Ensaio- Whitman: O Poeta da América


A Descoberta

Minha vontade – e principalmente: o sonho – de escrever, vem da Poesia. É irrestrito este preceito e a cláusula é irrevogável. Ainda tenho nítidas em minhas lembranças as noites que passei plagiando Drummond (e acho que deveria ser punido por chamar aquilo de plágio, além de ofender os plagiários, e há plagiários maravilhosos em nossa poesia, me faltava, e muito!, para subir à classe destes abençoados); cortando e recortando A Renúncia de Bandeira; fazendo rimas pobres com a citação de Blake que escutei num filme ao qual só assisti para ver as curvas de Angelina Jolie (e hoje já não acho tão curvilínea assim, mas uma esquelética com lábios excessivamente sexys); até que, por acidentais citações, cheguei a Walt Whitman: O Poeta da América. Antes dele centenas, depois dele… nenhum.

Li, num guia estudantil cuja única validade foi chegar ao Poeta da América, Fernando Pessoa citar, num longo poema em verso livre, cujo nome infelizmente não lembro, bem ao estilo whitmaniano, um verso do próprio Whitman “…poetas que virão, será que chegarão?”, a partir desta irônica e dúbia citação, percebi que tudo o que tinha escrito (plagiado) não valia nada e mais ainda: jamais seria poeta.

Deveria ter escrito este ensaio há mais tempo, quando a leitura ainda estava fervilhando em minhas ideias, mas, no entanto, está tão vibrante quanto se tivesse escrito à época em que fechei o livro e levei alguns de seus versos na ponta da língua. “Os melhores vinhos envelhecem em barris de carvalho” (não sei se é este o caso, mas sempre quis dizer isto e esta pode ser minha única chance nessa alucinante vida de leitor).

Whitman é para poesia americana o mesmo – ou mais! – que Shakespeare para poesia da terra dos Quatro Cavaleiros de Liverpool (por favor: que isto não cogite, de modo algum, diminuir o aspecto grandioso do bardo inglês, afinal, sem ele, nada do que é feito hoje em dramaturgia e arte poética seria possível, nem mesmo afirmar o que acabei de afirmar), pois o poeta foi todos os homens do seu país, em verso e desejo de elevação do indivíduo; esse paradoxo, como um pêndulo no centro do universo, é nítido sem precisar atentar à riqueza e ao tamanho do seu engenho. O “Pai do Verso Livre”, nas palavras de Leminski, esteve, sempre esteve, muito além de seu tempo, como as reedições de sua obra o mostram. Poesia vibrante, com a harmonia ascendente, ascendente, ascendente…

O Poeta e sua Formação

Walt-Whitman (1)

 

Walth Whitman (foto: fullissue.com) 

Walter Whitman Jr. nasceu em 31 de maio, no ano da graça poética americana de 1819 no vilarejo de West Hills, em Long Island (estado de Nova York). Era chamado de Walt para ser diferenciado do pai. Aos quatro anos, sua família vendeu o pouco que tinha e mudou para o Brooklin. O puritanismo e o livre-pensamento do pai, de quem não se aproximava muito, ao lado da formação Quaker (seita cristã originada na Inglaterra [metade do século XII] por George Fox, que pregava, entre outras coisas, experiência direta com Deus, acessível a qualquer pessoa; a ideia de que Deus habita todas as pessoas [conceito de “luz interior”]; e ênfase no Aqui e Agora, em vez de fé no destino além-morte. Entre seus princípios estão a simplicidade [no vestir, no falar, bem como ênfase na vida espiritual mais do que na material], igualdade [fé na igualdade espiritual entre os sexos] e integridade [colocar Deus no centro de todas as coisas, não levar vantagem em negócios, não jurar dizer a verdade, apenas afirmar que o que se diz é verdade]. Estes princípios estão muito presentes na poesia e no modo de vida de Whitman) e do temperamento sensível da mãe, cunharam sua formação. Outra influência importante, para o “poeta do corpo e do momento presente”, foram os sermões de Elias Hicks, quaker rebelde religioso, que pregava em sua doutrina que, mais que apenas venerar Deus, era preciso fazer deste mundo, Aqui e Agora, o melhor de todos. Embora na época o menino não entendesse muito o conteúdo, ficou marcado pelos sermões e pela performance verbal tempestuosa de Hicks. Outro fato marcante, e de não menos relevância, foi o inesquecível Dia da Independência de 1825 quando nada menos que o general Lafayette (herói da Revolução Americana) levantou Walt no meio da multidão durante as comemorações. Auspício? Ou, simplesmente, a própria Poesia pedia licença apresentando sua mais nova voz para além daqueles tempos?

Aos dezessete anos, já havia decidido seguir carreira jornalística e gráfica. Em 1836, desempregado, e com os pais em plena crise econômica, voltou para a propriedade da família em Hampstead. Começou a dar aulas. Anos depois, em 1841, largou de repente o emprego de professor em escolas rurais, desabafou “estou cheio de me desgastar polegada a polegada, e de desperdiçar a porção mais bela da minha curta vida aqui nesta toca de ursos, neste abandono de toda criação de Deus”, e voltou para a cidade.

Era homossexual não assumido, embora não possamos afirmar se ele teve relações com homens nesse período (“itifálico”, um eufemismo para homossexual, usado por um dos primeiros críticos de Folhas de Relva). Não há nas biografias de Whitman nenhuma evidência de que ele teria tido algum dia relações com mulheres. Nunca teve filhos. Anos depois, para se proteger da acusação de ser homossexual, Whitman se referiu a um caso com uma mulher que ele teria tido em sua passagem por New Orleans. E embora tenha dito que teve filhos, não há nenhuma evidência.

Entre 1850 e 1855 o leque de interesses de Whitman se ampliaria bastante: egiptologia, astronomia, etnologia, botânica, filosofia, geologia, história, antropologia, ciência. Folhas de Relva está salpicado de conceitos, palavras e imagens extraídas destes discursos. Desenvolveu ainda o hábito de colecionar datas e dados das mais diferentes culturas. Outras influências marcantes são a filosofia de Epicuro: que a vida foi feita para ser gozada; e a de Lucrécio: a fonte da felicidade está em cada um. Assim formava-se o poeta e o arcabouço de onde as Folhas de Relva grassariam por pastos e campos até o Aqui e Agora.

Folhas de Relva – A Concepção

Desde 1847 Whitman desenvolvera o hábito de fazer comentários nas margens dos livros, jornais e revistas, como se “conversasse” com os textos que estava lendo. Também começou a cortar e colecionar textos das mais variadas procedências. Coisas que lia e achava interessante, ou que de certa forma confirmavam sua intuição. Quem lê Folhas de Relva às vezes tem a sensação de ler uma longa nota de jornal, mas com um ritmo poético que é impossível ser ritmado em papel gazeta e que, para o leitor desavisado apenas querendo versos corriqueiros, se estende numa longa sucessão de curvas e harmonias abarcando toda cidade, todos os citadinos, fazendo da monotonia das notícias, poesia vibrante.

Em outro exemplo na margem de um livro sobre crítica literária, refutava a importância de alusões e citações na poesia. Anotou: “o poema perfeito é simples, saudável, natural – nada de grifos, anjos, centauros – nada de histéricos ou fogo azul – nada de dispepsia nem intenções suicidas”. Num artigo escrito em 1849, “Poesia e Poetas Modernos”, mais uma pista para seu pensamento: “como milhares de arroios se misturam num amplo rio, da mesma forma os instintos, energias e faculdades, bem como associações, tradições e outras influências sociais que constituem a vida nacional, são reconciliadas nele a quem o futuro há de reconhecer como o poeta da nação”, nada ficaria alheio à sua concepção de Poesia Universal.

Os manuscritos da primeira edição, com exceção de uma página, foram perdidos. Whitman, um fanático colecionador de papeis até o fim da vida, revelou em 1888 que os manuscritos foram guardados pelos irmãos Rome, donos de uma gráfica em Nova York e editores do livro. Em depoimento a seu biógrafo, Horace Traubel, Whitman afirmou que, segundo os Rome, os manuscritos da primeira edição “foram usados para atiçar a lareira e para alimentar o catador de papéis” (Traubel, p.92). Se os irmãos Rome morreram de morte natural, os Estados Unidos devem a eternidade em desculpas para seu maior Poeta. As únicas pistas para adentrar no mistério do livro são os “notebooks”, neles vemos o poeta afiando seus instrumentos, treinando a pegada, preparando as estruturas para a grande obra. Num desses cadernos acompanhamos o desenvolvimento de uma poética: “não faça citações nem referência a outros escritores. Não entulhe o texto com coisa alguma, deixe-o fluir levemente como um pássaro voa no ar, como um peixe nada no mar”. Ou trechos de insights mais íntegros: “um estilo perfeitamente transparente, cristalino, sem artifício, sem ornamentos ou tentativas de ornamento pelo ornamento – estes só caem bem quando parece com a beleza da pessoa ou do caráter por natureza e intuição, e nunca quando introduzidos por exibicionismo… não use quaisquer exemplos tirados dos clássicos. Não faça qualquer menção a eles, exceto quando se relacionarem com coisas presentes… clareza, simplicidade, nada de frases tortuosas ou obscuras, a mais translúcida clareza, sem variação. Expressões e frases comuns – americanismos e vulgarismos – baixo calão somente quando muito oportuno”, manual vívido do verso livre.

Wm fins de junho de 1855, Whitman e os irmãos Rome começaram a composição e impressão de Folhas de Relva, que ele pagou do próprio bolso. O poeta encomendou a impressão (não sabemos quanto teria pago) aos irmãos Rome. Foram impressos 759 exemplares. Uma parte teve problemas de secagem da tinta. Duzentos exemplares foram enviados para encadernação em capa dura, com tratamento de luxe: capa, contracapa e lombada verde-musgo, gravadas a ouro (tais edições hoje valem uma verdadeira fortuna. Colecionadores se digladiam por um exemplar da primeira edição. Brasil no filme Virginia, exibe um exemplar dessa primeira edição de Folhas de Relva, mesmo visto na tela, é impressionante o impacto do frontispício do livro). Whitman foi provavelmente o primeiro escritor a usar uma foto num livro de poemas. Ainda em junho de 1855, passava boa parte dos dias na gráfica, fazendo ele mesmo parte da composição e revisando as primeiras provas. Mais tarde se lembraria de nunca considerar um poema terminado enquanto não o visse impresso. Resultado de um longo processo de vida e elaboração, aos 36 anos o veterano jornalista e escritor estava prestes a dar seu “livre passo” na literatura. Mais que uma “experiência de linguagem”, como ele um dia chamaria sua obra-prima, Whitman queria que suas Folhas de Relva grassassem no coração do leitor (não se preocupe meu chapa! Você conseguiu!). Mas advertiu em seu caderno de notas: “ninguém vai entender meus versos se quiser interpretá-los como performances literárias”. Suas Folhas de Relva devem ser interpretadas como todos os homens, mulheres e crianças, vivendo todo os sonhos dos homens, mulheres e crianças, num mundo feito para ser o melhor Aqui e Agora.

Antes de mergulhar na relva densa dos poemas, na primeira edição (a que li) o leitor se depara com dez páginas de introdução. Embora eliminado nas edições seguintes (várias passagens acabaram sendo incorporadas em poemas ao longo das reedições), o ensaio introdutório, ou Prefácio, é hoje considerado um verdadeiro manifesto e um dos principais documentos da poesia americana. Copiei trechos, infelizmente você não teria paciência para ler todo o Prefácio, teria (embora minha vontade fosse copiá-lo, independendo de sua disposição para leitura)?

Prefácio

“A América não rejeita seu passado nem o que foi produzido sob suas formas ou em outras políticas nem a ideia de castas nem de velhas religiões… recebe a lição com tranquilidade… (pág. 11);

A imensidão da natureza da nação seria monstruosa se não correspondesse à imensidão e generosidade de espírito do cidadão (pág. 12);

De todas as nações os Estados Unidos com suas veias repletas de matéria poética é a que mais precisa de poetas (oh, Brasil, você nunca ouviu falar num país chamado Brasil? Aqui o sujeito monta em cima de uma rima pobre de tão podre e podre de tão capenga, e se diz rapper, uma semana martelando o juízo dos coitados nas rádios e ele se diz: poeta. O que você diria aos “cidadãos” deste país?) e terá sem dúvida os maiores e irá usá-los da melhor maneira (pág. 15);

De toda humanidade o poeta é o equalizador (pág.17);

O maior poeta nem sabe o que é mesquinhez ou banalidade (pág. 17);

Toda beleza provem de um belo sangue e de um belo cérebro (pág. 19);

O maior poeta forma a consistência do que será a partir do que foi e do que é (pág. 23);

A arte das artes, a glória da expressão e os raios solares da luz das letras estão na simplicidade. Nada é melhor do que a simplicidade…. nada pode compensar o excesso ou a indefinição (pág. 23);

Falar de literatura com a perfeita integridade e espontaneidade encontradas nos movimentos dos animais e com irrepreensível sentimento das árvores na floresta e da relva à beira da estrada é o triunfo infalível da arte (pág. 23. Adorei este trecho.);

A expressão mais clara é aquela que não encontra nenhuma espera merecedora de si mesma e cria uma nova (pág. 25);

Grande é a fé do fluxo de conhecimento e da investigação das profundezas das qualidades e das coisas (pág. 27);

Quando as histórias são contadas de maneira adequada não há maias necessidade de romances (pág. 33);

O julgamento direto de quem seria o maior dos poetas é o hoje (pág. 39. Este foi um soco na cara.);

A ideia de liberdade política, que é o espírito de toda liberdade (ouviram petistas?!), ela atraiu os termos das línguas mais delicadas e alegres e sutis e elegantes. É a poderosa língua da resistência… é o dialeto do senso comum (pág. 41);

A prova de um poeta é seu país absorvê-lo tão afetuosamente quanto ele o absorveu (pág. 43)”.

Melhor seria se pudessem ler todo o prefácio, embora eu odeie introduções e prefácios, para a poesia de Whitman, ele é tão importante quanto os próprios poemas: carrega tudo o que o poeta pôs nas asas da liberdade do seu verso.

Os Poemas

Whitman, como poucos, foi capaz de absorver e combinar referências, estilos e procedimentos literários de um modo inovador. Sua genialidade antecede o grito de Make it new como promulgaria Ezra Pound no começo do século passado. Seus experimentos – com estados alterados de percepção, automatismo psíquico, livre associação de ideias, simultaneísmo; retorno às culturas ancestrais, aproximação com filosofias orientais, e a preocupação com uma nova ecologia do ser humano; ênfase na oralidade e materialidade sonoras; ruptura com decoros poéticos tradicionais; absorção de linguagens “marginais” e temas tabus para dentro do poema, levantando questões de identidade e sexualidade descobertos no livro de 1855 – prenunciam e antecipam os principais procedimentos e preocupações do Modernismo e das vanguardas do século XX.

A primeira edição consta de 12 poemas. Longos e de alta sonoridade. São eles:

Canção de Mim Mesmo

Canção às Ocupações

Pensar no Tempo

Os Adormecidos

Eu Canto o Corpo Elétrico

Rostos

Canção do Respondedor

Europa: o 72º e 73º Anos destes Estados

Uma Balada de Boston

Tinha um Menino que Saía

Quem Aprende Minha Lição por Inteiro?

Grandes São os Mitos;

Após a leitura, podemos notar, com nitidez e simplicidade, tal como afirma o poeta em toda sua temática, o sentido de unidade entre eles. Um longo ramo de relva com galhos a todos os lados, indo e vindo de todas as direções. Por mais que eu queira, não conseguirei ser tão aprofundado em comentários, poema à poema, bastar-me-á atenção à unidade poética e terei feito segundo preceito de Whitman: “não interpretá-lo como performance literária”, mas como leitor de ouvido atento e olhos abertos, com sentidos aguçados para gozar minha hora na “hora do mundo”.

  1. Canção de Mim Mesmo

No mais longo poema da obra, Whitman abre suas portas com altivez e complacência, a sensibilidade necessária vai aparecendo verso a verso, abre:

“Eu celebro a mim mesmo.

E o que eu assumo você vai assumir,

Pois cada átomo que pertence a mim pertence a você. (pág. 45)”;

Esse “celebro a mim mesmo”, pode (e deve) ser visto como “celebro a você” em meu grito e cada palavra que sai da minha boca é a celebração da minha vida junto à sua. O poema é de uma sonoridade assustadora.

“Como um Deus meu adorável parceiro dorme a meu lado a noite toda e me agarra ao raiar do dia,

Deixando-me cestas cobertas de toalhas brancas dilatando a casa de abundância, (pág. 49)”; puritanos se descabelaram ao ler tais versos, a fúria da crítica justificou-se, ou sentiu-se imbuída da Justiça Divina, nestas linhas.

Outro trecho me chamou atenção para o despojamento do poeta com sua linguagem libertária:

“Olho para trás e vejo meus dias onde suei para atravessar o nevoeiro com linguistas e debatedores,

Não ironizo nem argumento…. só testemunho e espero. (pág. 49)”;

Este “nevoeiro” pode ser visto como todo o regramento e prisão imposta por receio de inovar a poética de seu tempo, as dificuldades quanto à aceitação não foram poucas e o apedrejamento às Folhas foi cruel. O longo poema se encerra com ironia e dúvida, após sua entrada e proterva caminhada diz a “você”:

“Não me cruzando na primeira não desista,

Não me vendo num lugar procure em outro,

Em algum lugar eu paro e espero você (pág. 131)”.

O poeta celebrou todos, no encontro entre eu e você.

  1. Canção às Ocupações

Poema mais curto que o primeiro, mas não menos sonoro e desabrido, contém em suas linhas conceitos de fé na capacidade de cada, palavras de esperança e força, mas nada que se assemelhe a “outro ajuda”.

“…Nas coisas mais conhecidas encontrará o melhor tão bom quanto o melhor,

Nas pessoas mais próximas você achará as mais doces e fortes e amáveis,

A felicidade não está em outro lugar, mas bem aqui.. não é coisa para outra hora,

Mas agora… (págs. 145 e 147)”;

Como tivemos no poema anterior, o poeta pede atenção para o Agora, o melhor de todos os tempos, o mais provável dos futuros.

  1. Pensar no Tempo

“Pensar no tempo…. pensar retrospectivamente,

Pensar no hoje.. e nas eras e eras que estão por vir. (pág. 149)”;

Na abertura deste poema, Whitman desanca sobre a preocupação em pensar adiante, quando a realidade está vívida urgindo à nossa frente, e segue:

“Teve a impressão que não seguiria em frente? Já teve medo daqueles escaravelhos terrestres?

Teve medo do futuro não ser nada para você?”;

Como se estivesse a nos puxar pelas orelhas, nos trazendo à realidade (o Agora), diz:

“Nem um dia se passa.. nem um minuto ou segundo sem um parto;

Nem um dia se passa.. nem um minuto ou segundo sem um morto. (pág. 149)”;

O que me assustou em tais versos – e nem sei se “assustou” é o verbo apropriado – é o fato de que por mais que estejamos atentos ao presente, ainda insistamos em mirar o futuro, mesmo que o futuro de daqui a duas horas. Não pode haver mais estúpida perda de tempo. Perde-se tempo mesmo em cogitar tempo para pensar nisso, e fico incomodado com a pressa para amanhã, pois me faz estulto, esquecendo as horas preciosas que ainda tenho hoje.

  1. Os Adormecidos

Vagando por sua noite, pública porque se quer íntima, e íntima porque não pode ser compreendida com os olhos abertos e o coração fechado, diz o poeta:

“vou de cama em cama…durmo junto com outros adormecidos, um de cada vez;

Sonho em meu sonho todos os sonhos dos outros sonhadores,

E me transformo nos outros sonhadores. (pág. 161)”;

O que há de mais tocante e humano nestes versos ficou no corner para insinuações de pederastia. Nas entrelinhas, tão nítidas quanto as insinuações sobre sua sexualidade, está a necessidade de sentir a validade do sonho alheio como se seu fosse, e na realização do próximo, ver a realização do seu. Voltando a “vagar” pela noite, continua:

“Vou parar com a noite só por um momento…. despertarei a tempo.

Vou passar o dia pontualmente Ó minha mãe e pontualmente voltar para você;

Você dará à lua a aurora com mais certeza do que dará à luz a mim de novo,

Tão certo quanto o ventre gera o bebê em meu tempo serei gerado de você (pág. 173)”.

Adeus noite e sonhos dos adormecidos, o poeta volta, criança, ao ventre da mãe.

5. Eu Canto o Corpo Elétrico

“Corpos de homens e mulheres me cercam, e eu os cerco,

Não vão me deixar escapar nem eu a eles até que siga com eles e os responda e os ame”.

No segundo verso pergunta com sarcasmo:

“Alguém imaginou que os que corrompem seus próprios corpos conseguiriam se esconder de si mesmos? (pág. 173)”;

Ainda que o sexo venha bruto e com a sua voz pouco abafada, o poeta encontra fôlego em seu esbravejo:

“Isto não é só um homem….é o pai dos que serão pais quando chegar sua vez,

Nele o começo de estados populosos e ricas repúblicas,

Dele vidas imortais e inumeráveis com inumeráveis encarnações e gozos.

Como você é capaz de saber quem virá da prole de sua prole através dos séculos?

De quem será que você teria saído se pudesse seguir a trilha dos séculos? (pág. 181)”;

Aqui, ri um pouco e pensei: nunca atire pedra no telhado alheio, se sua telha de Eternit trincou sob a chuva de granizo. Não há como saber quem ou o que seriamos, mesmo que pudéssemos escolher nossa árvore genealógica, eu não mexeria em nada da minha, os defeitos da minha genealogia é que caracterizam minhas qualidades (Se as tenho).

  1. Rostos

É o poema, para mim, mais Whitman de todos, enquanto observador nas ruas, em suas caminhadas e a fazer anotações:

“(…) vejo rostos,

Rostos de amizade, precisão, cautela, suavidade (…)

O rosto sagrado dos infantes… o rosto iluminado da mãe de muitos filhos (pág. 183)”;

Os rostos são gravuras onde o poema se escreve e o homem, sob a tutela do dia vivido, passeia na poesia deste sujeito que se faz notar pela atenção silenciosa com que abraça a pacatez de cada alma no redemoinho das ruas.

  1. Canção do Respondedor

Vou direto à uma das perguntas com que Whitman fecha o poema, pois a íntegra do texto parece um conto em prosa:

“Você acha que seria bom ser autor de versos melodiosos,

Será bom mesmo ser escritor de versos melodiosos;

Mas o que são versos diante da personalidade fluida que você pode assumir?…. (pág. 193)”;

Em alguns poemas Whitman faz perguntas e o fato de estendê-las e repeti-las, dão ênfase ao ato de duvidar, indagar através do verso. É interessante notar o tom de conversa no decorrer dos poemas, como se recitasse à uma pessoa que o escutasse por todas.

  1. Europa: o 72º e 73º Anos destes Estados

“De repente de seu covil urinado e sonolento, covil de escravos,

A Europa desperta feito um relâmpago…. meio surpresa consigo,

Pés sobre cinzas e farrapos…. Suas mãos esganando a garganta dos reis. (pág. ’93)”;

Neste, pareceu, a mim, citar o inferno que era a Europa e suas batalhas territoriais. Whitman foi voluntário na Guerra Civil, conheceu de perto o campo encharcado com sangue e sentiu, até queimar os pelos nasais, o cheiro morfético de pólvora misturada a sangue.

  1. Uma Balada de Boston

“Abra caminho Tio Sam!,

Pro delegado do Presidente! Pro canhão do governo!

Pra infantaria federal e os dragões…. e os fantasmas depois. (pág. 197)”;

Homenagem a Lincoln (crença minha)? Único político a interpretar, à ponta de pena, suas ideias relacionadas à liberdade dos escravos e seu mais famoso leitor ligado às Leis e ao Estado.

  1. Tinha um Menino que Saía

“Tinha um menino que saía todo dia,

E a primeira coisa que ele olhava e recebia com surpresa ou pena ou amor ou

Medo, naquela coisa ele virava,

E aquela coisa virava parte dele o dia todo ou parte do dia… ou por muitos anos ou longos ciclos de anos. (pág. 199)”;

Lembra o Whitman infante, exímio nadador, robusto e belo como um potro indomado. Parece – novamente crença minha – refazer seus sentidos perdidos da infância, quando a família ainda tinha algum conforto e o poeta podia ser o que toda criança deve ser: alegre e feliz.

  1. Quem Aprende Minha Lição por Inteiro?

“Quem aprende minha lição por inteiro minha lição?

(Ó ‘poeteiros’ escutai o velho bardo!)

O patrão o diarista o aprendiz?…. carola e ateu?

O cretino e o sábio pensador…. pais e proles… mercador e funcionário e porteiro

E freguês…. editor, autor, artista e estudante? (pág. 203)”;

Aqui, a indagar por Quem o escuta, Whitman vai tecendo suas fugas a voos mais amplos e faz do ato de indagar objeto da dinâmica do diálogo poético. Das indagações docentes, cai em dados biográficos:

“….. eu que nasci no último dia de maio de 1819…. (…)

Ter atingido a altura de um metro e oitenta e três…. ter me tornado um homem de 36 anos 1855…. e estar aqui agora – isso é maravilhoso também; (pág. 203)”;

Como não soubéssemos que a figura que pairou por cada linha de cada poema não fosse notada sobre a pena através da qual fez sua vida passar à eternidade.

  1. Grandes São os Mitos

Último poema da obra-prima whitmaniana, este texto se caracteriza como uma exaltada celebração da grandeza que há cada homem, em cada ato e rosto e riso e passo e suor e trabalho e virtude. Reparem:

“Grandes são os mitos…. também me delicio com eles, (…)

Grande a liberdade! Grande a igualdade! Sou seu seguidor,

Piloto das nações, escolha seu navio…. velejo onde você veleja,

Seus músculos são os da vida e os da morte…. a ciência perfeita…. tenho fé

Absoluta em você. (pág. 205)”;

Arrebatado em sua exaltação, segue:

“Grande é a qualidade de verdade no homem,

A qualidade de verdade num homem se sustenta em meio a todas as mudanças,

Está no homem inevitavelmente…. ele e ela estão apaixonados, e nunca se largam.

Verdade num homem não é só um proverbio…. é tão vital quanto a visão,

Se existe alma existe verdade…. (pág. 207)”;

Este texto, da primeira edição, foi escrito como todos os outros e como explicado pelo próprio Whitman a Horace Traubel, seu excelente biógrafo: “no arrebatamento na pulsação, no fluxo do momento ter escrito as coisas deliberadamente. Sempre trabalhei assim”, o barbudo incorporava um xamã e corria a pena sobre o papel. Em toda a leitura você sentirá, na liberdade com que foram escritos estes versos, sua liberdade de lê-los sem a pretensão de que sejam mais do que são: tudo e todos em unidade no gozo do Aqui e Agora.

Recepções

Depois do lançamento, Whitman foi atacado de todo lado. Soltaram os cachorros e penduraram carne em seus calcanhares. Emily Dickinson disse que ouvira falar que Folhas de Relva era uma “desgraça”; Herman Melville, depois que Ahab foi às profundezas do oceano preso as costas de Moby Dick, vivia passando por Whitman pelas ruas em Nova York (ou não o reconhecia em meio aos vagabundo com quem o poeta vivia a perambular?), mas nunca o conheceu, ignorou solenemente o livro. Henry James também deu chineladas no livro. Contudo, todas estas bravatas caíram por terra quando ninguém menos que Ralph Waldo Emerson, o principal intelectual e escritor de seu tempo, salvou do anonimato a primeira edição da obra-prima whitmaniana. A carta escrita por Emerson é um documento histórico:

“(…) Eu o saúdo no começo de uma grande carreira que, no entanto, deve ter tido um longo plano inicial em algum lugar para tamanha estreia. Esfreguei meus olhos um pouco para ver se esse raio de sol não era ilusão.”, e havia um grande plano em amplo sentido: dos doze poemas da primeira edição, teríamos mais de quatrocentos em 1892, ano da última edição. A relva grassou, como o poeta sonhara.

Pedra no Sapato (De Quem?! Não Sei!)

N’A Civilização do Espetáculo, seu contundente ensaio sobre a cultura em geral, Mario Vargas Llosa discorrendo sobre highbrow culture e lowbrow culture, faz uma afirmação da qual discordo e discordarei até o fim dos meus dias, diz o Nobel: “(…) não se deve confundir a classificação formulada por Bakhtin e outros críticos literários de estirpe sociológica – cultura oficial e cultura popular – com a divisão há muito existente no mundo anglo-saxão entre highbrow culture e lowbrow culture: cultura da sobrancelha erguida e da sobrancelha caída. Neste último caso continuamos dentro da acepção clássica de cultura, e o que distingue uma da outra é o grau de facilidade ou dificuldade que o fato cultural apresente ao leitor, ouvinte, espectador ou simples cultor. Um poeta como T. S. Eliot e um romancista como James Joyce pertencem à cultura da sobrancelha erguida, enquanto os contos e romances de Hemingway e os poemas de Walt Whitman à de sobrancelha caída, pois são acessíveis aos leitores comuns. Em ambos os casos continuamos dentro do domínio da literatura pura e simples, sem adjetivos. (Págs. 61 e 62)”, peguei um trecho longo para que não ficasse descontextualizado o uso de suas palavras.

 Llosa entre os agraciados com o Nobel, no pequeno espaço de Nobel’s que tenho na minha pequena estante, deve ser o que possuo maior número de obras (poucas lidas), seu talento é inegável, mas essa afirmação fez minha leitura mais acurada. Ora! Sem os diálogos curtos, precisos e instigantes de Hemingway o que seria do cinema hoje? Tarantino que o mundo, este paciente catatônico confundido com apoplético, insiste em chamar de cineasta, estaria atrás do balcão da locadora, adoraria que voltasse pra lá ou fosse entregar pizza, ou limpar fosso em Chicago ou no Mississipi. Whitman foi simplesmente o chaveiro que abriu a porta para que ele, Vargas Llosa, pudesse afirmar o que afirmou e Virginia Woolf pudesse escrever sua prosa com longos períodos sem ninguém a cercear sua frase tão longa quanto o próprio pensamento.

Sem Whitman, com seu “verso-embrião” do fluxo de consciência, o canalha bêbado de Dublin não sairia do botequim para se tornar James Joyce e escrever seu Ulisses, e Édouard Dujardin (1861 – 1949) não seria agora o (suposto) precursor do “monólogo interior”. Sem a poética de Whitman a poesia perderia a chance, a única chance, de provar que há mais poesia no olhar vago de um mendigo do que em muita discussão em círculos literários e em livros publicados (principalmente em nossos dias) e cairia em desgraça rimando “outono com nono”, chegando ao “Holocausto do Verso” conhecido por “Poesia Concreta”.

E, para fechar, as palavras de Borges, meu Nobel injustiçado, valem a verdade e além do que Folhas de Relva pode representar: “Whitman, tomou a decisão de ser todos os homens e de escrever um livro que seja todos.”; não podia estar mais certo. Carson MacCullers (1917 – 1967), mergulhada na simplicidade e empatia com a qual Whitman caminhou por todo seu campo de relva e sonho, disse “Whitman, o mais nobre dos vagabundos, via a vida como uma ampla estrada”, a sensibilidade em cada palavra de MacCullers atestam que o poeta gritou e foi ouvido.

Com a Relva Entre os Dedos

A citação que me fez conhecer Whitman, não consta na primeira edição, mais o impacto da sua leitura só se iguala ao prazer de ter lido os primórdios das Folhas que se expandiram a ponto de tornar-se relva toda poesia de sua época. O poeta escreveu tudo – ou pelo menos tudo o que pôde – antes da aurora que amanheceu sobre nossos dias, não há nada a ser descrito pelo longo caminho. Caro Whitman, espero que alguma folha de relva carregue estas minhas palavras e te dê alguma notícia sobre a poesia de Aqui e Agora: os poetas que vieram (se vieram!), não chegaram, se ainda estão vindo, nunca chegarão.