que começa assim não pode ser ruim. Agarrei- me na leitura, Kátia é original.

Autor? Pense muito bem na primeira frase do seus livro. É por causa dela que muita gente pega ou larga.

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O meu exemplar autografado. Obrigada, Kátia!

O livro consta de 18 contos narrados, ora em clave poética, ora teatral, muitos trechos são herméticos, a escritura é cheia de figuras de linguagem, de analogias, não é uma linguagem coloquial, está muito trabalhada (como deve ser a literatura arte, a que gostamos, mas cuidado com os exageros). Dá para notar que Kátia viajou e estudou outras paragens, pois há elementos culturais e vários códigos linguísticos, como “La promenade” (“O passeio”) no conto Bicho na cabeça (p.13), que é todo fragmentado, cheio de subtítulos. Os personagens são russos, “da Rússia profunda”, e a descrição de Juarez, nome adotado em homenagem a Velázquez, é descrito de forma muito interessante em tópicos devidamente explicados como “satanista”, “domador de anões” (ele também é anão e protagonista desta história) ou “chupador de mangas frescas”, e outros. Original, gostei!

Em Coleiras de Estimação, a história começa na “Praça do Tempo” também há alguém que faz xixi na rua, como no anterior, e também existe outro Juarez, esse, banqueiro de Jogo do Bicho. Otto, o narrador, é um jogador de xadrez, seu escritório é a praça e os adversários são os pedestres. Inexistente civilmente, não tem certidão de nascimento. A praça serve de abrigo para quem não tem abrigo. Uma frase em francês (p.31) me desconcertou um pouco. Um morador de rua, um idioma e jogo do bicho, houve uma incompatibilidade aí, não tem como ligar os fios. Literatura tem que ter lógica? Não sei, mas tem que convencer. Otto conversa com Borges, o cego (uma clara referência a Jorge Luis Borges), esse que fala francês. Nesse conto encontrei algumas falhas, algumas afirmações improcedentes (quando você lê um texto e fica discordando dele por falta de verossimilhança, ele entra em descrédito), como “A loucura e a imundície andam de mãos dadas” (p. 35). Como há mil controvérsias, há loucos, muitos, com mania de limpeza, é o tipo de afirmação a ser evitada, principalmente quando depois não argumentos suficientes para convencer o leitor. A partir daí, aconteceu uma mistura de assuntos desconexos, nenhum sentido, naufragou a narrativa. Passei ao conto seguinte:

O Columbídeo de Monsieur Le Pain

Eu, você e a maioria das pessoas teria que jogar no Google a palavra “columbídeo”, foi o que fiz: um pombo. O sujeito é adepto ao “mesmerismo”, outra vez o Google: é uma doutrina que usa o magnetismo animal. Como?! Segui a leitura para ver se a história seria explicada e tudo ficaria claro sem a ajuda de recursos externos. Sim, ficou. Esse texto acontece em Nova York. A mistura do espanhol sem a tradução no pé de página me desgostou um pouco, ainda que sejam frases simples, eu acho que sempre têm que estar traduzidas.

Circe e os olhos misteriosos do bode (p.45) tem um subtítulo: Pela hora da morte de Whitney Houston (aí sim com explicação no pé da página sobre a cantora). Esse texto é perigoso, porque pode ferir sensibilidades. Falar de suicídio é bastante complicado. Acho que a literatura deve ser uma arte livre, deve- se falar de tudo (ou quase tudo), mas também o leitor é livre para largar o texto e foi o meu caso quando li: “Suicidar- se é crime de pena inexecutável”. A opção sempre, sempre, sempre deve ser a vida, mas não julguemos ninguém.

Em Chinchilas na peleteria, Darlene é a protagonista, uma cabeleireira de cabelos crespos que mora em um conjunto habitacional, é amiga da Edileuza, Creuza e Marlene e quase esposa do Waldecy. O estranhamento que a escritura de Kátia me provoca pode ser porque, apesar dela colocar nomes tão brasileiros, parece uma gringa falando sobre brasileiros. Se é ruim? Não sei.

E ainda, Cuspe no Aquário, sobre um casal de idosos em um asilo, estranho, como todos os anteriores; em Colecionadores fotogênicos, dividido em três espectros, começa com uma frase tão esquisita, que fiquei pensando nela o resto do conto e não consegui pensar em mais nada: “A esterilidade atmosférica impede repetições” (p. 71). O primeiro espectro parece um monte de frases soltas, sem nenhuma conexão entre elas. Se a autora quis fazer um “jogo de inversões”, eu não consegui desvendar o mistério. No segundo espectro, um conto dentro do conto, que não parece ter conexão com o primeiro e a mesma sensação de frases que parecem descontextualizadas. O terceiro espectro começa assim: “Ninguém sabe como Deus se sustenta”. O que vem depois também não tem nenhuma relação com essa afirmação estranha.

Em Sanatório Número Seis, eu já estava quase precisando de um sanatório mesmo. A narrativa linear deu um alívio. Aí chega mais uma afirmação dessas a ser evitadas: “Piétrov, como os homens acima dos cinquenta anos, recusava- se a absorver conceitos novos.” (p.76). Por quê? Porque você e eu, muitos de nós, conhecemos homens acima de cinquenta que não são assim e vai faltar verossimilhança, você não vai concordar e discordar muitas vezes (ou o tempo todo) de um livro é o caminho mais fácil para abandoná- lo.

Juarez aparece no último conto outra vez, Salmoura. Todo fragmentado, lotado de subtítulos, parecido com o primeiro, reencontro de personagens do livro.

A atmosfera desse livro é misteriosa e enigmática (em excesso). A autora parece que sofreu uma clara influência de Borges e a Cortázar (argentinos, que também moraram na Europa). O afã de erudição, intencional ou não, carregou os textos em alguns momentos, como se estivessem poluídos por um excesso de informações. E muitas frases estão desalinhavadas do conjunto do texto, sem coerência nem coesão. Não sei se isso é para desconcertar o leitor mesmo, se são contos quebra- cabeças, com enigmas, só que errou na dose. De todas as formas, é um bom livro, ainda que tenha me deixado confusa, é agradavelmente estranho. Estranho é o adjetivo para esse livro.

Quer brincar de esconde- esconde? Pode ser interessante, só que na minha opinião, nada substitui uma boa e simples história bem contada, sem tanto malabarismo.

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Gerlach, K.B. de M., Colisões Bestiais (Particula)res, Oito e Meio, Rio de Janeiro, 2015. 147 páginas

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