Entrevista com Edney Silvestre


Originalmente publicada na revista impressa BrazilcomZ (Espanha), nº93,  julho de 2015. Leia a revista online.


EDNEY SILVESTRE

Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra.

Entrevista exclusiva com o grande jornalista da Rede Globo, Edney Silvestre (Valença, Rio de janeiro, 24/04/1950), que publicou sua primeira obra “Se eu fechar os olhos agora” (2010) depois dos 50 anos, “como Henry Miller e Cervantes”, livro premiado com o Jabuti. O autor revelou que está trabalhando em um novo livro de contos. Mostrou- se incômodo com a visão de alguns franceses sobre os brasileiros no Salão do Livro de Paris: Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. E também comenta sobre a questão da imigração, da solidão, da leitura no Brasil e alguns temas polêmicos. Leia a entrevista completa:

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O escritor e jornalista Edney Silvestre de 65 anos, de origem humilde, forjou uma bela e sólida carreira no competitivo mercado de trabalho brasileiro. (foto: Leo Aversa)

(F.S.) No seu último livro, “Boa noite a todos”, a capa sugere um personagem suicida, o leitor já tem essa informação prévia. Com a leitura da obra, certamente vai perceber que Maggie não tem saída. O que você diria ao leitor que pode pensar que você foi excessivamente pessimista?

(E.S.) Maggie tentou todas as saídas que lhe eram possíveis. Desde o começo da sua vida, porém, o destino, ou que nome se dê aos acontecimentos que nos formam, foi cruel com ela. Sua mãe, prostrada pela depressão, a ignorava. Seu pai foi-se para outro país, onde se casou com uma mulher igualmente alheia às necessidades da menina Maggie. Harry poderia ter sido seu porto seguro. Entretanto ela, jovem demais para entender a complexidade do rapaz, afastou-se dele. E por aí foi, abraçando o mundo glamoroso e vazio das celebridades. Não fui pessimista. Ao final Maggie ganha o alívio na memória e na arte – no caso a música de Richard Strauss.

(F.S.) Além de ser um escritor que conseguiu o respeito da crítica especializada conquistando um lugar de destaque na literatura contemporânea, com vários prêmios, antes você já era jornalista de primeiro escalão. Atualmente, apresenta o Globo News Literatura e é repórter especial da TV Globo. Você pretende transformar algum dia a literatura na sua principal atividade?

(E.S.) Gosto de chegar à redação e estar com os colegas jornalistas, gosto de sair para fazer reportagens na rua, gosto de escrever reportagens, gosto de editar imagens e textos de reportagens. Quando penso no meu futuro – e penso pouco, minha preocupação é com o aqui e agora – não me vejo fora do jornalismo. Quando, finalmente, publiquei meu primeiro romance, “Se eu fechar os olhos agora”, eu era jornalista há mais de 3 décadas. Continuo. É uma profissão que me permite estar sempre em contato com o real, que vem me dando a chance de conhecer profundamente o meu país e os brasileiros, assim como me leva a entender melhor as contradições da história contemporânea ao me fazer testemunha de acontecimentos como os atentados terroristas em Nova York em 11 de setembro de 2001, o horror sofrido pelo povo no Iraque, a dor das vítimas de furacões em Honduras, o desencanto e a esperança na vida de Cuba.

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No lançamento de “Boa noite a todos”, seu último romance. (Foto: Vera Donato)

(F.S.) Vender muitos livros é sinônimo de sucesso? O que é o sucesso pra você?

(E.S.) Gabriel García Márquez vendia muitos livros. Salinger vendeu muito, também. Jorge Amado foi um autor best-seller. Um colombiano, um americano, um brasileiro. São apenas três, dos muitos exemplos, de escritores de qualidade com obras acatadas por um grande público. Sucesso, sem dúvida. A permanência deste sucesso, no entanto, é outra história. A morte, em geral, apaga alguns escritores da lembrança dos leitores. Falo no sentido do grande público, aquele que transforma um romance como “Amor em tempo de cólera” em fenômeno de vendas. Ainda que este trio Amado-Salinger-Marques não se encontre hoje nas listas dos mais vendidos, continua sendo cânone, continua sendo referência, como continuam os menos lembrados e outrora escritores de enorme sucesso, como Rachel de Queiroz e João Ubaldo Ribeiro.

(F.S.) A pós- modernidade lançou diversos escritores midiáticos, que exercem profissões paralelas (atores, cantores, humoristas e padres), o que gera muita desconfiança na crítica, a maioria com fundamento, já que são obras inexpressivas e sem valor artístico- literário. Edney Silvestre, jornalista e um rosto conhecido no Brasil. Com a publicação do seu primeiro livro, como viveu esse período de prova? Sofreu algum estigma, mesmo sendo jornalista e tendo familiaridade com a escritura? Com expectativa, ansiedade ou não te afetou?

(E.S.) Eu não era uma celebridade quando lancei meu primeiro romance, nem o sou agora, portanto não me encaixaria na categoria “escritor midiático. Sempre escrevi textos de ficção, apenas publiquei meu primeiro romance depois dos 50 anos. Cervantes também publicou depois dos 50. Henry Miller foi outro. Sou, fui e serei meu crítico mais atento. Se, mesmo com os prêmios literários que ganhei, eu ainda tivesse dúvidas se me acolhiam porque eu era jornalista de televisão, essas dúvidas teriam se dirimido com a publicação de meus romances na França, na Grã-Bretanha, na Sérvia, na Holanda, em Portugal, na Itália e na Alemanha – onde ninguém tinha a menor ideia de quem eu era. E, aliás, continua não tendo. E ainda assim leem minha obra.

(F.S.) Você já entrevistou diversos escritores consagrados, como é estar do outro lado, ser o entrevistado? Sente- se confortável falando de si?

(E.S.) Eu tenho muito prazer em conversar – e ouvir – pessoas inteligentes, como José Saramago, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Nardine Gordimer, Milton Hatoun. Aprendi e aprendo com essas pessoas. Quando estou do outro lado, e estou sendo entrevistado por alguém que se preparou, pesquisou, estudou, leu minha obra, tenho a chance de repensar e analisar o que fiz, porque fiz, como fiz. É um prazer, também, de outro tipo. Mesmo que eu não consiga responder a essas questões.

(F.S.) Em “Vidas provisórias”, você narra a vida de imigrantes brasileiros no exterior. Você também já esteve nesta situação. O que emprestou das suas experiências aos personagens do livro? É verdade que os seus personagens viveram situações pessoais extremas e difíceis, mas você acredita que exista um ponto de intersecção entre todos? Você também sentiu em algum momento a sensação de perda de identidade? De ter que se reinventar? E a solidão?

(E.S.) Sou testemunha do sofrimento, do isolamento, da solidão, das dores e tristezas de quem foi obrigado, seja por que razão for, a viver fora de sua terra. É muito, muito duro. É claro que não me refiro aos ricos empresários ou artistas que se divertem em temporadas passadas em suas belas e confortáveis casas e apartamentos em Paris ou Miami, indo a bons restaurantes e assistindo a espetáculos bacanas. Falo das pessoas que ralam, que trabalham duro, que se sentem discriminadas. Fui morar nos Estados Unidos com visto de trabalho, o que fazia de mim um privilegiado. Mas convivi com gente que temia ser pego pela imigração e deportado, aquelas pessoas que precisam trabalhar, seja no que for que aparecer, para não apenas se sustentarem, mas também mandarem dinheiro para suas famílias que ficaram no Brasil. Nunca senti que perdia a identidade pois creio que o brasileiro não a perde, de forma alguma. Quanto à solidão… Essa eu conheci desde muito cedo, com pouco mais de 15 anos, quando me mudei de minha cidade no interior para o Rio de Janeiro.

(F.S.) A crítica negativa incomoda? Você lê tudo o que escrevem sobre seus livros? Acompanha o retorno dos leitores? Lê as resenhas dos “blogueiros”?

(E.S.) Tem uma frase ótima que o dramaturgo Edward Albee me falou numa entrevista, quando eu comparei as boas críticas que tinha recebido na época da peça “Quem tem medo de Virginia Woolf”, das ruins que deram à sua peça mais recente (então), “A cabra”. Ele me disse mais ou menos assim: “Se elogia, eu considero (o crítico) inteligente por ter percebido minhas intenções; se fala mal, é porque trata-se de um tolo”.
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O amor à literatura chegou muito cedo, ainda menino, quando sofria de anemia profunda e ficava na lendo na cama. O escritor em Paris com a tradução francesa de “A felicidade é fácil”.

(F.S.) Os seus livros ganharam traduções em vários idiomas. Como está sendo a recepção da sua obra pelo leitor estrangeiro?

Muito além do que eu jamais poderia imaginar. Na França o jornal Le Monde e a revista L’Express aplaudiram meus dois romances publicados ali, em Portugal e na Holanda idem, o inglês The Guardian e o alemão Stern me deram página inteira nas resenhas elogiosas a “Se eu fechar os olhos agora” e, no ano passado, “A felicidade é fácil” foi considerado um dos dez melhores romances policiais do ano na Inglaterra. Ano que vem “A felicidade é fácil” sai na Alemanha.

(F.S.) Você acha que já escreveu a sua obra- prima ou esta ainda está para ser escrita?

(E. S.) Será que um escritor com um mínimo de senso crítico, mesmo aquele com ego gigantesco, acha mesmo que escreveu, ou está escrevendo, ou acabará por escrever uma obra-prima? Nos estados unidos eles, os autores, sempre se referem à tentação de escrever “o grande romance americano” que estaria por vir. Isso os esmaga. Não acredito que Saramago pretendeu, jamais, escrever uma obra- prima. Entretanto deixou-nos seu Evangelho. Drummond deixou-nos várias obras- primas – e sempre se disse um aprendiz.

(F.S.) Está escrevendo algum livro? Já tem o título da sua próxima obra?

(E.S.) Estou construindo em um livro de contos onde tenho a chance de experimentar temas e linguagens. É possível que venha a publicar no ano que vem. Ainda não tenho um título definitivo, embora eu venha trabalhando desde o ano passado com um.

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O escritor na biblioteca do seu apartamento no Leblon, no Rio de Janeiro (foto: Revista Quem)

(F.S.) Edney leitor. Quais são os seus livros favoritos? Quais autores são essenciais na sua biblioteca?

(E.S.) Não tenho favoritos, Fernanda. Gosto de ler, ponto. Leio de tudo, inclusive quadrinhos, quadrinhos mesmo, tipo Tio Patinhas e Asterix. Se tomar como guia os livros que tenho em minhas estantes: toda a obra de Drummond, toda a obra de Graciliano Ramos, toda a obra de Guimarães Rosa, toda a obra de José Saramago, muita coisa de Eugene O’Neil e Tennessee Williams, muita coisa de Fernando Pessoa, a obra completa de Machado de Assis, todo Cervantes, quase tudo do teatro de Nelson Rodrigues, um tanto de Marguerite Duras, outro tanto de Camus, praticamente tudo o que se conhece de Shakespeare (nao lido na maior parte), Elizabeth Bishop, muitos livros de Patricia Highsmith, Georges Simenon e F. Scott Fitzgerald.

(F.S.) Edney escritor. A alteridade, viver outros “alguéns” provoca desconforto, angústia, alívio, salvação, redenção? Como é o seu processo criativo?

(E.S.) Um escritor é um canal para transmitir vozes, desejos, ânsias, frustrações, esperanças de seu tempo. E tenta ser o canal mais limpo e aberto possível. Eu tento.

(F.S.) Livro tradicional ou livro digital? Você aderiu aos e- books?

(E.S.) Livro, ponto. Leio em ambas as formas. Digital é mais prático, sem dúvida. Mas nem vale a pena comentar, pois está afundando no mundo inteiro.

(F.S.) Brasileiro ainda lê muito pouco, mesmo na era digital com muita literatura gratuita na rede (muitos ainda não têm acesso à Internet). Como formar leitores no nosso país que, infelizmente, ainda não tem como prioridade a Educação?

(E.S.) Os números mostram que o brasileiro lê cada vez mais. Basta ver as pesquisas da SNEL. De onde você tirou essa conclusão que lê pouco? Educação tem que ser política pública. De que adianta comentar aqui? É política pública, não pessoal.

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No Salão do Livro de Paris (2015)

(F.S.) Como foi participar do Salão do Livro de Paris 2015 como autor convidado?

Os franceses, muitos deles, ainda nos vêm – nós, os criadores de cultura no Brasil e na América Latina – como papagaios exóticos. Quanto mais coloridos e barulhentos formos, mais eles consideram que se trata de “autêntica literatura latino-americana”. A culpa é do Gabriel Garcia Marques, que escrevia esplendidamente tramas que jamais poderiam se passar senão em selvas, cidades perdidas, verdejantes, habitadas por personagens peculiares, carregando amores ao longo de séculos. Ele era uma força original. Nada tinha de “papagaio exótico”. Mas aqueles que encaram superficialmente nossa cultura não entendem isso. E só querem reconhecer, no caso do Brasil, o “soft power” de samba, mulatas e futebol. Falei contra isso o tempo todo. Espero ter aberto a cabeça de alguns. Outros se irritaram. Incitei-os a lerem o que me parece a literatura mais original e diversificado do mundo neste momento, a brasileira, que reúne autores tão diversos quanto Milton Hatoun, Luiz Ruffatto, Alberto Mussa, Nélida Piñón, para citar apenas quatro contemporâneos.

(F.S.) Você ganhou o prêmio Jabuti em 2010 com “Se eu fechar os olhos agora”, sua obra de estreia, com os votos da crítica especializada e depois perdeu para Chico Buarque, que foi votado pelo público, mas continua sendo o ganhador moral. Existe algum constrangimento entre você e Chico por causa dessa história?

(E.S.) Não conheço Chico Buarque pessoalmente, não frequentamos os mesmos lugares, não temos amigos em comum. Ele é uma instituição, autor de clássicos da MPB como “A banda” e “Sabiá˜, vencedor de vários prêmios literários. Chico Buarque nunca disse uma palavra desabonadora a meu respeito, mesmo tendo perdido o Jabuti de Melhor Romance para mim, um autor estreante, mesmo depois de toda a campanha que reuniu mais de 15 mil assinaturas . Tem sido elegante, espero me comportar da mesma maneira.

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Edney foi correspondente internacional da Globo em Nova York, foi o primeiro repórter a chegar no local do atentado terrorista às Torres Gêmeas em 2001.

(F.S.) Você é muito ativo nas redes sociais, usa Facebook, Instagram, Twitter. O que essas redes trouxeram de bom e de ruim? Qual o saldo?

Gosto de conhecer pessoas, gosto de papear, nós do interior somos assim, colocamos a cadeira na calçada e falamos com quem passa. É como vejo as redes sociais. Saí do Messenger recentemente, por conta de assédio de quem só se aproximava porque queria ser entrevistado no programa de literatura da Globonews. Passei anos explicando cordialmente que aquela era uma página pessoal, que a página a procurar era a do Globonews Literatura. Porém, após algumas agressões gratuitas e exibições de vaidade, entendi que era melhor cair fora. Muito do aumento da leitura de livros, hoje, deve-se ao incentivo trazido pelas redes sociais. Particularmente para leitores com menos de 35 anos.

(F.S.) Sobre o Acordo Ortográfico entre os países lusófonos. Contra ou a favor? Já aderiu à nova ortografia?

(E.S.) Não fui chamado a opinar antes da decisão. Ninguém é consultado. A decisão fica numa esfera totalmente fora do alcance. Depois dela, os livros didáticos têm que ser impressos novamente, milhões deles. Todos os livros, enfim. A quem isso beneficia? Mas já foi, está feito. Não adianta nada comentar agora.

(F.S.) E qual a sua relação com a Espanha? Conhece bem o país? Quando vem nos visitar?!

(E.S.) Gostarei muito quando meus livros forem publicados na Espanha, o que ainda não aconteceu. Sinto uma grande identificação com a cultura iconoclasta que deu origem a Gaudi, a Buñuel, a Cervantes, a Garcia Lorca, a Picasso, a Almodóvar.

(F.S.) Dá para definir o que é a literatura na sua vida em três palavras?

(E.S.) Acho que não. (risos) Tem três palavras na frase, não é mesmo?