Resenha: Marlon Brando – A face sombria da beleza


François Forestier escreveu, ao meu parco ver, um dos livros mais sensacionalistas dos últimos tempos: Marlon Brando – A Face Sombria da Beleza. Cadê a bibliografia? Há vasta bibliografia no final do livro. Porém, ainda assim, o sensacionalismo beira a sandice. Ou ofende a capacidade de discernimento do leitor, do fã e de todo apreciador tanto de cinema como de literatura mesmo. Longe de mim querer defender a imagem de Brando! Não defendo nem a minha. Perdi minha sombra na boca de um vira-lata, nunca mais voltei a procurá-la. Mas o livro de Forestier atenta até contra os simples desejos sexuais do homem – o meu, o seu e o das mulheres também: sua irmã, sua prima, sua… sim!, ela mesmo: sua mulher! Na língua do sujeito a mulher, toda a mulher diante de Brando, não passa de uma cadela com o cio elevado à enésima potência.

Marylin Monroe não passa de um brinquedo que Elia Kazan dá a seu “ator entediado” quando este precisa de diversão, e o mesmo, por inúmeras vezes, dispensa seus serviços. “Marylin durma com o pulguento que abocanhou a sombra de Gerson”, “Marylin durma com o barman que me serviu um ótimo drinque”, “Marylin durma com meu contador porque não paguei seus vencimentos este mês, depois com o indigente da Sunset Boulevard.”. Não posso conceber que o caguete mor do macarthismo como foi taxado, tivesse tanto poder sobre a mulher que viria a ser o maior símbolo sexual de todos os tempos desde que existem o termo – “the sex symbol” – e o Tempo! Você já viu uma foto de Kazan? Dá pra imaginar uma mulher submissa aos caprichos do cabra, ainda que estivesse na posição de alpinista hollywoodiana? Esqueça que se trata de Norma Jean Mortenson. Esqueça que só podemos sonhar com ela. Ainda assim, é impossível imaginar o que Forestier trata como “vícios do círculo”.

Brando tinha seu sex appeal elevadíssimo, tinha seu mérito, a Natureza lhe foi generosa, uma vez na fila da estética, pegou as parcelas de beleza que salvariam a mim, a você amigo(a), perdoe-me a modéstia, e ao meu primo (que este não me leia). Assim, Marlon Brando Jr foi, sob ovação de centenas de milhares de ninfetas, eleito o homem mais bonito da história do cinema. Ah, não posso esquecer dos viados – “viados” porque Arnaldo Jabor disse que Millôr Fernandes disse que “quem escreve: veado é viado!” –, a horda de bibas perseguia Brando palmo a palmo com a mulherada. Tennessee Williams que o diga. Segundo Forestier, era louco por Brando e teve com ele suas aventuras “boiolescas”.

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Esqueci de avisar: navegantes! Tudo o que digo aqui, entenda-se: segundo Forestier. Dito isso…

Sabe aquela mulher bonita d’O Vento Levou? Foi pro espeto! Era esposa de Laurence Olivier, então imperador do cinema mundial. Reinava absoluto, sem nada, nem ninguém, que lhe fizesse beira. Vivien Leigh pôs tanto chifre no imperador que antes de perder o trono, adquiriu o novo título criado por sua esposa ninfomaníaca: o maior “guampa seca” do cinema. Isso é o de menos. Era traído pela rainha decadente com maquinistas, cinegrafistas, cenógrafos, assistentes de elenco e palco, taxistas e todo tipo de degenerado. Qualquer um a 85cm da área pubiana da danadinha. Brando foi o tom diferenciado da enorme lista de madame Leigh.

Nem Sinatra escapou! Ava Gardner, também foi pro espeto!, decorou a cabeça de mrs. “Blue Eyes”, mesmo com o autor da façanha ameaçado de morte (genital). Há também, no seu infinito círculo de amantes, Esther Anderson que mais tarde viria a ser uma das tantas amantes de Bob Marley (outro dândi). Shelley Winters, Ursula Andress, Pier Angeli, Rita Moreno, dão mais nomes a infindável lista de almas dragadas pelo tsunami causado por Brando. Não posso esquecer de Stella Adler, preceptora, tutora teatral e nas horas vagas: companheira para looongos diálogos sob lençóis ardentes. Detalhe: sob mortal inveja e anuência do marido. Uma biba enrustida. Chifrudo com orgulho hollywoodiano. Todas estas, além de um sem-número de suicidas.

Outra coisa que me encucou: sob a visão “forestieriana” tudo, no círculos Hollywoodianos, é movido a homossexualismo, – de lesbianismo pouco se falou – a tal ponto que quando alguém insiste em ficar com alguém do sexo oposto – é viado querendo se esconder na caixa de fósforo. Como se coisas do tipo fossem possíveis em Hollywood.

O livro fala muiiito das noites dentro da noite na vida de Brando. Uma curiosa aconteceu em Cuba. No Tropicana, a geena dos prazeres na ilha caribenha, sua presença agita as ticas. Escolhe duas. Sublimes. Berta Rosen e Sandra Taylor, tudo isso na companhia de um jovem e promissor escritor – um tal de Guillermo Cabrera Infante. Percorrendo a via crucis do prazer, vão ao Shangai famoso por seus sex shows, onde a grande estrela, um crioulo conhecido como Superman, exibe um instrumento de… 45 centímetros! Para começar o danado papa uma no palco, já combinada. Depois, convida uma espectadora para se divertir. E, então, penetra suavemente, para ver quantos centímetros a moça aguenta, na boca ou em outro lugar. À escolha. Delírio da plateia garantido. E… Brando deixa as duas moças de lado e vai embora com o Superman. Verdade? Mentira?

Tem o caso da famigerada entrevista da década de 70 quando brando afirmou ter tido experiências homossexuais. Há menção à propalada foto do “boquete Brando”. Forestier, se valendo das palavras de Maria Schneider, afirma que Brando – não duvido e nem acredito com tanta veemência – era gay e não bissexual como percorre abertamente as linhas em seu livro. Entrelinhas? Nem para falar do alcoolismo de mamãe Brando.

No entanto, nem só de algodão -doce, e calda de pavão, faz-se um livro sensacionalista, não é mesmo? Precisa-se de um pouco de sangue. E teve muito sangue. Beirou o tarantinismo.

O língua solta discorre sobre o assassinato do genro de Brando: Dag Drollet. São tantas hipóteses que o próprio Brando é apontado como suposto assassino do junkie, ainda que veladamente, como se fosse possível depois de tanto veneno destilado. Christian Brando, mais um filho de astro que não chegou a ser archote, foi acusado e condenado. Ao que tudo indica matou a sangue frio.

Crimes envolvendo viciados são sempre pratos cheios para especulações e enredo dignos do cine trash. Cheyenne, o diamante de Brando, então grávida de 7 ou 8 meses, teria reclamado com o irmão, Christian, que Dag Drollet vinha-lhe aplicando doses homeopáticas de punho cerrado da melhor qualidade, enquanto trepavam, fumavam maconha ou se injetavam heroína – sob as asas do pai obeso e recluso. Nada fora do normal para o estilo de vida deles. Até que Brando, ao saber do que se passava sob suas asas, mandou o descerebrado Christian (QI 78. Normal entre 90 e 110) dar um susto no espancador de menininhas. Resultado: um bala de 45 entrou pela têmpora esquerda de Drollet saindo pela direita em diagonal, e se escondeu debaixo do tapete da enorme sala (a descrição feita por Forestier é digna de um perito no assunto. Cinematográfica!). Foi encontrada por Brando, dias depois. O que se sucede, são atos do teatro da decadência.

Dinheiro. Dinheiro. Dinheiro. E dinheiro. Muito se gastou para salvar a pele do candidato manchú. Não adiantou. Nem mesmo a presença do pai atravancando as investigações, ou chorando no tribunal, o livrou da pena. Não lembro quanto tempo ficou engaiolado, sei que quando as cinzas de Brando foram lançadas no Death Valley, a 300 km de Los Angeles, Christian estava na cadeia. Sobrevivendo graças à veneração que o Hell’s Angels tinham por seu pai – Johnny d’O Selvagem da Motocicleta.

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Loucuras e exageros, balelas mirabolantes ou não, tudo tem seu preço e Marlon Brando esteve ciente de tudo isso quando se lançou ao inferno da fama e do dinheiro hollywoodianos. No entanto, nada fere o impacto de que ele é realmente o maior ator de todos os tempos.

No mais, o livro tem seus méritos. Se deve ler? Desde que faça devidas considerações, aparte exageros, que não são poucos, deve ler sim. É um livro que deve ser lido. Porém, não com o intento régio do monopólio da verdade factual. Mesmo por que intui: a cada informação dada, precisaria fazer devidos descontos para arquivá-las na cachola. E há outras biografias que o espalhafatoso Forestier escreveu sobre Marylin Monroe, a cadelinha de Kazan, e JFK. Deve ter algo de fatidicamente verídico na sua apuração da imagem destes personagens históricos. Ou o língua solta tem todos os parafusos soltos ou um monte de ervilhas podres fazendo as caras de neurônios – e nisso não há diferença.

É comprar, ler e pesar pra ver se o peso valeu a leitura.

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Forestier, François. Marlon Brando- A face sombria da beleza. Objetiva, Rio de Janeiro, 2014. 200 páginas