Onde estão os poetas?


Quando havia “Correio do Amor” no colégio – quando havia colégio, hoje existem centros de formação delinquente –, apareciam alguns poetas de opereta. Fui um deles. Espero não precisar avisar que copiei um soneto de Vinícius de Moraes (1913 – 1980) por uma causa “cardio-amorosa” (“Soneto do Amor Total” ainda recito sem errar uma vírgula, as primaveras passaram, o soneto ficou): tentar derreter o iceberg sob a blusa da filha da prof.ª de História. Não funcionou, mais fui o mais famoso daquele 12 de junho de… bem, o ano não te interessa.

Pena que mesmo hoje, depois de tanto tempo, a filha da professora sendo minha amiga, casada com um velho amigo de infância, não tenha gostado do que fiz. Não pelo que fiz, mas pelo soneto que achou “muito meloso, desesperado…”, veja você, o cara tenta agradar e leva patada, pior: ainda ofende a memória de Vinícius.

 Ainda existem estes românticos desparafusados como fui um dia?

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 (Desenho de Marine Walon para a Revista Dínamo)

Nenhum poeta consegue viver da sublime arte de levar emoções ao papel. Encontre um que viva apenas de poesia, que não seja tradutor, dramaturgo, cronista, contista (romancista hoje, quase impossível!), ascensorista, verdureiro ou taxista, grafiteiro ou péssimo “faz tudo do bairro”, pichador, gravador, síndico e cínico, agiota, ou banqueiro do jogo do bicho… e eu nado no Tietê! Com a Bruna Marquezine (assim mato Paola Oliveira de inveja).

Esta pergunta veio comigo através destes anos, mordendo minhas orelhas, chutando meus calcanhares: onde estão os poetas? Onde estão os poetas? Você sabe onde procurar um?

Todo mundo gosta de poesia. Quem não gosta não é ruim da cabeça ou doente do pé: é um zumbi. Como fazer para mantê-la acesa, chama capaz de pôr luz na escuridão, livrar o homem de suas negações retrógadas e entregá-lo a si, refeito sob o signo do verso?

Jô Soares outro dia, entrevistando um matemático (ninguém importante: só o nerd que ganhou a Medalha Fields considerada o prêmio Nobel da matemática, portanto: o Pitágoras brasileiro), disse que este só tiraria o chapéu para um poeta. É verdade, a poesia é uma arte acima de vários degraus da expressão escrita: há sensações e emoções incalculáveis, dispensa a aritmética.

Ivan Junqueira (1934 – 2014), que foi poeta desde a unha encravada à raiz do cabelo branco, disse que jamais indicaria a Poesia a alguém que quisesse iniciar carreira literária “poesia não vende. Nunca vi um poeta best-seller, simplesmente não dá renda, pelo contrário: um poeta do porte de Manoel Bandeira pagou do próprio bolso as edições dos seus três primeiros livros (posso estar enganado quanto ao número dito por Junqueira, pode ter dito: seis ao invés de três).”, queixou-se, mas afirmou: “nasci poeta e morrerei poeta!”.

Bruno Tolentino (1940 – 2007) poeta pouco lido, pouco conhecido, mas um excelente homem de letras e muitíssimo premiado, também queixou-se a respeito da poesia dos nossos dias: “ninguém se interessa por poesia. Todo mundo diz ler, gostar, porém fica só em gosto recatado…” e fechou a bodega “minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média…”.

Rimbaud (1854 – 1871), depois dos braços de Verlaine, de trocar absinto pela Abissínia pouco antes de enlouquecer de vez, disse, em carta à irmã: “(…) além do mais eu teria enlouquecido. Era tudo porcaria (a poesia)”, não se referia à poesia enquanto arte, corpo do qual o poeta jamais deseja apartar-se, falava do interesse pelo autêntico verso, pelo sabor da palavra a despertar emoções, erigindo montanhas para depois arrastá-las ao fundo mar e reerguê-las sob o pulsar de corações arrebatados. Rimbaud continuou escrevendo, é verdade, mas sem o mesmo fervor dos primeiros anos. O desencanto não matou o poeta, contudo, o fez ir mais rápido ao fundo do poço.

Fico a pensar: por que a poesia não ocupa os espaços de destaque nas prateleiras das livrarias; por que não estampa artigos de revistas especializadas; por que não entra na lista dos mais vendidos da “Cega”; por que não é distribuída nas ruas como esses panfletinhos de financeiras e tarólogas charlatães; por que não é tema de conferência nas escolas; por que não pode ser regada como as flores de um jardim pertencente a todos os seres? Sinto-me um mudo gritando a surdos.

Outro dia, no ônibus, vi um estudante tinhoso, como todo moleque de 15 anos deve ser, ler um terceto – parafraseado – de Florbela Espanca:

 “Andava a me procurar – linda e louca!

E achou o teu olhar no meu olhar

E a tua boca na minha boca!

(Ao pé da letra leiam o soneto EU)”,

Só percebi o trote porque já labutei com este soneto tentando beijos que acabaram malfazejos. Foi um lampejo, é vero, porém ainda é possível vir este romantismo aqui e ali. Não sei qual foi desfecho do recital do enfant terrible, mas desci no meu ponto menos descontente por ter escutado minha adolescência tão distante e tão nítida sob a ânsia de uma voz desconhecida. Mas não passou de lampejo. A poesia precisa de algo mais do que os simples impulsos juvenis para transpor as barreiras que tentam cerceá-la.

E já que um impulso juvenil me trouxe Florbela, com ela encerro meu grito que já ecoou se sabendo vão:

Rasga estes versos que te fiz, amor!

Deita-os ao nada, ao pó, ao esquecimento,

Que a cinza os cubra, que os arraste o vento,

Que a tempestade os leve onde for. Primeiro quarteto d’Os Meus Versos