Resenha: “O jogador”, de Fiódor Dostoiévski (COM PDF GRÁTIS)


O bom de escrever sobre os clássicos é que nós, leitores comuns, podemos escrever livres do preceitos e da pressão de dizer coisas interessantes, ou conseguir abordar coisas nunca antes abordadas (se isso for possível em relação aos clássicos, pois creiam: não há mais nada a ser descoberto sobre eles, quase não há mais o que se inventar. Outro dia brinquei dizendo que encontrei Cervantes bêbado num baile da 3º idade… ninguém deu atenção à minha piada, pior: agiram como se tivessem escutado há tempos, um piparote novinho em folha que custei passar à língua. Quer tirar a prova dos 9? Pergunte qualquer coisa, sobre qualquer escritor, e Tio Google, pai dos pais de todos os sábios, vai acabar com suas expectativas.), pelo menos, não precisamos dissecar óvulos não fecundados de baratas, nem estudar reumatismo de escaravelho, e mais: podemos ser banais e brincar enquanto absorvemos as maravilhas escritas muito antes das nossas auroras. O academicismo tem um peso dos diabos a carregar.

Agora que expliquei porquê me divirto em comentar os clássicos, pergunto: o que teria eu a acrescentar sobre Dostoiévski (1821 – 1881)? Não respondam: sei que nada – o que já é muita coisa.

dosto3

Dostoiévski

Pois… Outro dia lia com a televisão ligada, hábito do qual não consigo me livrar, cochilei; e escutei num seriado horroroso de bombeiros (uns playboys feios como George Clooney e, obviamente, mais feios do que eu), um deles citar o vício de Dostoiévski em jogos de azar. Citou as cartas escritas pelo russuiçudo às suas esposas em respectivas épocas do seu vício em jogatinas. Pasmei: o escritor não jogava pelo prazer de ganhar, ou pelo apego ao poder dos bolsos cheios (estudiosos alegam que o homem que escreveu Crime e Castigo tentava equilibrar sua deficiência financeira tenteando a sorte no jogo, mas esta, musa fugidia e sarcástica, lhe pregava peças por toda a Europa: pano de fundo para o enredo d’O Jogador), era o “gozo” de ver a bola correr na roleta e, num milésimo de segundo, perder uma grande quantia – que perseguia. Não à toa, dizia que era “um prazer comparado apenas ao orgasmo sexual”. Enquanto a bolinha corria, seu sangue fervilhava como um animal selvagem perseguindo a presa, com a diferença de que o animal queria a presa, o russuiçudo só queria correr atrás dela. Num desses frenesis entre orgasmo, jogo e paixões destruidoras nasceu o livro que Joel “A Víbora” Silveira (1918 – 2007) chamou de “maravilha de síntese”, e eu de: profundo estudo do prazer e do vício (pois sou viciado em jogos de cartas, e sou o maior jogador que conheço, imodéstia é o preço da virtude).

Otto Maria Carpeaux (1900 – 1978), o crítico que se não tivéssemos, teríamos que ter inventado, disse que um crítico francês, ao escutar sua conversa sobre a literatura russa numa espelunca em Barbados, embriagado, não se sabe se de champanhe ou vodka pura, gritou, próximo à mesa em que Carpeaux perdia umas merrecas acompanhado de Paulo Francis e Charles Bukowski, “mas que diabo de literatura será esta que não parece ter tido nenhum escritor medíocre e só figuras de primeira grandeza?”, ao perder mais essa rodada o trio de jogadores assentiu: Turgueniev, Tolstoi, Lesskov, Gogol, Puchkin… e a lista se estenderia por todo o século 19.

Em 1862, aos 40 anos de idade e infeliz no enforcasamento, Dostoiévski conheceu Polina Súslova, jovem de 16 anos que se dizia… estudante. Polina fez o quarentão perder o pouco cabelo que lhe caía sobre a testa: caráter sensual, voluntarioso, leviano e egoísta, arrastou-o à Paris. Ao saber que Polina tinha um amante, rompe com a ninfeta, segue com um amigo, Strákhov, a visitar Suíça e Itália. Depois de chutar lata pelos quatro cantos da Europa, volta à Rússia, mas, novamente movido pela paixão, volta aos braços e tormentos de Polina e parte com ela para a Alemanha, se instalando em Wiesbaden: onde deixa-se arder no fogo do jogo. Em 1863, abalado pelo rompimento com Polina, fala, em carta a Strákhov, sobre escrever O Jogador, experiência de jogos, vícios e paixões: “meu herói é um ser vivo, creio vê-lo diante de mim… Mas o interesse da estória reside no fato de tenderem todas as suas forças vitais, toda sua energia a um fim exclusivo: ganhar na roleta… Minha novela descreverá a vida e os sentimentos de um jogador absorvido há mais de dois anos pela roleta e nada mais.”, não foi assim que nasceu a roleta-russa?

Sou completamente suspeito ao falar de Dostoiévski, se ele escrevesse um livro de receitas de acarajé e este livro fosse um fracasso, tanto quanto os quitutes fossem ruins, ainda assim, seria um de seus mais fervorosos admiradores. Portanto, sou contra a opinião de exércitos de biógrafos e estudiosos que afirmam: “a novela foi escrita em apenas um mês (Dostoiévski estava forçado, sob cláusula contratual, a entregar uma novela a Stolóvski, seu editor e carrasco), escrevendo em tão curto prazo, não pôde fazer dela o estudo que tencionava sobre a psicologia do jogador”, ora!, li o livro como a releitura da experiência do próprio vício expiado à longa distância e depois esmiuçado com sarcasmo e despudor. Ele chorou e riu de si mesmo – definitivamente, O Jogador, não pode figurar entre seus menores trabalhos… e quando foi que o russo, viciado, epilético e, às vezes, bêbado, escreveu coisas pequenas?

Com este teor de autoconhecimento e desprezo para com opiniões alheias, nosso herói analisa o entorno do seu mundo de jogatina: “por mais ridículo que possa parecer ter eu tantas ilusões a respeito da roleta, mais ridícula ainda me parece a opinião rotineira, por toda a gente admitida, de que é estúpido e tolo esperar algo do jogo. E por que o jogo há de ser pior que qualquer outro meio para adquirir dinheiro, que o comércio, por exemplo? É certo que dentre cem um ganha. Mas… que me importa a mim isso?”, assim o personagem Alieksiéi Ivânovitch deixa, às escancaras, suas sórdidas e desafortunadas expectativas quanto ao jogo e, num misto de cinismo e descaramento, sua fortuna moral: “quanto às minhas sacratíssimas convicções morais, no meu verdadeiro modo de crer, não há aqui lugar para elas. Convenho que assim seja; falo somente para descarregar minha consciência. Mas o fato é que observei uma coisa: que nestes últimos tempos torna-se-me terrivelmente repugnante medir meus atos e minhas ideias por qualquer critério moral, seja qual for. Outra coisa me governa.”, o vício? O fogo frenético do jogo? Quem fala com total sensatez é um jogador derrotado pela fuga que não abraçou – entregou-se e já não é dono de si, não é escritor ou amante; apenas um jogador que se sabe perdedor mesmo quando crê que ganhou algo além da roleta. Mesmo o amor, dá seus passo sob o solo movediço onde Dostoiévski escreveu sua trama de extrema psicologia e tenso exame de consciência, pois foi por amor que entrou numa sala de jogo, foi por amor que jogou, foi por amor que jamais se importou em ganhar ou perder. Havia algo mais fundo pulsando nas entrelinhas do ciúme por Polina e pelo desvelo à roleta.

Até onde mergulhei, e me perdi na leitura, é um dos poucos – ou o único dos seus – romances que não aborda a mais ínfima questão religiosa: o vício e o jogo são a doutrina e a Ordem Religiosa vigente. Já o cinismo travestido de humor é tamanho que repetidas vezes voltei a capítulos com tais pitadas de desvario, Alieksiéi, após obter longos e largos afagos da sorte, sempre ela a musa fugidia, começou receber tapas e pontapés “… deveria ter me retirado naquele momento; mas ocorreu-me certa sensação estranha, algo assim como um prurido de desafiar a sorte, como capricho de fazer-lhe um pilhéria, de estirar-lhe a língua. Fiz a parada maior que se permite, ou seja, quatro mil florins, e perdi. Depois, já acalorado, tirei todo dinheiro que me restava, pu-lo naquela mesma parada e voltei a perder; depois do que me afastei da mesa como que aturdido.”, não consigo explicar o que me fez rir em tal passagem, mas que a cara de derrota, bem conhecida por este escriba: sofro com as surras no carteado, tem um quê de humor e tragédia que o mais largo riso não consegue exprimir – isto nem o mais abstêmio de jogatina de todos os tempos poderá negar. Ri e ri muito. Antes o mesmo empertigado Alieksiéi se torturava de amor e paixão, o primeiro por Polina o segundo pelo jogo: “parecia-me que, ao começar a jogar por conta de Polina, deitava a perder minha sorte pessoal. Será possível pôr os pés numa sala de jogo e não se ver logo assaltado por uma superstição?”, está tão cego de loucura e inclinação à mesa do jogo, que julga perder os traiçoeiros arpejos da sorte ao jogar para benção de outro bolso. Se este frenético joguete psicológico, onde o leitor se sente arrastado a quaisquer que sejam os riscos de um simples jogo de dados, não foi riscado pela caneta de um gênio suja na tinta da própria experiência, vivaz ainda na alma ultrajada por reconhecer-se viciado, nunca mais leiam nem a bula dos seus psicotrópicos.

Dostoiévski se viu viciado e escravo de seu amor pela jovem tempestuosa, mas em nenhum momento abandonou sua análise do ambiente “o dinheiro deve ser uma coisa tão desprezível para o gentleman, que quase não vale a pena preocupar-se com ele.”, é difícil dizer com os bolsos vazios, mais ainda quando se acaba de perder o pouco que tinha, assim segue “… a faculdade de adquirir constitui, através da história, um dos principais pontos do catecismo das virtudes ocidentais. Mas o russo, não só é incapaz de adquirir capitais, mas pelo contrário, os desperdiça a torto e a direito”, e arremata: “ainda está por ver o que é pior: se o escândalo russo, ou a capacidade germânica para desempenhar um trabalho honesto”, sem deixar de ser claro em sua relação com a roleta “eu prefiro entregar-me à libertinagem. (…) Sei bem que exagerei um bocado, mas que havemos de fazer? São estas as minhas convicções.”.

Tão preciso nas descrições dos personagens quanto nas divagações do herói-jogador, Dostoiévski passeia em sua trama entrando e saindo da mente daqueles que debruçam sobre a mesa de apostas a própria sorte e a dos seus – a dos seus principalmente. O que é realmente assustador e ao mesmo tempo fascinante, dando a densidade de seu mergulho no inconsciente do vício, é quão fundo ele vai nas próprias entranhas “talvez, e efetivamente é assim, não tivesse nascido para ter dinheiro e me houvesse dado uma vertigem. Peut-être, je ne demandais pas mieux (talvez não pedisse eu coisa melhor)”, (…) naquela mesma noite dirigi-me à roleta. Oh! Como me palpitava o coração! Não, não era pela ânsia do dinheiro!”, particular atenção merece também o cuidado que o jogador dá às suas notas quanto às estatísticas, que número deu mais em determinado correr de horas, quantas vezes deu tal cor, como se repetem as apostas, como os outros jogadores se portam e como apostam em números não dados ao cabo de tantas rodadas, se vale a pena arriscar novamente em números que só deram uma ou duas vezes durante a noite… tudo isto digno de quem, mesmo viciado e perdido entre jogo, amor e paixão, conseguiu tirar do abismo, que é todo vício, uma história ao tomar consciência do caminho de casa.

Às páginas tantas, Alieksiéi descobre que Polina sente por ti o mesmo amor que devotou à ela, ao aceitar ser “lacaio do general”, decidido a seguir o coração, ruma a um canto da Europa atrás dela, mas antes tocado pela leve mão da sorte, encontra um último florim e não larga a roleta sem o derradeiro gozo..

“Sou um andarilho, um jogador, sou o longo caminho para casa”, cantou bob Dylan… Que casa?! Fédor (ou Fiódor) “Alieksiéi Ivânovitch” Mikhailovich Dostoiévski, tendo como companhia a desgraça do vício e o prazer de sustentá-lo, vagou por salões de jogos e deu à Literatura Universal, não o caminho de casa, mas todos os atalhos para que nunca nos percamos de nós mesmos.


Leia o PDF grátis desse grande autor da literatura mundial.