“A metade indivisível”, crônica do escritor português António Vilhena


Falar de amor parece fácil, mas é bem o contrário. Existe muita literatura a respeito, tanto em prosa quanto em verso, e às vezes, parece que pouco mais há para ser dito. Engano. O amor (ou o desamor) sempre será fonte de inspiração na literatura.

Essa crônica do português António Manuel Vilhena (Beja, 14 de outubro de 1960), psicólogo e escritor de verso e prosa para adultos e crianças, nos apresenta a sua visão sobre o assunto. Seu último livro “Cartas a um amor ausente” (ouça na voz do autor) foi para os palcos, virou peça de teatro.

Você acredita que é possível amar alguém por toda a vida?

11659375_951623228215920_9000952986970444693_n

António Vilhena mora em Coimbra e é o novo curador da Casa da Escrita (ainda vai tomar posse). (foto: Facebook do autor)

Conheça a Casa da Escrita em Coimbra inaugurada em 2010, antes residência do escritor João José Cochofel (falecido em 1982):

Leia o texto de António Vilhena:

A metade indivisível

Há amores que existem para eternizarem a esperança, são uma espécie de lua branca aureolada no imaginário dos poetas. Mas que seria do amor se não fossem os exemplos raros que atravessam as vidas para viverem na literatura ou no cinema? Todos conhecemos grandes histórias de amor que se fixaram à galeria dos mitos, mas que tiveram vida própria e corações inquietos, “gente com lágrimas” e medos, viagens adiadas e promessas de encontros, vestidos de noiva e flores, zangas e reencontros. Há no amor e na guerra irracionalidades que escapam aos que não escutam o silêncio do beijo e das armas. Há um rio íntimo onde os peixes desejam ser outra coisa quando a força das marés os impede da orla da praia. Quem não “odiou” o seu amor? Quem não puxou os cabelos, mordeu os lábios, vociferou palavrões ou outras pragas? Há um mundo próprio de quem ama, invisível a quem vai comprar coentros, mas que ilumina a vida e as utopias como sangue nas veias. Ter um amor é viver na paciência do outro, na tolerância, no jeito ridículo que transforma cada coisa num tesouro de encantamentos. Mas são as zangas, as provas mais difíceis, que colocam o amor nos leitos mais profundos da sobrevivência. É nesses momentos que o pior e o melhor parecem vizinhos, que tudo parece perder sentido, que a luz dá lugar à treva, que o mundo dos sonhos parece ceder à guerra dos ratos. Quando isso acontece, há um tempo para as águas lavarem as pedras e devolverem o fundo transparente do rio aos olhos dos amantes. As zangas tiram a respiração e no calor das conversas soltam-se palavras como flechas. Depois vem o arrependimento. Mas as palavras já estão coladas à pele do outro. Cada silêncio é um misto de esperança e de reencontro, de borboletas na barriga e de sede. A fonte das incertezas é o medo da decisão errada. A escritora de “O Amante”, Marguerite Duras e Yann Andréa conheceram melhor do que ninguém o fogo do amor num copo de água. A força do seu amor nunca sucumbiu às zangas. Yann regressava sempre roçando as mãos pelas paredes até encontrar o grande silêncio nos olhos de Duras. Tal como Yann Andréa reconheceu em DURAS, o nome de cinco letras, que amava absolutamente, Gabriel reencontrou-se, também, com o nome da sua amada, de cinco letras e a mesma verdade: amava-a absolutamente. “Aquilo que sabemos, você e eu, é isto: gostamos um do outro. Que acontecimento. Que história. Que amor”- escreveu Yann. Gabriel, também, sabia da zanga da sua paixão, quase a roçar o ódio, quase a encomendar-lhe o funeral antes de o lançar aos leões. Ao lado dessa zanga, quase ódio, moram, também, outros sentimentos paradoxais. É na antítese dos sentimentos que o amor assume as suas vicissitudes. Porém, há um tempo para escalar a raiva e outro para acolher, estender a mão, tocar, abraçar e recuperar a paz. “Há amores que resistem às pedras do caminho”. As rugas representam o tempo, a cristalização de muitos passos, talvez, de angústias, de medos e de sacrifícios. O que pensará alguém que chega à idade das rugas, templo escavado de memórias? Duras deixou-nos um rosto velho, mas sábio de emoções. O que atravessa o amor é a soberania da metade indivisível, o sentimento de que na tristeza há sempre uma flor que resiste à zanga. Duras empresta-me as palavras finais de “O Amante” para terminar esta crónica: Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, qua a amaria até à morte.

3W1V5204

Bibliografia (fornecida pelo autor):

Data 1987

Publica o livro Do Ventre da Terra, poesia, dedicado ao amigo de sempre, o escritor Manuel da Fonseca, apresentado em Coimbra pelo Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1989

Publica o livro Trança D`Água, poesia, com prefácio do Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1991

Publica o livro A Eterna Paixão de Nunca Estar Contente, prosa poética, com prefácio de Natália Correia.

Data 1993

É convidado a escrever um texto para a apresentação dos catálogos das exposições, em Coimbra, dos cartoonistas António e Carlos Laranjeira.

Data 1995

Coordena a antologia de jovens poetas de Coimbra, Memória da Palavra, editada pela Delegação regional da Cultura do Centro, com prefácio do Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1996

Publica o livro Mais Felizes que o Sonho, poesia, com prefácio do escritor Fernando Dacosta.

Data 2004

Edita o livro de crónica, Diálogos de Rosa e Espada, com prefácio da Prof. Doutora Maria Teresa Roberto.

Data 2006

O Piano Adormecido (infantil)

Data 2012

Canto Imperecível das Aves (poesia).

A Formiga Barriguda (infantil).

Data 2013

Templo do Fogo Insaciável (poesia).

As Férias da Formiga Barriguda (infantil).

Data 2014

Cartas a Um Amor Ausente (poesia).

A Orquestra da Formiga Barriguda (infantil)

Anúncios