Literatura & Cinema: Amor e Desprezo


Pouco entendo de cinema, já disse uma vez (e acabo de repetir). Entretanto, o tempo joga alguma luz sobre o que a gente acumula de tudo o que já assistiu. E baseado nessa luz, fraca a bem da verdade, vamos além do que nossa apreensão guarda – e nunca sabemos pra quê.

Por exemplo: se você assistiu Apocalipse Now, e não gostou do filme – eu adorei –, vai começar a cortar isso e aquilo, este personagem ou aquele, tem quem diga que colocaria Brando para trabalhar. Depois de tudo isso, de tanto corte e retoque, ainda vai sobrar um grande filme (eu não mexeria numa vírgula da película). E se nem um simulacro de roteiro sobrar, todos serão salvos pelo livro que o inspirou: Coração das Trevas – obra-prima de Joseph Conrad.

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É assim, literatura e cinema andam de mãos dadas, mas a primeira é indiferente, vive uma sublimada existência sem se preocupar com ventos e navegadores. O segundo sobrevive, por vezes aos trancos e buracos, e nos barrancos filma algumas cenas livres de banalidades. A literatura supera o cinema nitidamente porque, às vezes, com um misto de piedade e desprezo, dá alguma migalha de pão e um pouco de café amargo a este pedinte desgraçado que vive lhe roçando a barra da calça. Como é que é minha senhora!? É isso mesmo!? É!

Assisti Clube da Luta. Vejam bem.

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Se você tira Brad Pitt, Helena Bonham Carter e o clássico Edward Norton do roteiro, todo espectador vai imaginar que Chuck Palahniuk (autor do livro que inspirou o filme) é o nome do próximo Boneco Assassino. Até acredito que o Boneco endemoniado seja inspirado em Palahniuk. Assisti ao filme algumas vezes. Minha opinião não mudou. Tire os três, e só o diabo sabe o que sobra. Talvez sabonete, soporífero, alguns socos, sangue jorrado e… insônia. Filme mesmo, é muito difícil. Não li o livro, não sei se é tão, digamos, insosso quanto o filme. Dirão: “Roger ‘de Almeida’ Ebert, e a psicologia, e o enredo de nuances que analisam as reações psicossomáticas?”. Blablablá! Blablablá! “Roger, e a trama que reconstitui a insatisfação do indivíduo deslocado numa sociedade caótica?”, blablablá! Só blablablá! Não insistam!

Pode ser que sobre o livro, mas se os três saem do filme. Venha comigo: há quem sustente que se Brad (sim: o feioso que me roubou Angelina Jolie!) não tirasse a camisa não teria filme. Eu fico com quem acredita que sem a introspecção e o estofo interpretativo de Norton, só haveria sabonete e Bonham Carter com cara de quem acaba de assumir o papel de diretora do hospício – no instante em que seria apenas uma mendicante disputando ossos com algum vira-lata na Sunset Street. E?!

E para não ser tão disparatado quanto pareço, acredito na sobrevivência do livro. Porque a literatura, para graça e validade da vida artística, supera o cinema. Pois sem literatura por trás, o estrago poderia ser ainda maior. Exemplo!?

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Pegue Comer, Rezar & Amar, tire o elenco peso pesado (Julia Roberts e Javier Bardem, excelentíssimo ator, péssimo jogador de sinuca); que resta? Um monte de falas e evasivas filosóficas de quinquagésima catiguria, e tanto falatório desconexo que faria de qualquer manicômio uma plêiade do melhor pensamento da raça humana. E mesmo o mais pobre pensamento da raça humana, saberia que a Literatura está acima do cinema.

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