Resenha: O ritual dos Chrysântemos, de Celso Kallarrari


Foi preciso que um jovem sacerdote ortodoxo nascido em Aral Moreira, Mato Grosso do Sul, viesse sacudir a roseira – abatida e sem rosas – da literatura baiana para despertá-la da prostração em seu marasmo brejeiro.

O Ritual dos Chrysântemos, romance de estreia de Celso Kallarrari, é a resposta – ousada, inteligente, imperiosa e arrogante, como todo libelo de liberdade deve ser –, à pergunta que estava vagando em livrarias e bibliotecas pela Bahia: ainda há literatura na Bahia? O Ritual nos diz que sim. Pena é Kallarrari não ser baiano de pura cepa, aí sim o “sacodimento” seria completo. Eu sou, e sei que diabo se passa com a Arte Sublime na minha terra.

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O escritor Celso Kallarrari, professor universitário, sacerdote, casado e pai (foto: Fabio Anselmo- Facebook do escritor)

Kallarrari vive na Bahia, mas saiu para ambientar seu romance no pico do mundo, nos quatro cantos do país e onde mais lhe agradasse escrever sua prosa arrojada. É interessante como o enredo se desenvolve e vai, aqui e ali, minando espaço através da linguagem e ao sabor de linguagens das mais variadas nuanças. Se fosse abordar e comentar todos os temas e direções apontadas pelas flechas lançadas pela saga de Eurico, não faria uma resenha, mas uma Tese de Conclusão de Curso ou um longo ensaio introdutório: nenhuma destas é via para meus comentários. É muita coisa a ser vista: poesia (clássica e moderna); filosofia; História geral e história contemporânea do Brasil (desde a fundação do Estado Novo); política (estado e conservadorismo); economia (capitalismo e socialismo); linguística e linguagem (latim, dialeto, gíria, neologismo, línguas antigas e em desuso); questão indígena (território, colonização, descolonização, catequização e desindianização); religião (catolicismo, protestantismo, ateísmo e espiritismo); a Bíblia e os passos de São Tomé; deve ter mais coisa no caldeirão, mas pode ter passado despercebida pelo olhar da águia que vos crocita.

O petardo se divide em três partes:

Primeira Parte                        Segunda Parte                                  Terceira Parte

Preambula                            Cenarius                                             Epiloga

Euricus                                Avenida Paulista                    Os Crimes dos Chrysântemos


Primeira Parte

Preambula

Euricus

Na primeira parte conhecemos Eurico, filho de sírio com índia guarani, sabemos que o texto foi criado em sete dias e conhecemos também o narrador: Eulíricus. A metamorfose do eu + Eurico + (eu)lírico. Ou seja: Kallarrari (?), Eurico e a própria linguagem, aprisionados num só corpo: a narrativa e seu desenvolvimento. Ele mesmo nos diz “de fato, nesse ajuntamento moderno de palavras incertas, numa inspiração psicográfica e mnemônica, ora sou e não sou Euricus. (Pág. 18)”, temos assim dito que haverá outros “eus” narrando a saga de um só Eu. Sabemos também que está morto, pois nos dias de hoje só os mortos viram heróis. A medida que a narrativa vai se desenvolvendo, conhecemos traços e pinceladas sobre quem é Poliana e qual sua importância na narrativa. Deixo claro: não se resume a musa do herói. No final ela é maior do que ele, pelo menos pra mim.

Confesso que foi difícil me afeiçoar à primeira parte. Fiquei confuso várias vezes, queria que o narrador se decidisse e definisse quem ou o que queria ser, até entender que todos eram um só (cogitei abandonar a leitura, mas todas as vezes que sinto essa vontade, sou recompensado no final). Trechos nessa linha “(…) principio a recordar aquelas coisas que eu mesmo investiguei, nos seus pormenores. Isso porque meto nas cabeças dos personagens aquilo que eu, em minhas minudências, penso. (Pág. 26)”, significa que há outras perscrutações no relato, investigações nas investigações, resumindo: descasca-se a cebola camada à camada. Não foi fácil. Então entra em pratica minha velha estratégia quando uma leitura se atravanca: parar. Parei, fiz outras coisas, li outras coisas (Do Diário de Alguém Que Não Nasceu e Outras Histórias – Isaac Bashevis Singer) e voltei ao que ainda não tinha ido.

Já na primeira parte sabemos da formação do que chamei de “Pirâmide do Eu”, os personagens, na sua grande maioria, são prefixados ou sufixados por “eu”. Isso, creio, feito com intento de dar coesão ao labirinto criado na mente de Eurico, e conseguiu (na minha mente também).

Uma coisa que rabisquei ao pé d’uma página: “o narrador não consegue calar o poeta Kallarrari”. Há muita poesia nas entrelinhas, às vezes em forma de oração ou embalada por idiomas e dialetos. Há citações de Drummond, se lidas rapidamente, passam despercebidas “e, no meio do caminho, tinha vários sujeitos (pág. 77)”, no meio do caminho tinha uma pedra, tinha uma pedra…”. Esse eu lembro! E sutilezas assim “Eurico não sabia que sua história era mais bonita que a estória de Robson Crusoé… (pág. 100)”, não me lembro do poema, mas Drummond é Drummond – não tem lugar nem hora. E há pinceladas de pessimismo pra lá de andreieviano: “tudo estava amargo como o mundo que o cercara. A noite estava amarga. A vida tornava-se amarga. A morte batia-lhe à porta, e a morte era-lhe também amarga. (Pág. 115)”, trechos como este não salvam um parágrafo – enlevam, inimaginavelmente, a narrativa inteira.

Embora eu seja um tolo romântico, como todo apaixonado por poesia, a primeira parte estava descendo como aquele uísque barato, com rótulo escocês, que você aceita para não fazer desfeita ao amigo que não vê há algum tempo. A estrutura dos parágrafos é direta: longos períodos, bem pausados por vírgulas e sequências frenéticas de fluxo verbal. É densa e tensa: a danação do cão atrás das cadelas sob uma lua pálida e impassível. A primeira parte dividiu várias das minhas opiniões. Não terminei a leitura baseado em meu interesse pela primeira parte, é obvio, mas segui porque acreditei que o pós, traria novos ares. Que tipo de ares? É outra treta!


Segunda Parte

Cenarius

Avenida Paulista

 A segunda parte narra a vinda de Eurico a São Paulo, com longos flashbacks e incursões ao passado de ambos os amantes; sua ascensão profissional e a exploração do ambiente onde se encerrará a trama. Gostei muito da segunda parte, salvou a vida da primeira, sem dúvidas.

Adoro história e o enlace é aberto com um mergulho nos meandros da Primeira Guerra Mundial. Fazendo um passeio, e atento apanhado histórico, o narrador passa pela Síria, “berço da religião, da história e da cultura, a exemplo da cidade de Saydanaya, do vilarejo Maalula, onde existem apenas quase vinte mil falantes do aramaico, língua de Jesus, Maria e apóstolos. (Pág. 123)”, poucas vezes, para não dizer em nenhuma outra leitura, escutei um professor (ou um sacerdote, Kallarrari?) tão interessado no seu ofício. Fala ainda do histórico convento de Querobim e do mosteiro de São Jorge edificado nos primeiros séculos do cristianismo. “Uma coisa confesso: estou aprendendo história da religião como nunca antes”; rabisco coisas desse tipo num parágrafo e, duas páginas à frente, me deparo com a oração, no formato de prosa poética em dialeto indígena e língua espanhola, discutindo o respeito aos direitos dos povos indígenas. É uma viagem!

Segue a aula de história. Depois de passar pela “Guerra Guasú (1864 – 1870) uma das primeiras guerras da era industrial (…), a Grande Guerra que devastou 60% da população (paraguaia), destes 90% eram homens adultos (pág. 127)” e segue com dados e fatos. Ainda na mesma página fala “no Cerro Corá, região montanhosa de baixo relevo, lugar solene do último confronto, Solano López torna-se a bravura e o martírio, o herói que resistiu até o fim, até o fim de uma história, de uma história paraguaia, de uma história oficial. (Pág. 127)”, pelo tom inflamado do narrador, ao proferir tais palavras em repetição, notamos a vontade de atacar o desrespeito à verdadeira história e a vontade de trazê-la à tona. Árdua tarefa.

Solano López é aquele que – já em progressiva fuga –, acuado pelo General Câmara, nem poderia esconder-se entre os seus: “os seus”, raquíticos, famintos e desdentados, mal ficavam sobre as próprias pernas para esboçar reação ou fuga; enquanto Solano, notável rotundo bem nutrido e com seus 32 dentes, talvez mais, dado o tamanho da sua gula, cogitou nova escapada. Cercado pelas tropas brasileiras, tentou resistir, mas Chico Diabo acabou a farra. É um herói paraguaio, para os paraguaios; para o Brasil é um caudilho sanguinário que levou seus país à ruína devido aos devaneios de grandeza.  A cruzada contra Solano López é o evento sul-americano com a maior bibliografia, inclusive fora das Américas, portanto não se pode chegar à verdade sem esbarrar em centenas de informações a serem vistas e revistas. No fim das contas a história da América Latina é repleta de ditadores sanguinários e este fato é anterior ao encontro de Aquiles e Heitor ante os portões de Tróia. Este mesmo fato, se esmiuçado à raiz, encontrará o sangue de um latino como gene precursor de todo mal que assola o continente. A verdade quanto às raízes das mazelas latino-americanas, jamais poderiam ser explicadas com suas veias abertas.

A segunda parte poderia ser caracterizada pelo posicionamento histórico, e assim a vejo. Essa visão seguiria silente se na página 148 não encontrasse o impasse “quem são os deuses secretos que tramam e destramam nossa realidade, quando passeiam no território dos simples mortais como rifoneiros da paixão medida? Onde vivem? O que fazem? O que querem? São benéficos ou são sádicos? Quem são? (…) Deus está em nós? E nós? Nós estamos em Deus? E Ele está em nós?”, destituído de religião, pude imaginar a aflição do personagem. Questionar a própria fé, e o Objeto que suplanta sua existência, é o impulso deve ocorrer a qualquer religioso. Já tive meus dias de trovão. Não sei a Quem agradecer, hoje não os tenho mais. O impasse se estende, a aflição de Eurico transpõe a barreira do suportável “(…) queria ser uma voz, cortante e estridente, e poderia gritar nas ruas num tom escatológico dizendo: o mundo precisa de Deus? O homem precisa de uma religião? (Pág. 149)”, quem sabe? Os poucos que conheço, e que podem responder essa pergunta, também não sabem. Me apego ao Deus de Kazantzákis, e aceito minha condição. Pareceu mais um grito de apostasia do que a simplória indagação da crença.

À certa altura, a narrativa me pareceu a perturbação de um dostoievskiano trancafiado num quarto branco com Nietzsche: um está com a Bíblia na mão; o outro, louco e descabelado, com a espada empunhada, gritando “Deus está morto!”.


 Terceira Parte

Epiloga

Os Crimes dos Chrysântemos

Na terceira parte conhecemos, de fato, Poliana. Filha de japonês e paraguaia, “a beleza celeste de uma mulher capaz de mudar o coração e o destino do ser humano. E, na mente, uma infinidade de anas. (Pág. 169)”, assim nos aprofundamos no Ritual e os andamentos do passo final. Poliana, a polivalência de toda alma feminina exposta na trama, vive o dilema de ter desafiado as tradições familiais para viver seu amor junto a Eurico. A família resigna-se e aceita. O destino põe sua aplastante mão sobre a união dos jovens. Poliana assume proporções que lembra as musas do romance clássico do século XIX, estragaria a festa contar o que acontece, embora se saiba, pelo decorrer da leitura, que está morta. É que o amor não se faz presente aqui como no sermão do padre Vieira, mas como deve ser: inquebrantável. Aparece a figura de Alfeu, menor, porém não menos importante na costura dos retalhos que constituem O Ritual. Somos apresentados ao delegado Mckinleu e a Eufrânio, seu cão farejador. Tentando desvendar o assassinato (?) de Poliana, o delegado entra em contato com o livro A Cruz e os Crisântemos, de Roterdã, mas parece não interpretá-lo corretamente. O desfecho, policialesco sem fugir ao enredo romântico, pinta um quadro fantástico – e confesso que jamais imaginaria tal desenlace.

A sentença “o significado do enredo e de suas motivações tinha a ver como o texto fora construído e não como eu o via (pág. 208)”, diz mais do que aparentemente pode parecer. Muita coisa fica nas entrelinhas. O “assassinato” de Poliana fica como homicídio por conta de um lapso passível até mesmo às formigas em seu labor eternamente autômato. Dr. Euclides da Cunha Sertão, médico legista encarregado do laudo cadavérico, a exemplo daquele Euclides, se descuida do seu ofício e… catapum!!!

Eulíricus ainda encontra espaço e tempo para alfinetar “(…) a única verdade está na literatura (…), a verdade não está nos best-sellers efêmeros e massificadores. (Pág. 236)”, alô! Chico “Jabuti” Buarque, Paul Rabbit, quem mais? Homenageia um dos meus favoritos João Cabral “somo muitos Euricus/ iguais em tudo na vida/ na mesma morte morrida/ na mesma vida vivida. (Pág. 264)”, e afinal é o que somos na morte como na vida: a sucessão de vidas na mesma vida.

Cheguei ao final satisfeito e o comentário que fiz ao final da primeira parte conclui minhas impressões: “e se toda essa confusão fizer parte da mente psicótica do personagem? Quem é o narrador: Eurico? Eulíricus? Kallarrari? Se, ao final da narrativa, esse jorro desconexo e horrendo, fizer algum sentido, estarei diante de um literato nato, pronto à próxima empreitada sem o menor cálculo ou dificuldade.”, não me enganei. Essa foi umas das melhores estreias que pude presenciar.

Os baianos viram a roseira balançar, o sacodimento foi dado, agora limpem a sujeira e reguem a Arte Sublime como ela merece. O Ritual dos Chrysântemos é um passo a caminho da novidade em nossa repetitiva literatura.

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Kallarrari,Celso; O Ritual dos ChrysântemosReflexão, 287 páginas.