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Resenha: “Estranhas coincidências”, de José Vieira


É certo que de Portugal ao Brasil não vieram apenas Cabral e suas caravelas cheias de sede do Novo Mundo, muito menos só a catequização, os jesuítas, o bispo Sardinha e todo o resto que forma nossa nação em língua e história a nos ligar aos lusitanos. A arte escrita veio, e veio com força, desde Camões e antes dele, a passar por todo o enorme oceano de nomes espraiados em anos de poesia e prosa, até Pessoa (maior Poeta da língua portuguesa de todos os tempos), e depois deste: toda literatura portuguesa dos nossos dias. E a tradição da boa prosa é respeitada e mantida com fervor entre os herdeiros patrícios – com amor acima de tudo.

Estranhas Coincidências, livro de contos de José Vieira (pseudônimo de Teresa Vieira Lobo), cruzou o atlântico e chegou às paragens da retina deste escriba deslumbrado com a arte narrar a sorte, e a falta dela, através da suspeição, da noção que temos de nossa vida ao atentarmos às vidas ao nosso redor, sensações que assumimos ao sentirmos a vibração do que acontece fora de nós, mas nos invade e passa a ser parte da nossa história. Uma leitura breve e prazerosa que, com certeza, não passa despercebida.

São quatro contos relativamente curtos e bem escritos. A prudência é tanta que se fosse apenas pudor não saberia distinguir “quê” de “quem”. O conto que abre o livro, A Partida de Judite, já me assaltou sem consultar as pestanas. É simples, direto – como todos os outros –, mas com uma carga sentimental que exacerba o que a linguagem simples pôde carregar em suas palavras bem-postas. Um primor! A carta deixada por Judite a Isaac, o viúvo trancafiado e perdido no labirinto de solidão e saudade imposto pela morte trágica da amada, me lembrou, e muito!, a cena final do filme Doce Novembro em que Sara (Charlize Theron), que tem um linfoma terminal, diz a Nelson (Keanu Reeves) “você deve continuar (a viver), pois, você é a minha eternidade”; num conto tão curto e intenso, é incrível como Vieira Lobo conseguiu segurar o rojão até o fim, o domínio da concisão, a dispensa dos floreios, porém cheio de flores a decorar o nascimento da esperança e o abrigo do coração guardado na alma. Isaac levaria Judite onde quer que fosse. E tem mais: foi de um filmaço a um musicaço, “Off He Goes”, do Pearl Jam (Isaac incorpora milimetricamente o motoqueiro narrado na música). Quando o link bateu, maravilhado, corri dedos e retinas ao próximo conto. E…

Empolgado com a tessitura do amor de Judite e Isaac (ou com o meu Porto… Sobrado, bem gelado) tomei fôlego e parti para o segundo conto: Samuel, O pastor Envelhecido. E novamente uma surpresa: não parece ter sido escrito pela mesma mão que escreveu o primeiro. Repetiu tantas vezes o nome de Samuel que parecia um narrador esquizofrênico recém fugido de um centro psiquiátrico, ou uma criança deslumbrada, ao sair da escolinha no final da tarde, a tentar contar aos pais o beijinho que recebeu da professora, mas sempre tropeçando no afã da empolgação. É claro que sou estúpido, todavia não ao ponto de não entender quando é, ou não, necessário nominar o sujeito de quem se fala. Se o conto narra todo o drama das escolhas de Samuel, com certeza saberíamos de quem o narrador estava a falar. Sei que há períodos onde é imprescindível nominar, sei isso e aquilo, sei disso e daquilo também, mas, com nitidez, é possível perceber o quanto, às vezes, é desnecessário. A temática do conto é boa, há dilemas e suas abordagens são conscientes: um homem decide abdicar de seus anseios da juventude para viver ao lado da família na terra onde nasceu; é aceitável e deve haver respeito pela escolha de cada um, ainda mais quando estas implicam responsabilidades familiais. No entanto, de tanto ouvir o nome de Samuel não cumprimentei um companheiro de trabalho por dois dias, e ficava tiririca!, quando escutava o seu nome. Ainda assim um bom conto, principalmente quando discorre sobre a beleza da vida campestre e o jeito sereno com que a vida corre e flui como um rio a galgar espaço entre pedras.

Amor Perdido narra a tragédia que açambarca a vida de Salomé: seu noivo vai à guerra e tomba numa emboscada, quando se aproximava a data do matrimônio. Este é o mais curto dos quatro contos, inicialmente moroso nos primeiros parágrafos, e como os parágrafos são curtos, tinha que dizer muita coisa em pouco espaço/tempo, tredo engano: depois correu com uma pressa irreprimível à uma Ordem Religiosa e à cama d’um hospital, sem esperança alguma à uma esperança que aparentemente dominaria o coração de Salomé… esta que no derradeiro suspiro viu, uma vez mais, a face do seu amado. Espero que ela tenha lembrado o nome dele (eu não escutei, seria meu ouvido de leitor estabanado, indigno?). Neste conto, ao meu ver, faltou um pouco de paciência, não na construção do personagem, porém no que decorreu entre a leitura da carta e a visita da morte na cama do hospital – nem pavio de bomba queima tão rápido.

Por fim, cheguei ao último conto, pé lá, pé cá, cheguei gostando, até então, do que li. Estranhas Coincidências é o quarto e último conto do exemplar e o título da obra. Conto interessante, toca no tema da homossexualidade, reprimida por valores de tradições retrógradas sustentados por paladinos banhados na lama onde querem jogar o próximo, como prova de sua integridade moral e pureza de caráter; toca no signo dos desígnios de Deus e mostra como é preciso uma centelha para que um fogueira de sentimentos de acenda. No entanto, narrado com a mesma pressa do anterior, como se quisesse se livrar do fardo para dançar o fado com a consciência mais leve: pois dá para sentir a vontade da autora em manter a atenção às coincidências, contudo, se já jogou as cartas na mesa, torna-se imprudente gritar o nome do jogo. O leitor tem por obrigação guiar sua percepção do que é literalmente narrado ou apenas sugerido nas entrelinhas. Cegos precisam de guias, leitores precisam ler. Apenas ler. Algo já havia sido dito no corpo do próprio conto: “nada era ambicionado tudo acontecia por alguma razão e força maior”, é o guia perfeito para todo e qualquer leitor, pois à essa altura já estaria familiarizado com as coincidências e a cadência das narrativas.

Nota-se em todos os textos, a vida simples, as decisões pesadas, as guinadas que a vida pode dar num mero passo, sempre o sentimento a pulsar mais forte enquanto o destino é traçado além das mãos dos que são guiados. Gostei do que li, e coloquei o livro na parte de releituras da minha estante, pois nos pequenos gestos narrados, podem estar os grandes passo que não podemos ver.

Vieira Lobo nasceu no Portugal rural, em fins dos anos 80. Como sempre sonhou em ser escritora, decidiu participar de um concurso literário, mas “o principal intuito não era o concurso literário em si, mas a escrita”, e assim nasceram os contos com que nos brinda nesta sua estreia. E como disse mais “escrever o Estranhas Coincidências foi um escape da realidade.”, estavas a fugir da realidade para firmar estilo e arrojo em sua escrita. Se apontei uma outra coisa que possa parecer falha, talvez não o seja, e se por insistência assim parecer, é minha carranca de leitor que franze o cenho. Ela, tenho plena certeza, vai esmerar seu estilo, pois é assim que escreve e é assim que vai continuar a escrever. E ouviremos falar dela, e já não serão mais coincidências, mas a voz vibrante de um literatura cunhada com simplicidade e talento.

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Vieira, José. Estranhas Coincidências. Chiado Editora, Portugal, 2014. 54 páginas

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