Resenha da bio de Bob Marley e uma história de fantasmas


O DUPPY DE CLAUDE MONET

Tinha acabado de assistir um documentário sobre Bob Marley (Robert Nesta Marley, 1945 – 1981). Tinha lido, há uns meses antes, a maravilhosa e informadíssima biografia (Queimando Tudo – A Biografia Definitiva de Bob Marley, Record. 542 páginas.) escrita por Timoth White que vai de sua infância no campo, suas raízes e influências religiosas africanas às raias do estrelato – e ao tombo final. Tudo em torno do seu nascimento é intrigante, as superstições, as coincidências, sua predestinação. Fiquei de tal modo impressionado com o relato da vida de seu avô, Omeriah Malcolm, que, sendo uma espécie de ancião, o sábio da aldeia (equivalente a esse bando de charlatões e pais de santo daqui), tinha realmente o dom ligado às pregações e seguimentos da Obeah (a Santería cubana deles, a nossa Macumba do jeito deles), que reli todos os capítulos relacionados à infância do “Natty Dread”.

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(foto: wallpaperpassion.com)

Um duppy é o espírito de alguém que morreu e não foi “devidamente encaminhado ao outro mundo” permanecendo entre os mundos – de vivos e mortos – fazendo mal a quem lhe aprouver. Às vezes são tidos como espíritos infantis, travessos, mas que podem realmente malfadar o destino dos perseguidos e desgraçar mais ainda a sorte de quem os perseguidos porem em mira.

Na aldeia de Nine Miles, condado onde Marley nasceu, as crianças não participavam das cerimonias fúnebres, nem dos velórios. Portanto não viam os mortos. Conta que certa vez o pequeno Nesta – seu segundo sobrenome, como Marley era chamado por sua mãe – entrou esbaforido num velório. Ao ser repreendido, por olhares, dirigiu-se à saída e foi jogado, por uma força desconhecida, cerca de 9 a 10m de distância da casa. Foi pego pelos duppys! Bateu a perna numa pedra, a cabeça numa raiz, ficou inconsciente e passou a ser tido como um menino perseguido por duppys.

 Ao mesmo tempo que era vigiado pelo avô, e perturbado pelos duppys, Marley, como que em passe de mágica, passou a ler a mão das pessoas e lhes ditar a sorte. Algumas leituras soam estarrecedoras. Cedella Booker, sua mãe, conta que saíram para ir à capital, Kingston, e no caminho uma mulher, conhecida da aldeia, pediu ao pequeno Nesta que lesse sua mão. Para seu espanto o menino, que adorava exercitar a quiromancia, se negou, ao que insistiu a mãe “vamos Nesta! Leia para a senhora. Vamos pequeno!”, o menino fechava os olhos, virava o rosto, “vamos Nesta, leia, é rápido…”, insistiu a mãe e, assombrado com os olhos fechados, Nesta gritou “não posso! Não posso! Está tudo escuro na mão dela…”, ambas as mulheres riram e cada uma seguiu seu caminho. Ao retornar no final da tarde para casa, souberam que a mulher tinha morrido. Estava sendo velada no salão da comunidade. O pequeno nesta teria dito à mãe: “mãe ela não queria me ouvir não é?”.

Sim, pode ser exagero dizer que a fala do garotinho foi a de uma fatídica previsão. Mas houve outras, e muito mais impactantes. Já adulto Bob teve problemas com um produtor, Leslie Kong, e em determinada discussão disse “você nunca mais vai ganhar um centavo às nossas custas (referindo-se ao The Waillers)”, no dia seguinte Kong foi encontrado morto. Teve um infarto fulminante. Há também o caso de uma carta, publicada num diário jornalístico, que falava das expectativas de um jovem estudante negro na Jamaica. Ao ler a carta, sentado à frente de um estabelecimento comercial, Bob irritado teria amassado a folha de jornal e jogado numa cabra que atravessa a rua. A cabra virou-se em sinal de ataque. Bob encarou-a e deu de ombros, com ares de desprezo. A cabra se retraiu, desistiu da investida. Ao atravessar a rua, já entrando no terreno do seu proprietário, foi atropelada por um caminhão – e quanto ao jovem estudante da carta, morreu esfaqueado numa briga de gangues. Todos estes relatos são atribuídos – segundo biógrafos e crenças – ao fato de Bob não ter se livrado dos duppys que o “pegaram” na infância e por ele ser muito ligado ao avô. Creem que carregou a descendência espiritual do velho e o fardo de sua ligação com a Obeah. Dizem ainda os biógrafos que, até o fim da vida, Cedella Booker insistiu na crença de que “um Duppy de força maligna desligou Bob deste plano material”.

 A verdade é que a Jamaica, desde a descoberta pela Espanha, depois de Colombo ter chegado em 1494, sempre foi um seleiro de variadas crenças e ritos afro-religiosos. Um verdadeiro carnaval de rituais “macumbísticos” para negros, índios, brancos e chineses. Depois que uma tempestade acabou com as mordomias de Morgan, os ritos sobreviveram. As crenças nisso, naquilo e principalmente no invisível, ficaram ainda mais fortes.

Como podem ver fiquei de tal modo impressionado, com o que vi e li, que meu artigo quer se confundir com um conto de “história da Macumbaria” (sem a menor didática e menos ainda em pretensão) e não é nada disso, mesmo! O impacto da primeira impressão é o fio condutor de várias superstições, tanto as impostas em nós por nós mesmos, como as impostas pelo que ouvimos ou tentam nos impor.

DUPPY(gravura: melissalynart.blogspot.com)

À época deste fatos, lidos e assistidos que discorri acima, morava no edifício Claude Monet, ap 302, na rua Guilherme Behling – Ilha da Figueira – Jaraguá do Sul – SC. Certa noite cheguei do trabalho, tomei banho, lanchei e liguei a tevê. E, como sempre acontece com os cansados que insistem em assistir tevê depois do horário em que o corpo tolera, dormi com o aparelho ligado. Lá pelas tantas da madrugada, levantei para ir ao banheiro. Voltei e deitei, a tevê estava ligada quando saí. Estava ligada quando voltei. Mas ao deitar percebi, o que pareceu ser, uma criança sentada em cima dela, com as pernas cruzadas. E balançando os joelhos (juro: correu um líquido gelado pela cueca. E não foram duas, nem quatro gotas: foram 400 x 4 x 400. Nem se perguntem porquê não acendi a luz. Não funcionou, pela manhã, ao verificar, a lâmpada estava perfeita). Saí do quarto novamente. Sentei na sala, esperei por alguns minutos. Voltei, ainda estava lá. Voltei à sala. Fiquei por 35 minutos cravados. Voltei ao quarto. Não tinha mais nada, nem ninguém, sentado em cima da tevê. E como voltar a dormir!? Abria os olhos – aliás, não consegui fechá-los – de segundo em segundo. E, já golpeado pelo medo, vi novamente a figura sobre a tevê. Graças a sei lá quem, amanheceu e fui reparar o que tinha em cima da tevê: nada. Senão marcas de algo que tanto pode ser a bundinha de uma criança como um vaso de flor mal arrumado (cuja flor, não havia no ap. Só comprei Cabrera Infante [meu cacto] há quatro meses).

Comentei com o amigo que dividia as tormentas do aluguel comigo. Riu na minha cara, o desgraçado. Dias depois, sua namorada viu a mesma cena em seu quarto. Aí ele acreditou. E passou a dormir com as luzes acesas. O capetinha parou de aparecer, mas a vontade de me mudar, não! Já estava enrabichado por um desvio sentimental, acabamos indo morar juntos. Meu amigo ainda ficou no ap. Sem a mulher. Mudou-se de lá três meses depois de mim. Ao sair comentei com ele “depois que você sair daqui, ninguém vai alugar essa mocofaia!”, riu e disse “talvez o aluguel fique mais barato!”.

Depois soubemos que a proprietária do imóvel tinha perdido a netinha, de três anos e meio, e que não se dava muito bem com a própria filha. E por que o pepino sobrou pra gente?

Com impressão ou não, com duppy ou não, com netinha ou não, se passaram cinco anos. O ap. continua vago. E por mim, assim vai continuar.

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